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  • Oscar Nestarez

O arrepio do horror nos quadrinhos


Imagem de "Uzumaki", de Junji Ito (fonte: divulgação)

É relativamente recente a pesquisa acadêmica tanto de histórias em quadrinhos como da ficção literária de horror. Ambas consolidaram-se a partir da segunda metade do século 20 — mais especificamente, na década de 1970, quando observamos um significativo crescimento do interesse pela nona arte e por livros de horror. Até então, essas obras pareciam relegadas a uma espécie de ostracismo acadêmico, permanecendo à margem do espectro investigativo de pesquisadores.


Hoje, o cenário é diferente. Décadas após surgirem os primeiros estudos aprofundados sobre as singularidades dos quadrinhos e da ficção de horror, é crescente o número de trabalhos dedicados a esses objetos. O cinema ajuda a explicar o aumento: adaptações cinematográficas tanto de livros de horror como de HQs atraíram uma atenção inédita para as duas formas de arte. No campo da literatura, autores como o estadunidense Stephen King e o britânico Clive Barker estabeleceram-se como referências do gênero graças, principalmente, à transposição de suas obras para as telonas. Já no território dos quadrinhos, basta mencionarmos a dimensão obtida pelos estúdios Marvel e DC no mercado de entretenimento.

CONCEITUANDO O HORROR NA FICÇÃO


A consolidação do horror como categoria estética também é relativamente recente — as primeiras teorias datam igualmente de meados dos anos 1970. No entanto, os estudos dessa época (em sua maioria anglófonos) se concentram sobretudo no cinema de horror, que viveu uma espécie de era de ouro após o tremendo sucesso comercial do filme O exorcista, em 1973. Produções do gênero passam a atrair enormes quantias de dinheiro, estabelecendo-se uma verdadeira indústria, em um processo que chamou a atenção de pesquisadores dessa linguagem.


Já em relação aos estudos literários, um marco pode ser atribuído à publicação, em 2016, de Horror – A Literary History. Trata-se de uma coletânea de artigos organizada pelo pesquisador catalão Xavier Aldana Reyes em que cada texto ocupa-se de um período fundamental na historiografia do horror, das origens no gótico até o horror pós-millennial. Aqui, interessa a introdução de Xavier Aldana Reyes ao conjunto de artigos, uma vez que, nela, encontra-se uma definição precisa para as narrativas literárias de horror. Ele lembra que o próprio termo “horror” advém de um efeito; afinal, sua origem está no verbo latino “orrere”, que significa “eriçar” ou “arrepiar”.


No estudo seminal A filosofia do horror – Ou os paradoxos do coração, o filósofo estadunidense Noël Carroll também destaca essa etimologia e agrega, a ela, a palavra do francês antigo “orror”, que pode significar “reagir raivosamente” ou “tremer” (1990, p.24). Dessa forma, as narrativas de horror constituem-se como tal pelo efeito estético causado, ou pela intenção de fazê-lo. Assim, tais histórias são compostas por uma série de procedimentos narrativos e temáticas específicos, que nos permitem designá-las como pertencentes à categoria do horror.

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS COMO SISTEMA


Já em relação às narrativas sequenciais, um dos estudos mais abrangentes é O sistema dos quadrinhos (2015), publicado pelo pesquisador belga Thierry Groensteen. O autor defende a primazia da imagem nos quadrinhos e, dessa forma, a necessidade de dar uma precedência teórica ao que ele designa como “códigos visuais”. Por isso, propõe que se aborde as HQs “do alto”, para que se observe em detalhes os níveis de suas articulações maiores.


As histórias em quadrinhos, afirma Groensteen, são fragmentárias e se encontram em sistema de proliferação. Jamais constituirão o enunciado como um todo, mas podem e devem ser vistas como componentes de um dispositivo maior. São uma combinação original de uma (ou duas, junto com a escrita) matéria(s) da expressão e de um conjunto de códigos, e por essa razão podem ser descritas apenas em termos de “sistema”. O autor afirma que o que se busca é uma via de acesso ao interior desse sistema que permita explorá-lo em sua totalidade e mostrar sua coerência.


Para Groensteen, o único fundamento imanente dos quadrinhos é a conexão de uma pluralidade de imagens solidárias. Esse é o elemento central da teoria do autor: a “solidariedade icônica”. São solidárias as imagens que participam de uma sequência, apresentando a dupla característica de estarem apartadas (descartando-se quadros individuais, que encerram em si uma riqueza de padrões ou anedotas) e serem plástica e semanticamente sobredeterminadas pelo simples fato da sua coexistência.

Como objeto físico, todas as histórias em quadrinhos podem ser descritas como uma coleção de ícones apartados e solidários. Groensteen, então, oferece definições para esses ícones — o que nos permitirá entender os mecanismos do horror nos quadrinhos:


Requadro: Em grande medida, é o requadro que faz o quadro. A prancha, sendo um aglomerado de quadros justapostos da mesma forma, é reduzida à sua estrutura, o que se batiza de “multirrequadro”. A representação esquemática tradicional de uma página de HQ nada mais é do que uma grade onde os compartimentos são deixados em branco; o “esqueleto”, sendo apenas o corpo do objeto suscitado.


Quadro: menor unidade do quadrinho. Em sua configuração normal, ele é apresentado como uma porção de espaço isolada por vazios e delimitado por um requadro que assegura sua integridade. Assim, independentemente de seu conteúdo (icônico, plástico, verbal) e da complexidade que possa manifestar, o quadro é uma entidade aberta à manipulação geral.

