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  • Oscar Nestarez

Mantos terrosos [Conto de Valentina Squadroni - Belas Artes]


Fonte: unplash.com

[Nota: ao longo desta e das próximas semanas, publicarei aqui os contos de horror e mistério elaborados por alunas e alunos da disciplina que ministrei na pós-graduação de escrita criativa da Faculdade Belas Artes. O qartou texto é "Mantos terrosos", de Valentina Squadroni, uma história de amor que nem a morte é capaz de interromper. Boa leitura!]

Os raios de sol atravessavam as cortinas finas de linho e atingiam o meu rosto. Era uma manhã calma. Respirei fundo e toquei na cama à minha esquerda, procurando seu corpo quente. Encontrei-o. Tracei com meus dedos suas feições, observava as sardas do seu rosto que se transformavam em pequenas constelações em contraste a sua pele branca. Seus olhos se abriram. Ficamos contemplando a existência um do outro por um tempo, aquele momento único de acordar ao lado de quem você ama, sem sentir nenhuma preocupação a não ser saber se ele está respirando.


Nossa história começou sem novidade alguma. Éramos vizinhos, que se tornaram amigos, que se tornaram amantes. Para mim, toda história de amigos que se apaixonaram é de uma chatice sem precedentes. Mas a intensidade com a qual os sentimentos vieram, a urgência do nosso desejo, de recuperar o tempo perdido, era tudo menos chato.


Contornou o entorno de minha boca com sua língua antes de levantar e preparar um café. Fui ao meu ateliê, cantarolando alguma música da moda, checar e revisitar algumas das minhas últimas pinturas, que tinha preparado para compor o acervo que seria exposto em uma galeria de arte, dentro de alguns dias em uma cidade próxima.


Fui te procurar pela fazenda, você estava de pés descalços, dentro do galinheiro acariciando nossas galinhas e pegando alguns ovos, seu jeito especial de lidar com os animais foi um dos motivos pelos quais me apaixonei, a dedicação ao cuidar. A paixão que colocava em cada prato que preparava e me encarava com os olhos compenetrados como se pudesse ler meus pensamentos mais íntimos, esperando uma avaliação positiva da garfada que eu acabara de saborear.


Fui te ajudar e selecionei algumas folhas de manjericão para preparar a omelete. A grama úmida sob meus pés refletia pequenos arcos-celestes. Colhi alguns pêssegos e morangos para complementar nossa mesa de café-da-manhã. Lavei as frutas, piquei-as em pequenos pedaços, colocando-as em potinhos de cerâmica decorados com flores, feitos por mim.


Estava organizando as cobertas e travesseiros quando esperava que chegasse me abraçando por trás, que eu entendesse que minha organização tinha sido em vão. Entrelaçar meus dedos em seus cabelos. Repousar meus lábios nos seus, me perder no seu sorriso, me render às suas vontades. Mas o momento não chegava e a casa estava silenciosa.


Gritar e chamar seu nome não iriam te trazer de volta. Foi questão de instantes; um batimento errôneo que causou o flagelo da minha alma. Era possível que uma parada cardiorrespiratória ou uma arritmia cardíaca pudessem ter te tirado de mim? Encontrei você deitado no sofá, com um exemplar de Norwegian Wood em seu peito. Seu semblante era sereno, mas suas artérias não recebiam mais sangue.


Chacoalhava seu corpo, gritava esperando que minha voz te encontrasse em outro plano e te trouxesse de volta para mim. Eu encarava o telefone, a ligação que transformaria aquela suposição em realidade, a morte ganharia de mim, de nós.


Fomos descobertos pela sua irmã, que fez a maldita ligação. A polícia chegou, a ambulância também. Uma série de eventos medonhos foram se desenrolando. Primeiro te pegaram, levaram para um leito de metal e seu corpo foi completamente violado, te cortaram e reviraram procurando razão onde não tinha. Costuraram o que sobrou e depois te colocaram no chão. Tão fundo que você não me escutaria mais.


Meu único pedido foi te ter por perto. Seu corpo foi sepultado na nossa fazenda em Dorset. Conseguia te observar pela nossa janela, o monte de terra recém retorcida.


