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  • Oscar Nestarez

Salgueiro-chorão [Conto de Larissa Barbosa - Belas Artes]

Atualizado: 26 de out.


Salgueiro-chorão (fonte: https://mybonsai.com.br/blog/salgueiro-chorao-salix-x-pendulina/)

[Nota: ao longo desta e das próximas semanas, publicarei aqui os contos de horror e mistério elaborados por alunas e alunos da disciplina que ministrei na pós-graduação de escrita criativa da Faculdade Belas Artes. O terceiro texto é "Salgueiro-chorão", de Larissa Barbosa, um drama familiar com final macabro. Boa leitura!]


Faltam poucas horas para o banquete. O evento foi marcado para hoje, um sábado de outono, dia de temperatura amena com céu levemente encoberto por nuvens acinzentadas. Ainda preciso terminar de organizar tudo. Polir a prataria, montar a mesa e arrumar a anfitriã. Tudo deve estar à altura dela.

A proprietária é uma mulher altiva, de estatura e peso mediano, olhar simplório que esconde seu cinismo, e, apesar dos cabelos brancos, gosta de deixar claro quem dá a última palavra. Tem por hábito desdenhar dos sentimentos e vontades alheias às suas, enrustindo seus comentários mordazes em forma de conselho. Recebeu o nome de Gertrude, inspirado em uma personagem da ópera de Wagner. Foi ideia de seu pai, que, apesar da origem humilde, era um homem erudito, fato que ela nunca superou e por isso tentava constantemente reafirmar sua posição conquistada na sociedade. Por meio de roupas exageradas e maneirismos.

O banquete será realizado na parte de trás do jardim da propriedade. É uma área gramada, onde há um salgueiro-chorão de aproximadamente vinte metros de altura. Foi plantado por seu pai quando adquiriu o imóvel. Sob sua sombra passei várias tardes, encostada em seu tronco, pensando em como desagradar menos Gertrude para que assim ela pudesse me tratar melhor. Contudo, por mais que me esforçasse, ela sempre fez questão de deixar claro que eu estava ali de favor. Afinal, por muito menos outras pessoas teriam colocado alguém como eu na sarjeta.

Ela recebeu a casa de herança. Fica em uma área isolada da cidade, predominantemente rural. Dado o terreno elevado, é possível avistar os vizinhos apenas ao longe quando se olha pela janela do segundo andar. Fica no topo de um terreno em aclive, todo rodeado por um muro de pedra, o que a faz parecer ainda mais imponente quando vista da rua. O portão, feito de ferro, é composto por duas partes que, ao serem fechadas, formam a figura de uma raposa, e anunciam a chegada de qualquer visitante pelo seu ranger alto e estridente. Um caminho de pedras em meio a um extenso gramado leva até uma escada que, em seguida, chega à porta do palacete que recebeu algumas modificações com a virada do século, como a instalação de encanamentos e a substituição do fogão a lenha por um a gás. Na entrada, existe um hall que distribui para os demais cômodos e uma escada que leva ao segundo andar, onde ficam os quartos. Todos os ambientes têm o piso em madeira com grandes tapetes que ajudam a abafar o rilhar das tábuas.

O quarto de Gertrude é o principal da parte superior do imóvel. Assim que herdou a casa, primeiro ela tratou de eliminar qualquer elemento que pudesse fazer alusão ao fato de que ela veio de uma família de origem humilde. Em seguida, ela quebrou a parede que dividia seu atual aposento com seu antigo dormitório e fez desse cômodo anexo um quarto de vestir. É composto por grandes guarda-roupas feitos de mogno, intercalados com espelhos de corpo inteiro para que ela pudesse garantir que estava impecável.

Eu durmo no quarto que fica no fim do corredor à direita. É um ambiente não muito grande, com paredes de cor bege, uma cama de solteiro ao centro, à frente da qual fica um baú com as minhas roupas. Na parede oposta à cama há uma estante com livros, e pela janela é possível enxergar o salgueiro-chorão. É aquele tipo de lugar que não é possível dizer a quem pertence, pois não há nada ali que de fato seja meu.

Por vezes, antes de dormir, lembro de ter discutido com Deus, questionando o motivo de Ele me fazer vir ao mundo. Foi para que eu me anulasse como pessoa? Foi para sofrer, para apenas existir à sombra dos outros? Tenho poucas interações com pessoas de fora. E essas poucas ocasiões foram todas reprovadas por Gertrude, que sempre fez questão de deixar claro que, para ela, não eram boas companhias. “Esses tipos” faziam com que ela se sentisse envergonhada perante a sociedade. Assim, pouco a pouco, fui perdendo a vontade de buscar vida e vínculos para além daqueles muros, e passei a viver por meio das histórias dos livros aos quais tive acesso.

Desço as escadas e vou em direção à cozinha para terminar de polir os talheres e a baixela para o evento. A cozinha tem um piso de ladrilho hidráulico, uma grande e pesada mesa de madeira ao centro, onde vou posicionando a prataria conforme termino o polimento. Atrás de mim há uma pia de cerâmica, ao lado direito, um grande guarda-louça, onde ficam as porcelanas, e do lado oposto, um guarda-comida. Assim que termino meu serviço, levo tudo para o jardim para poder arrumar a cena.