Emoldurado, isolado por vazios geralmente de pequena dimensão, o quadro permite sua fácil identificação e destaca-se no continuum sequencial. O quadro tem o poder de prender o leitor, contrariando por um instante a “fúria de leitura” que o leva a galopar pelas imagens, sempre em frente.


Página dupla: unidade pertinente que merece atenção. As páginas da esquerda e da direita não são equivalentes no que diz respeito à utilização das posições. A sensação de surpresa acontece ao virar a página e descobrir uma página nova (na esquerda). O suspense geralmente é sustentado na página da direita.


Balões: existem não apenas para dizer aquilo que as imagens não conseguem exprimir; também têm a função importante de dar naturalidade e aproximar da realidade – as pessoas, no geral, falam. O formato, o número e o posicionamento de balões também participam da gestão do espaço e contribuem de maneira determinante para conduzir o olhar do leitor. O ARREPIO NOS QUADRINHOS


Isso posto, como o horror se manifesta — ou pretende se manifestar — nos quadrinhos? Aqui, utilizarei uma das histórias da coletânea Delirium Tremens para propor uma resposta. Publicado pela editora Draco em 2019, o gibi (100% nacional) traz um conjunto de narrativas inspiradas livremente pelo universo de Edgar Allan Poe, sem as amarras da adaptação do texto literário. Neste texto, abordaremos “Butim”, que tem roteiro de Raphael Fernandes e arte de Tiago Palma e se inspira livremente no conto “O enterro prematuro”, de Poe (que trata também de um dos maiores medos do autor estadunidense, de acordo com seus biógrafos).


Transitando entre a ficção policial e o horror, a HQ é apresentada do ponto de vista de um narrador-defunto — literalmente, já que toda a ação ocorre diante dos olhos de Antônio Correa, homem idoso que acaba de ser assassinado. A narrativa segue uma estrutura simples: cada página dupla é dividida em seis quadros retangulares, todos do mesmo tamanho. Quadros estáticos, pois estático é o olhar de um morto, conforme mostra a imagem abaixo:



Assim, funcionando como a visão do defunto (um recurso muito semelhante à câmera subjetiva de narrativas audiovisuais), esses quadros apresentam os acontecimentos que sucedem imediatamente o assassinato de Antônio. O evento principal é o inquérito policial para descobrir quem o matou, considerando-se que o homem possuía um patrimônio significativo. De seu ponto de vista mudo e impotente, o cadáver ainda consciente acompanha as intrigas e acusações de familiares, especulando ele próprio sobre o(a) assassino(a).


Neste contexto, exercem papel fundamental os balões, uma vez que os quadros estáticos apresentam uma verdadeira cacofonia: diálogos entre policiais, conversas transcendentais entre médicos legistas, debates acalorados entre possíveis herdeiros durante o velório etc. São os balões que orientam o olhar do leitor; são os diálogos e a voz da consciência do defunto, pedindo desesperadamente para ser ouvida, que organizam a narrativa e estabelecem a “gestão do espaço”, como determina Groensteen.


Em relação ao efeito do horror, “Butim” ancora-se em dois elementos principais. O primeiro se refere ao enredo, pois a HQ trata de algo que apavora não apenas Edgar Allan Poe, mas a humanidade desde tempos imemoriais: sermos enterrados vivos. De início, o narrador-defunto parece não saber que está morto; e quando descobre sua condição, luta angustiadamente contra ela, até chegar ao mais profundo desespero, intensificado por uma terrível revelação final. Nesse território, a narrativa sequencial de Delirium Tremens de Edgar Allan Poe filia-se a uma vasta tradição de obras literárias criadas a partir do medo de sepultamentos prematuros, tendo o próprio Poe como figura de proa. Também relaciona-se a consagradas ghost stories da literatura, de autores como M.R.James, Henry James, Robert Aickman, entre tantos outros.


“Butim” também busca o efeito do horror por meio da primazia da imagem, bastante vinculada ao grotesco. Aqui, a narrativa se afasta da literatura, uma vez que a descrição textual de uma autópsia, por exemplo, jamais será tão explícita ou vívida quanto uma descrição visual; é o caso da HQ em questão, em que o narrador-defunto acompanha todos os detalhes sórdidos da própria autópsia, conforme demonstrado a seguir:



Por outro lado, a virada de página é um recurso central para o efeito do horror. Os elementos visuais das HQs podem ser organizados de modo a proporcionar uma revelação, conforme Groensteen estabelece na conceituação de páginas duplas; um “abrir de portas” para o leitor, apresentando-o a cenários assustadores (frequentemente pela via do grotesco). As narrativas sequenciais, em especial, tiram proveito disso, acentuando o suspense que necessariamente se vincula ao efeito do horror. Em “Butim”, esse recurso é utilizado em dois momentos: na realização da autópsia e na página que antecede o último quadro, com a revelação final.


Por fim, uma última estratégia narrativa pode ser apontada como elemento recorrente nas narrativas sequenciais de horror, em especial “Butim”: a oralidade. No caso da HQ, a história é toda relatada por meio de diálogos, uma vez que mesmo os balões recordatórios expressam a consciência do defunto, e não a voz de um narrador onisciente. Como afirmou Groensteen, a fala tem “a função importante de dar naturalidade e aproximar da realidade”, de modo a intensificar a experiência de quem lê uma história de horror — não importando a linguagem utilizada.

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