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  • Oscar Nestarez

"O Mundo Sombrio de Sabrina": as marcas da literatura de horror na série*

Dos nomes de personagens aos pontos centrais do enredo, as aventuras da “bruxa mestiça” homenageiam alguns mestres das histórias sombrias


O mundo sombrio de Sabrina (divulgação)

“Um tributo às obras de horror que eu amo”: é assim que o produtor e roteirista norte-americano Roberto Aguirre-Sacasa define sua mais recente criação — a série O Mundo Sombrio de Sabrina. Em entrevista à GALILEU dada no final do ano passado, ele afirma que escreveu a história “como se fosse uma carta de amor aos filmes que me assustavam, como O Exorcista, O Bebê de Rosemary, Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio, entre outros”.

De fato: as referências ao cinema de horror estão por todos os lados não só da série, como dos quadrinhos que a originaram, também escritos por Aguirre-Sacasa e lançados aqui pelo selo Geektopia, da Novo Século. A nostalgia, aliás, está na origem de toda a criação: tanto a “bruxinha mestiça” da Netflix quanto a da HQ são uma atualização de Sabrina, The Teenage Witch, publicação que fez sucesso nos anos 1960 e 1970 (e que já tinha virado série de TV nos anos 1990).


Mas os diálogos com outras formas de arte não param por aí. Os amantes da literatura de horror encontram, na série, um verdadeiro coral de citações e ecos familiares. De nomes de personagens a pontos centrais do enredo, passando por objetos cenográficos, O mundo sombrio de Sabrina é, também, um tributo aos livros de horror que o criador Roberto Aguirre-Sacasa e tantos de nós amamos.

Sombra gótica

Um dos focos da trama de Sabrina é o martírio das treze bruxas de Greendale. O evento lança uma espécie de maldição sobre a cidade da protagonista e remete a obras literárias que resvalam no tema da perseguição às bruxas — a maior delas sendo A Letra Escarlate, romance gótico fundamental do norte-americano Nathaniel Hawthorne.


Publicada pela primeira vez em 1850, a história da jovem Hester Prynne e de sua luta contra a sociedade puritana em que vivia reflete-se em pontos da série. Basta lembrarmos que o moralismo ameaça alguns personagens — e que o gato de Sabrina leva o mesmo nome da famosa cidade de Massachusetts em que se passa a narrativa de Hawthorne — e que ficou famosa pela matança de bruxas no século XVII, Salem.


Nomes de peso

Os nomes, aliás, são um show à parte para os fãs da literatura gótica e de horror. Além de George Hawthorne, diretor de Baxter High (a escola “humana” frequentada por Sabrina), temos:

● Father Blackwood, o líder da Igreja da Noite frequentada por Sabrina e seus parentes, cujo nome faz referência a Algernon Blackwood, autor britânico de horror, admirado por H.P. Lovecraft;

● O próprio nome “Lovecraft” é o de um professor da Academia de Artes Ocultas (escola de magia frequentada por Sabrina);

● Outros professores são (Ambrose) Bierce, referência ao autor norte-americano de A Coisa Maldita, de 1893, e O Dicionário do Diabo, de 1906; (Arthur) Machen, xará do autor britânico de obras clássicas do horror, como O Grande Deus Pã, de 1894; e Shirley Jackson, homônima da autora norte-americana de A Assombração na Casa da Colina, de 1959.


Cartomancia cósmica

A presença de H.P. Lovecraft em O Mundo Sombrio de Sabrina não se restringe aos nomes. Em certo episódio, uma cartomante lê o futuro de alguns personagens. Quando chega a vez de Harvey Kinkle, namorado de Sabrina, os fãs do mestre do horror cósmico se deleitam: pois a mulher relata que ele vai viajar a Providence para realizar um curso de arte. Trata-se da cidade em que Lovecraft nasceu e viveu durante quase toda a vida.


Ao chegar ao seu alojamento, Harvey descobre que dividirá o quarto com uma figura excêntrica e sombria: um artista chamado Howard (o primeiro nome de Lovecraft). Suas pinturas são uma homenagem explícita às entidades alienígenas criadas pelo autor.

Nesta parte do episódio, que dura cerca de 10 minutos, todas as falas referem-se ao universo lovecraftiano. O decorrer da história também nos remete à trama do conto “O Modelo de Pickman”, de 1926, em que um artista misterioso pinta “coisas” que vê de noite.


Cenobitas e patas de macaco

Outros episódios também aludem diretamente a obras consagradas de horror. Dois deles merecem destaque: no primeiro, Sabrina soluciona a “configuração de Aqueronte”, uma espécie de cubo mágico (mas bem mais complexo) criado por seu pai bruxo —  e com isso libera um demônio. É impossível não nos lembrarmos de romance Hellbound Heart, ou Hellraiser (1986), do britânico Clive Barker, em que a resolução da Configuração dos Lamentos libera demônios conhecidos como cenobitas — sendo Pinhead o mais famoso.


O segundo episódio é uma clara homenagem a “A Pata do Macaco”, famoso conto de horror escrito pelo inglês W.W. Jacobs. No melhor estilo “cuidado com o que você deseja”, o relato apresenta as consequências macabras de pedidos realizados a um objeto mágico, a pata do título. Na adaptação, Sabrina e seus amigos sentem esses perigos na pele.


Clive Barker pelas paredes

Como se sabe, o criador de Hellraiser também se arrisca na pintura. E seus quadros estão espalhados pela série. Principalmente nos salões da Academia de Artes Ocultas: observadores mais atentos perceberão, ao fundo, as figuras bizarras saídas da mente de Clive Barker. De acordo com este texto do Gizmodo, foram mais de 150 obras oferecidas pelo próprio autor.


Dorian diabólico

A segunda temporada traz um personagem clássico da tradição gótica: Dorian Gray. Na série, o protagonista criado pelo irlandês Oscar Wilde é o dono de um bar chamado “Dorian’s Gray Room”, em um trocadilho com seu nome.


No decorrer dos episódios, o personagem vai ganhando relevância. Ele chega a contar sua história, que corresponde à narrativa do livro, e até revela, para os outros personagens, o famoso quadro, que envelhece e se corrompe em seu lugar — neste caso, graças a um pacto com o Diabo. Enfim, essas foram as referências que encontramos. Se você se lembra de outras que deixamos escapar, por favor, deixe-as nos comentários!


* Artigo co-escrito com Nathalia Scotuzzi, doutoranda em literatura de horror com enfoque na obra de H. P. Lovecraft e horror cósmico. Nathalia é também editora na Diário Macabro, que publica exclusivamente histórias fantásticas e de terror.

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