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  • Oscar Nestarez

Maria, João e o conto de fadas que virou conto de horror


A atriz Alice Krige como a bruxa Holda (fonte: divulgação)

Veja como o filme transforma a história registrada pelos irmãos Grimm em uma obra com boas pitadas de horror


Os cinemas brasileiros receberam, nesta semana, o filme Maria e João: O conto das bruxas. Trata-se de uma sinistra releitura do conto clássico João e Maria, escrito pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm — ou melhor, por eles reescrito a partir de fontes (orais e textuais) que ambos coletaram em pesquisas por fábulas infantis na Alemanha.


Como acontece com muitos contos de fada, a história brota naturalmente de nossos lábios. Ou, pelo menos, uma sinopse dela: perdidos na floresta e famintos, os dois irmãozinhos são atraídos por uma casa feita de doces e são aprisionados pela moradora, uma bruxa, que pretende devorá-los. Graças à astúcia de ambos, sobrevivem e conseguem escapar. Tal é o enredo clássico dos Grimm; e a adaptação cinematográfica o reinterpreta em uma chave sombria.

Quão sombria? Para entendermos, é preciso recapitular em detalhes a história dos irmãos alemães, publicada originalmente em 1812. João e Maria (ou Joãozinho e Margarida, em algumas versões) são os filhos de um lenhador; a mãe havia morrido, e o pai se casara com uma mulher má. A família é muito pobre, mal tem o que comer. Diante da situação, a madrasta sugere levar as crianças para a floresta e abandoná-las por lá. Assim fazem. Prevendo o estratagema, João usa migalhas de pão para marcar o caminho de volta; mas, quando procura por elas, descobre que os passarinhos as comeram.


Perdidos, cansados e famintos, encontram, no coração da floresta, uma casa feita de doces e de pão-de-ló. Dela se fartam até que, pela porta feita de biscoito, sai uma mulher velha e manca: uma bruxa, que pretende devorá-los usando a casa deliciosa como isca. Ela prende João e obriga Maria a trabalhar, enquanto engorda o irmão para o abate. Mas, graças à astúcia da menina, que ferve a bruxa em seu próprio caldeirão, os dois conseguem fugir e voltar para seu pai. A madrasta havia morrido e os três vivem felizes para sempre.


Cores mais sinistras

A versão roteirizada por Rob Hayes e dirigida por Oz Perkins — filho de Anthony Perkins, ator norte-americano que interpretou Norman Bates em Psicose, de Hitchcock — mantém-se próxima do conto em alguns aspectos. Nos planos temporal e espacial, por exemplo, a narrativa cinematográfica acompanha a literária, situando-se em meados do século 18, em algum vilarejo europeu assolado pela peste. Trata, também, de dois irmãos abandonados e famintos, que se perdem na floresta e encontram refúgio e guloseimas na cabana de uma bruxa.


No entanto, logo no início se revela a tonalidade mais escura com que a história é contada. Um breve relato antecede o enredo principal: a assustadora trajetória de como um bebê doente, condenado à morte, tornou-se Holda, a bruxa má da floresta (nenhum spoiler aqui). Ou seja, fica claro o ponto de vista que terá destaque ao longo do filme — e o subtítulo em português (“O conto das bruxas”) também elimina qualquer dúvida a esse respeito.


Sobre o título, a inversão “Maria e João” não foi pensada apenas como um aceno ao movimento feminista. Trata-se de uma mudança que sustenta a estrutura do filme, cuja protagonista é, sem dúvida, Maria — no conto dos Grimm, seu protagonismo é mais tênue, rarefeito; acentua-se apenas no desfecho, quando ela se torna a heroína. Por outro lado, na adaptação cinematográfica, a personagem logo se sobressai. Interpretada com intensidade por Sophia Lillis (da refilmagem de It), a Maria de Oz Perkins é uma jovem de iniciativa. Pré-adolescente, cabe a ela cuidar do irmão, esse sim uma criança. No visual e nas atitudes, evoca Joana D’Arc; e isso não é aleatório.


Santa, porém bruxa

Afinal, a história da heroína francesa é tão épica quanto dramática: após comandar tropas de seu país em campanhas bem-sucedidas na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), Joana D’Arc foi capturada e condenada à fogueira, em parte por conta das vozes divinas que afirmava ouvir desde a infância. Acabou queimada viva em Rouen, em 1431. Canonizada em 1920, ela tornou-se sinônimo de força, resistência e independência, mas também costuma ser associada ao misticismo.


A protagonista do filme tem essas qualidades. E é na associação de Maria com a magia que reside um dos pontos mais engenhosos do roteiro, porque isso a aproximará da bruxa (Alice Krige, assustadora). A velha logo percebe a inclinação da jovem para os mistérios e aos poucos vai estimulando sua iniciação, atraindo-a para os domínios escuros da magia. Em consequência, Maria se afasta de seu irmãozinho, que passa a não reconhecê-la mais. Conluio macabro contra uma criança e sensação de infamiliaridade (o unheimlich de Freud): ótima matéria-prima para o horror.


Não é intenção desta coluna avaliar o filme a partir da linguagem cinematográfica; sequer temos o conhecimento para isso. Queremos apenas destacar a engenhosa releitura realizada por Oz Perkins e Rob Hayes. O conto de fadas dos Grimm, que já tinha traços assustadores, torna-se um interessante conto de horror — ou de folk horror, como dirão muitos, na esteira de filmes como A bruxa, de Robert Eggers, e Midsommar, de Ari Aster.


Para azar do filme de Perkins, a comparação com esses dois sucessos do cinema de horror atual será inevitável. No entanto, graças ao roteiro e a outros aspectos técnicos, Maria e João parece percorrer um caminho próprio pela floresta escura dos nossos medos. É verdade que derrapa ao longo do trajeto; mesmo assim, é um percurso e tanto. Principalmente se considerarmos outra adaptação recente, bem mais barulhenta e menos convincente, na qual Maria e seu irmãozinho viraram destemidos — mas improváveis — caçadores de bruxas.

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