Crítica: "As fronteiras de Oline" e o elogio à imaginação
- Oscar Nestarez

- há 4 horas
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Dentre as tarefas atribuídas a críticos e pesquisadores das letras brasileiras, a mais desafiadora talvez seja definir a nossa literatura contemporânea. Quais seus eixos temáticos e elementos estéticos? Como a ficção produzida por autoras e autores vivos dialoga com as nossas identidades, com o que nos constitui cultural e socialmente? Como esses livros dão conta de mazelas, problemas, desigualdades, sem abrir mão do valor artístico?

É um trabalho desafiador porque somos um país continental e imensamente plural, cuja expressão literária é tão variada quanto. Por isso, estudiosos do assunto retrocederam um pouco. Em vez de tentar categorizar toda a produção a partir de grupos temáticos ou estéticos, determinaram um filtro por meio do qual podemos contemplá-la. É o chamado cânone humanizador, resultante de um dos processos mais importantes dos tempos atuais: a revisão de conceitos até então tidos como verdades absolutas. Entre esses conceitos, está o de cânone literário, isto é, o conjunto de obras consideradas as mais importantes, representativas e influentes de um certo período ou de uma determinada cultura.
No Brasil, esse cânone foi questionado porque a seleção das obras que o compõem, assim como muitas das próprias obras, sempre foi realizada por grupos hegemônicos, nos quais predomina um determinado perfil: homens cis brancos, de classe média ou alta, geralmente em posições de poder. Assim, o cânone humanizador se refere a obras literárias que, quando lidas, promovem a reflexão sobre a condição humana, a empatia e a compreensão de diferentes culturas e contextos sociais, que durante muito tempo estiveram às margens de todo o debate literário.
Acontece que a revisão de nossa história literária não se limitou aos contextos sociais e culturais. Gêneros que por muito tempo foram marginalizados, como o fantástico, a fantasia, a ficção científica e o horror, reconquistaram espaço no território contemporâneo, e, nos últimos anos, vêm ganhando mais e mais destaque. Eram expressões consideradas menores, ou porque, na perspectiva de críticos, configuravam mero entretenimento, não sendo dignas de avaliação estética. Ou porque representavam literatura escapista, que não abordava ou problematizava as questões fundamentais do país.
Nada como um dia após o outro, porém. Pouco a pouco, o fantástico e a fantasia nacionais foram ganhando seu espaço (ou o retomando, pois em tempos passados fizeram relativo sucesso). Pesquisas acadêmicas, editoras especializadas e premiações literárias têm contribuído para essa reconfiguração, colocando em evidência títulos que, em outros tempos, quase certamente passariam sem atrair a devida atenção.
Um exemplo é As fronteiras de Oline, romance de estreia do gaúcho Rafael Zoehler. Publicado em 2024, no ano seguinte o livro foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. E foi laureado com o Jabuti de melhor romance de entretenimento, o que de imediato atraiu a atenção de críticos, jornalistas e… leitores, claro. Em sua caminhada rumo ao topo, Zoehler superou nomes consagrados, como Raphael Montes e Lorena Portela.
A leitura de seu livro torna o feito ainda mais impressionante. Porque, tanto na forma quanto no enredo, As fronteiras de Oline ocupa um posto singular nas estantes e nas memórias de quem lê. É difícil encontrar um paralelo para a história do guarda da fronteira entre a Sérvia e o Cazaquistão que, num dia de tédio, arremessa uma pedra de um país para o outro, a perde de vista e parte em busca dela, para restituí-la ao devido lugar — tendo início, assim, uma jornada de formação essencialmente sui generis.
A começar pelo fato de que Sérvia e Cazaquistão não são vizinhos. Estão, na verdade, a mais de três mil quilômetros um do outro, sendo esta reconfiguração geopolítica um dos índices da fantasia que perpassam o romance. Aliás, mesmo a fantasia tem uma figuração particular em As fronteiras de Oline: enquanto outras histórias do gênero costumam tratar de mundos secundários, marcados pela magia e regidos por leis própria, o livro de Rafael Zoehler extrai seu mundo secundário do nosso próprio mundo.
Neste outro mundo – que nada mais é do que aquele que conhecemos enriquecido por deliciosos enxertos imaginativos –, sobrevoam balões que jamais pousam, buracos que não têm fundo, homens que nadam do Mar Mediterrâneo até a “Coreia do Oeste” e caminham por milhares de quilômetros sem descanso, países que dançam sem parar, mudando de posição a todo momento, e muitos outros portentos.
Mas a viga mestra do romance de Zoehler é o protagonista, ele próprio dono de um comportamento quase implausível. O Senhor Oline é incapaz de fazer outra coisa que não cuidar de sua fronteira e cumprir ordens. Desta forma, segue os passos de seu pai, também guarda fronteiriço, de reputação ilibada e obediência irretocável. É o cumprimento do dever que o leva a ir atrás da pedra atirada da Sérvia para o Cazaquistão, para restituí-la e devolver tudo à normalidade. Este pequeno deslize, porém, deflagra o enredo em si, que trata do processo de humanização do protagonista.
E a humanização, aqui, se refere à capacidade de imaginar, até então desconhecida pelo Senhor Oline. Também se refere ao conhecimento de si e de seu passado, do motivo pelo qual tem tanta dificuldade de abandonar seu posto — ele descobre, graças ao Viajante, então seu único amigo, a sua própria história: quando sua mãe estava grávida, deu-se uma terrível tempestade de areia que “misturou” a Sérvia e o Cazaquistão. O pai, então, abandonou o posto para desembraralhar tudo.
Quando voltou, a criança havia nascido e a esposa estava morta. Por isso, naqueles primeiros anos, o pai odiou o Senhor Oline. Mas depois aprendeu a amá-lo e teve medo: “Tenho a mais absoluta certeza de que algo terrível aconteceria sem a minha presença”, confessa em uma carta ao Viajante. Transfere, portanto, esse medo ao filho, que se molda à imagem do pai – e é desse molde que o Senhor Oline também se liberta conforme cumpre seu próprio destino em busca da pedra perdida. As fronteiras de Oline se manifesta, assim, como delicada alegoria da paternidade.
Escapar da sombra do pai sem deixar de amá-lo; mudar, e ainda assim voltar ao mesmo lugar. Eis as pedras de toque deste sensível e imaginativo romance de estreia, que transcorre em um mapa-múndi imaginário, próximo do nosso, mas ao mesmo tempo diferente. E que por isso configura, ele próprio, uma pedra singular e rutilante no sempre inacabado canteiro de obras de nossa literatura contemporânea.



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