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  • Foto do escritorOscar Nestarez

Poppy Z. Brite: descubra livro de mestre do horror pouco conhecido no Brasil



Capa de Exquisite Corpse (Divulgação)

Se há males que vêm para bem, há livros que vêm para mal. Pensei nisso ao acompanhar um debate recente sobre um caráter “curativo” da literatura, defendido por tantas e tantos nos tempos atuais. E quando li esta entrevista do escritor Bernardo Carvalho para o jornalista Ruan S. Gabriel, não pude concordar mais com ele. De fato, “livro não te abraça, não te acalma”. Ao menos as minhas melhores leituras não o fizeram. Pelo contrário: me repeliram, perturbaram, desmontaram, fosse porque apresentaram ângulos perversos de nossa humanidade, fosse porque me acuaram com as consequências de nossos atos, ou fosse porque revelaram nossa fragilíssima condição em um mundo de tantas formas predatório. É o tipo de livro que me interessa, é o tipo de livro que procuro eu mesmo escrever.


E foi o tipo de livro que encontrei em Exquisite Corpse, do autor estadunidense Poppy Z. Brite. Publicado em 1996 e ainda inédito no Brasil, este romance sobre um casal gay de assassinos seriais é nada menos do que brutal. Foi uma das leituras mais pesadas que já fiz, e, se você acompanha minhas colunas, sabe que é raro eu me referir dessa forma aos livros resenhados aqui.


As cenas de violência são minuciosas e imaginativas como poucas vezes havia lido e há sexo bestial por todos os lados. Mas a força do livro não vem daí, até porque são incontáveis as obras literárias apelativas nesse sentido, sem valor literário algum. Exquisite Corpse se destaca porque seu autor é alguém de enorme talento para construir personagens, e também para a escrita. Sempre afirmei aqui que horror, o horror para valer, depende da nossa empatia, de nós sentirmos junto com as personagens – tanto as que atacam quanto as que sofrem. E quando nos deparamos com Andrew, Jay, Tran e Luke, o núcleo principal do romance, fica evidente o triunfo de Brite nesse sentido.


Antes, um esclarecimento: não se trata de uma história de true crime, que faz tanto sucesso há certo tempo. Não são crimes reais aqueles descritos no livro, embora a composição de um dos assassinos seriais, Jay, tenha sido inspirada por Jeffrey Dahmer. Também cabe dizer que Poppy Z. Brite é um homem trans e se chama William Joseph Martin. Na época da publicação do livro, porém, o autor ainda assinava como Poppy Z. Brite, e ele segue usando esse pseudônimo famoso (junto ao seu nome) em sua conta no Patreon e em seu site oficial.


Recusa após recusa


Exquisite Corpse causou furor antes mesmo de ser lançado. Em 1991, Brite havia assinado um contrato de publicação de três romances com a editora estadunidense Delacorte Books. Os dois primeiros foram o vampírico Lost Souls (1992) e a história de casa assombrada Drawning Blood (1993), ambos também inéditos por aqui. Exquisite Corpse seria o terceiro, mas a editora recusou o original devido ao conteúdo violento. O mesmo aconteceu com a Penguin, que publicava Brite na Inglaterra.


O romance, então, circulou por várias editoras até ser adquirido pelas casas Simon & Schuster nos EUA e Orion no Reino Unido. E que bom que assim foi. O verdadeiro crime seria ter privado leitoras e leitores de uma obra que, como toda boa literatura de horror, não só perturba pelo teor, mas também por apontar um dedo descarnado e acusatório para a própria época que lhe deu origem.


No começo da década de 1990, não nos esqueçamos, a epidemia de aids continuava assombrando o mundo e os homossexuais seguiam demonizados como vetores da doença. Sob os pretextos mais esdrúxulos, governos se recusavam a repassar recursos para o tratamento desse grupo específico. Brite não só denuncia tal condição diretamente por meio do personagem Luke Ransom, um escritor portador do vírus que vocifera contra políticos em uma rádio pirata, como também o faz de maneira mais ampla.


Em Exquisite Corpse, tanto assassinos quanto vítimas são homossexuais, e a única intervenção da polícia ao longo da história é patética. As personagens torturam, esquartejam e depois matam à vontade, seguindo métodos não muito rigorosos para esconder os rastros da carnificina. Mas não se trata de desleixo de Brite; tudo parece ser arquitetado de modo a emitir uma mensagem da sociedade “tradicional” aos gays, do tipo “matem-se sem parar, não estamos nem aí. Pelo contrário, é um favor que vocês fazem para nós”.


