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  • Oscar Nestarez

Sexo e horror: como esses temas se encontram na literatura e no cinema


Cena de Dracula (1992), dirigido por Francis Ford Coppola (Foto: Reprodução)

Em Crimes of the future, o filme mais recente de David Cronenberg, a jovem cientista Timlin (Kristen Stewart) aborda o artista Saul Tenser (Viggo Mortensen) após uma de suas apresentações e profere a seguinte frase: “Cirurgia é o novo sexo”. Ela se refere à performance na qual a parceira de Tenser, Caprice (Léa Seydoux), remove cirurgicamente os órgãos que “brotam” dentro do corpo dele.


O espetáculo impressiona: diante de uma plateia, o artista é colocado em uma cabine de aspecto alienígena, e Caprice, operando um pequeno dispositivo gelatinoso, controla os braços mecânicos que cortam o corpo e extraem o órgão. As cenas são explícitas, e nada de anestesia. Pelo contrário, a dor é substituída pelo prazer que tanto Tenser quanto Caprice sentem durante o ato, corroborando a afirmação de Timlin.


O filme foi celebrado como a volta de Cronenberg ao horror corporal, subgênero no qual o corpo humano se transforma na matéria-prima do assombro. O cineasta canadense é considerado um dos maiores expoentes do body horror no cinema, graças a obras como Scanners (1981), Videodrome (1983) e A mosca (1986).


Cronenberg andava afastado dessa seara desde 1999, quando lançou eXistenZ. Daí em diante, vieram filmes diferentes, como Senhores do crime (2007) e Mapas para as estrelas (2014). Crimes of the future marca o final desse hiato e o retorno do chamado "Cronenblergh".


Incômodo e tensão sexual


Há, porém, bem menos de blergh aqui do que na lenta transformação de um cientista em inseto, ou em telepatas capazes de explodir cabeças. Quase nenhum personagem em Crimes of the future sofre com incisões ou mutilações; a verdade é que, no futuro próximo proposto pelo filme, as intervenções cirúrgicas constituem novas formas de prazer.


Em vez de chocar, essas sessões atraem: as pessoas, ao menos dentro do universo ficcional do filme, querem ver. Tornam-se voyeurs, enquanto Tenser, Caprice e outros personagens gozam ao se exibir.


Claro, tudo isso está no plano ficcional. Nós, do lado de fora, tendemos a sentir certo incômodo e forte estranheza; mas também não ficamos insensíveis à tensão sexual da história. Esse amálgama de reações e sensações chama a atenção para o instigante — e prolífico — cruzamento entre horror e sexo. Um diálogo que pode parecer recente, mas que uma análise mais detida revelará ser antigo.


Pensemos em dois âmbitos: o implícito e o explícito. Ou, para usarmos um conhecido jargão do cinema erótico, o softcore e o hardcore. Porém, dado o espaço limitado, ficaremos na seara literária, deixando a sétima arte para uma futura coluna.


O fascínio de vampiros e vampiras


Em um plano implícito, soft, erotismo e horror caminham juntos na literatura desde os primórdios do vampirismo. Já Lord Ruthven, de O vampiro de John Polidori (1819), atraía por características hoje consideradas típicas da personagem: um aristocrata misterioso, excêntrico e sedutor. É forte seu campo magnético, para o qual gravitam mulheres como Aubrey e Ianthe.


Quase oito décadas depois, o mesmo poder é exercido por Drácula sobre a jovem Lucy Westenra, no romance de Bram Stoker publicado em 1897. Na obra, temos também três personagens tão perigosas quanto excitantes: as noivas de Drácula, um trio de vampiras que habita o castelo do conde e por pouco não leva um enfeitiçado Jonathan Harker à ruína. No cinema, as noivas renderam uma das cenas mais sexy — e assustadoras — da adaptação do romance realizada por Coppola, em 1992.


Na literatura vampírica que se seguiu a O vampiro e Drácula, sexo e assombros foram cada vez mais frequentes. As criaturas de Anne Rice, por exemplo, não enxergam gêneros, e as relações homoafetivas marcam a série The vampire chronicles publicada pela autora a partir dos anos 1970. Aqui, sexualidade e desejo estão no núcleo das histórias de Lestat, Louis, Armand e Magnus.


O mesmo ocorre no romance Fome de viver, publicado em 1981 pelo norte-americano Whitley Strieber. Na história, a vampira Miriam Blaylock mantém relações sexualmente intensas com seus “transformados”, até que eles e elas acabam por sucumbir e precisam ser substituídos. A obra virou um clássico dos anos 1980 dirigido por Tony Scott e protagonizado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon.


Muito além da dor e do prazer


Já no plano mais explícito, um nome incontornável é o do britânico Clive Barker. Seu romance Hellbound Heart (1986) é construído a partir de uma máxima antiquíssima: “cuidado com o que você deseja”. Nesse caso, os desejos sexuais do personagem Frank Cotton o conduzem a uma dimensão sobrenatural governada pelos cenobitas — entidades cuja busca pelo prazer extremo, já confundido com a dor, resultou em corpos mutilados, retalhados, assustadores.


Encabeçados por Pinhead, esses monstros trouxeram, para o horror, as dinâmicas e a estética do BDSM — Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo. De modo bastante simplificado, a sigla nomeia um universo de práticas relacionadas à dominação e à submissão, ao prazer e à dor.


Antes de Barker, J.G. Ballard foi outro britânico a explorar as paragens mais sinistras de desejos e, em especial, fetiches. Seu romance Crash, de 1973, trata de um grupo de personagens com tesão por acidentes de automóveis. Aqui, o horror não nasce de pessoas que gozam e depois sofrem — apesar da violência a que todas se submetem, o prazer está sempre em primeiro plano, e a dor é quase ausente.


Não; o horror surge da nossa contemplação deste universo tão estranho, cujo epicentro é Vaughan, personagem hermético, cheio de cicatrizes, obcecado por colisões e por Elizabeth Taylor.


O inevitável escândalo


Durante nossa contemplação, o assombro acaba dividindo espaço com a atração. As cenas de sexo de Ballard, ainda que descritas com cálculo e frieza, operam alguma estranha magia em nossa imaginação, fustigando fantasias metálicas. Desde que estejamos disponíveis à experiência, claro; obras assim sempre se sujeitam à condenação em praça pública.


Crash, o romance, causou escândalo na ocasião de seu lançamento — assim como a adaptação cinematográfica de David Cronenberg lançada 23 anos depois, em 1996. O filme ultrajou ninguém menos do que Francis Ford Coppola: presidente do júri no festival de Cannes daquele ano, Coppola se recusou a entregar um troféu a Cronenberg. Felizmente a reação contrária não impediu o cineasta canadense de seguir explorando os meandros do arrepio e do prazer — Crimes of the future prova isso.


A polêmica, afinal, é compreensível. Obras que misturam horror e sexo tendem a implicar fortes transgressões e, em camadas profundas, remexer com aquilo que mais nos aterroriza ou excita. Assim, escancaram as contradições de que somos feitos: atraem e repelem na mesma medida.


Essas sensações são como os dois cães que, de acordo com um antigo provérbio indígena, vivem lutando dentro de nós — sendo o vencedor aquele que mais alimentamos. Mas para quem ama o arrepio e o tesão na mesma medida, as porções de ração são exatamente iguais.


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