A mesa retangular, com espaço para doze pessoas de cada lado, foi posicionada para que o salgueiro-chorão ficasse ao fundo na paisagem. E para que servisse como referência para os convidados que habitualmente circundavam aquela árvore quando ali visitavam. Organizei os talheres, as porcelanas Limoges e as taças de cristal Baccarat sobre a toalha branca com bordados, seguindo as normas de etiqueta que o evento de gala pedia. Enquanto retornava para a casa, não pude deixar de sentir um misto de orgulho pelo meu trabalho e receio ao imaginar se ela gostaria do arranjo feito.

Quem conhece Gertrude apenas socialmente é enganado pelo ar de generosidade que ela gosta de passar quando conta as suas pretensas histórias de caridade aos outros. Contudo, basta observar com um pouco mais de atenção para ler nas entrelinhas e perceber que seu discurso é carregado de eufemismos. Que buscam suavizar o real significado daquilo que diz, além de colocá-la como o centro de todos os acontecimentos, ou, em muitos casos, como vítima das circunstâncias.

Com o ar dissimulado, sempre que podia ela deixava claro o quanto eu era desajustada. E que nada do que eu fazia era bom o suficiente, da cozinha, ao serviço doméstico, passando pelo desempenho escolar. Não era nada além de uma pessoa medíocre, de poucos talentos, mas que dizia isso para o meu próprio bem, para que eu não me frustrasse lá na frente e assim pudesse diminuir as minhas expectativas de sucesso e pudesse agradecer caso um dia alguém suportasse passar a vida ao meu lado. Com o passar dos anos, fui aprendendo a selecionar o que poderia ou não compartilhar, e a quais partes da minha personalidade ela poderia ter acesso. Evitava, assim, ouvir comentários aborrecedores.

Volto à casa e me dirijo para a sala de leitura. Pego um álbum de fotografias que estava em cima da mesa de centro e me sento no recamier de veludo verde escuro. A sala tem estantes repletas de livros, uma lareira na parede central e pesadas cortinas com bordados na janela. Sempre fico fascinada com fotografias, pois são capazes de capturar um pedaço da história e guardar para sempre no espaço e no tempo um fragmento da vida daquelas pessoas. Nesse caso, a vida de Gertrude, sempre no meio da fotografia com as pessoas ao seu redor em algum dos muitos eventos que ela fez ao longo dos anos para assumir seu lugar na sociedade. Eu apareço em apenas um dos retratos, no canto direito, quase como que por um erro. Coloco o álbum no seu devido lugar e caminho pela sala, e em seguida pela casa, lembrando desses jantares dados. Passei a maior parte desses eventos no meu quarto, para não a atrapalhar. O som das risadas, das músicas e das danças serviam como alento para os dias mais difíceis. Esses faziam parte dos poucos momentos em que a casa vibrava cheia de vida, e as vozes altas das conversas pareciam trazer um sopro de esperança de que o dia seguinte seria melhor.

Havia dias em que ela me tratava com uma gentileza desconcertante. Mas bastava eu baixar a guarda, ou, dizer algo em um tom que ela desaprovasse, para que então o tempo se fechasse e logo ela tratasse de mostrar quem de fato era e tudo voltasse à rotina habitual. Gastei muitas horas refazendo nossas conversas, para tentar entender o que eu tinha feito de errado. Assim poderia evitar o erro da próxima vez, e quem sabe, dessa forma, ganharia seu afeto, da mesma forma que ela o dava aos estranhos que frequentavam a casa. Um esforço sempre em vão.

Chegou o momento de arrumar Gertrude para sua grande entrada. Separo escova de cabelo, maquiagem e vou até seu quarto de vestir para escolher seu melhor vestido. Escolho um vestido longo, de alças, preto, tubular, com bordados em pedrarias e canutilhos, que formam um desenho geométrico na parte central. A barra tem um corte enviesado que deixa o movimento do tecido mais fluido. Para completar, separo também uma echarpe de seda para colocar em seus ombros. Levo tudo isso para seus aposentos e passo a cuidar de sua aparência, penteio suavemente seus cabelos brancos, que ficam na altura do queixo, para que fiquem tão alinhados quanto possível. Ela vira o rosto, como que em sinal de desaprovação. Passo pó de arroz em sua face, e um pouco de carmim em seus lábios e bochechas. Nas pálpebras, um pouco de sombra perolada para que fique apropriado à sua idade e ao tema do evento. Troco sua roupa, coloco seu conjunto de colar e brincos de pérolas e me certifico de que ela esteja impecável.

Com dificuldade, desço as escadas puxando sua cadeira de rodas degrau por degrau. Empurro sua cadeira pelo jardim, vagarosamente, para que ela aproveite o momento, e me direciono para a parte de trás da casa, onde a mesa montada a espera e de onde já é possível avistar alguns dos convidados chegando. Posiciono sua cadeira no centro da mesa, como se fosse a Santa Ceia. Ajeito sua echarpe e completo duas taças com vinho uma para ela e uma para mim. Como em todos os outros eventos, eu me afasto do local com a minha taça em mãos e vou para o meu quarto assistir pela janela.

Assim, pouco a pouco, os convidados chegaram e o banquete pode começar. Seus olhos que apenas enxergavam a si, as orelhas que serviam apenas para escutar a som da própria voz e a língua que não sabia dizer nada de agradável, ou nada que não fosse sobre ela mesma, foram as primeiras coisas a serem devoradas pelos urubus, que antes aguardavam ansiosamente pousados nos galhos quase sem folhas daquele salgueiro. Eles crocitavam como forma de regozijo a cada pedaço de carne arrancada daquele corpo. Sem pressa, foram devorando cada pedaço, até que toda a sua podridão interna foi exposta também ao mundo.

Mamãe finalmente foi o centro das atenções.



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