Nova Orleans, capital do gótico sulista


Quanto à história, a estrutura também chama a atenção. Enquanto a maioria dos thrillers traz apenas um assassino – ou um grupo de assassinos reunidos em torno de um ideal, como no caso da série The Following –, Exquisite Corpse focaliza, como mencionei, dois serial killers. O eixo principal da narrativa é o inglês Andrew Compton.


No início do romance, ele está preso em Londres, acusado de ter matado mais de 20 rapazes e de ter abusado sexualmente dos cadáveres de vários deles. Seu truque para fugir da prisão é bastante improvável, mas a escrita de Brite é tão bem elaborada que aceitamos com prazer a tal suspensão da descrença.


Após deixar atrás de si um rastro de sangue e vísceras, ele parte para os EUA e acaba aportando em Nova Orleans, onde se passa a maior parte da história. Eis outro êxito de Poppy Z. Brite: ao mesmo tempo decadente e apaixonante, a cidade surge como o cenário perfeito para os excessos dos personagens, tanto sexuais quanto criminais.


Nova Orleans, vale lembrar, é um locus frequente do chamado gótico sulista na literatura dos EUA, que transporta para a região o pensamento norteador do gótico europeu. Nomes como William Faulkner e Flannery O’Connor são considerados expoentes dessa vertente, marcada, entre outras características, por decadência de linhagens antes gloriosas, ambientes espectrais e vilões implacáveis. A partir dos anos 1970, Anne Rice também colocou a Louisiana em primeiro plano em suas obras.


Já Poppy Z. Brite, natural do Kentucky, se estabeleceu em Nova Orleans no começo dos anos 1990 e acabou se tornando uma importante figura local, tomando parte em protestos, escrevendo sobre a cultura gastronômica da cidade e situando nela a maior parte de sua ficção.


O erotismo como supressão de limites


Uma vez em Nova Orleans, Compton acaba conhecendo Jay Byrne, enigmática figura da cena gay local. De família rica e natureza insondável, Byrne aos poucos se revela tão assustador quanto seu comparsa inglês. Sua obsessão, contudo, não é a necrofilia, mas o canibalismo – muitas vezes com suas vítimas ainda vivas.


Os dois se encontram casualmente já na metade final do romance e não se separam mais. É interessante observar como, até esse momento, Brite foi trabalhando as duas personagens por meio de focos narrativos distintos: por ser franco e objetivo, Compton conta sua própria história, em primeira pessoa; já Byrne nos é contado, em terceira pessoa, para estabelecer a aura de mistério que o caracteriza.


Os dois logo enxergam a essência um do outro e estabelecem uma relação de cumplicidade, parceria e muita latência sexual. Após atraírem um rapaz perdido pelo French Quarter, o bairro boêmio de Nova Orleans e coração geográfico do romance, eles o drogam, abusam de seu corpo, torturam-no e o matam ao longo de uma noite cuja narração não perde um detalhe sequer.


O trecho resume o projeto literário de Brite neste sentido, atribuindo tanto ao sexo quanto à violência a mesma relevância, o mesmo estatuto lírico; para Andrew e Jay, uma coisa não é possível sem a outra. O parceiro é necessariamente vítima, e sua extinção é a resposta furiosa dos dois ao “tédio de possuir” de que fala Schopenhauer. A perspectiva nos remete a outro grande esteta do sexo e do horror, Clive Barker; Brite, porém, mergulha mais fundo nessas águas turvas.


A história se encaminha para o clímax quando ambos decidem capturar Tran, um jovem imigrante vietnamita por quem Jay é obcecado. Ao fazê-lo, eles também atraem Luke, ex-namorado de Tran e espécie de herói acidental do romance.


O desfecho do livro traz algumas passagens que concretizam à risca o “sentido último do erotismo como supressão do limite”, conforme afirma o filósofo francês George Bataille. São imagens que permanecem conosco por muito tempo depois de terminada a leitura. E não só porque a imaginação de Brite é malévola; mas porque estamos envolvidos com as personagens em cena, porque entendemos suas motivações e sobretudo porque, em um mundo tão ameaçador e tão hostil ao público gay, sabemos que não há outra saída possível senão a tragédia encharcada de sangue no romance.


Em tempo: embora Exquisite Corpse (ainda) não tenha sido publicado no Brasil, algumas obras disponíveis por aqui têm o clima do livro. É o caso dos romances O silêncio dos inocentes, Dragão Vermelho e Hannibal, do estadunidense Thomas Harris, além dos filmes e séries inspirados por esses trabalhos. Mais recentemente, a série Dahmer: Um Canibal Americano, disponível na Netflix, e Hannibal, no catálogo do Amazon Prime Video, também oferecem perturbações próximas às do livro de Poppy Z. Brite.

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