Comecei a rejeitar sua falta de forma física, era como se dentro de mim habitasse um corpo estranho e eu o estivesse esconjurando. Se me levantasse e tivesse que encarar seus restos, o que você deixou para trás, eu sentia ânsia e colocava para fora, expulsava a ideia de realidade na qual você não existe. A ridícula ideia de nunca mais te ver.


Sua irmã, Rebecca, veio me visitar algumas vezes, mas não abri a porta do quarto. Ela alimentava os animais, regava as plantas. O que você costumava fazer todas as manhãs, da janela observava que ela retirava as pétalas de flores mortas e colocava novas sobre a terra onde seu corpo padecia.


Dentro da escuridão de meus sentimentos e luto perpétuo, sentei-me à mesa para tentar fazer uma refeição. Isso me parecia impossível há uns dias, pois tinha a impressão de que a qualquer segundo você apareceria pela porta da cozinha, empolgado porque a semente que havia plantado meses atrás tinha começado a dar frutos. Peguei um macarrão que estava na geladeira, acho que Rebecca deixou para mim. Enfiei o garfo na massa e coloquei na minha boca. Mastiguei e engoli. Mastiguei e engoli. Cansada, enfiei minhas mãos naquela comida fria e asquerosa e a enrolei em uma bola só. Moldando aquela massa, sem perceber direito o que estava fazendo, comecei a esculpir seu rosto. Meus dedos ficaram trêmulos quando a criatura tomou forma.


Fui ao meu ateliê com aquela bola de comida e a coloquei em uma base de apoio. Misturei algumas tintas e encontrei o tom de seu cabelo. E comecei uma pintura frenética, a cada pincelada já te sentia mais perto.


“Eu preciso lembrar!”, falava para mim mesma. “Eu preciso lembrar! O nariz é mais empinado? Ou não?” Um pavor gélido tomou conta do meu corpo. Eu estava esquecendo. Joguei aquela tela longe e comecei outra. Desta vez, eu faria certo e seu rosto ficaria igual. De tela em tela. Escultura em escultura, fui buscando sua forma.


***


A noite estava fantasmagórica. Era possível escutar o uivo de lobos e a neblina cobria grande parte do gramado: era impossível ver os morros ao fundo. Em meio a tantos pensamentos sinistros, ouvi sua voz. Me chamava, gritava meu nome, sua voz estava abafada, presa. Levantei e o vi, parado ao lado de sua cova. Desci as escadas correndo, quase não sentia as lágrimas caindo em contraste com a chuva forte. Mas, quando cheguei à sepultura, você não estava mais lá. A mesma cena macabra se repetiu nas noites seguintes.


Quando a Rebecca veio pela manhã, decidi falar com ela. Questionar se achava que tinha algo estranho pela casa. Algum sentimento sombrio que ela poderia identificar ao entrar na propriedade. Ela comentou que sentia você ali, nas paredes, nos animais, nas janelas. Que via sua imagem. Naquele momento eu comecei a me questionar sobre sua morte. Será que as aparições eram mensagens? O que você queria me dizer?


Eu te escutava todas as noites. Me perdoe, por favor. Me perdoe! Não sei porque eu não te dei ouvidos antes. Parte de mim já sabia, mas me recusava a acreditar. Cada noite que você me chamava eu tinha mais certeza do que fazer. Me perdoe por não ter acreditado em você, por não ter atendido antes ao seu pedido. Corri pelas escadas gritando seu nome, avisando que estava chegando. Meu amor, meu amor, eu não vou mais te deixar. Eu sabia que eu tinha minha parte de culpa naquela situação, fui eu que deixei te levarem, eu deixei seu corpo ser violado, eu deixei você ser enterrado. Basta, percebi meu erro.


Enfiei meus dedos na terra imunda e fui removendo a barreira entre nós. Quando te vi, abri um sorriso. Estava bem, você estava vivo! Abracei seu corpo exorcizando toda aquela saudade exaustiva. Te prometi e a qualquer um que pudesse me escutar que nunca mais te deixaria; ficaríamos juntos para sempre.


Te removi daquele lugar horrível. Lavei você, tirei toda aquela terra nojenta que cobria seu corpo e te destruiu por dias. Mas nada demais, nada que um banho não resolva. Estamos juntos, meu amor, e isso é tudo o que importa. Me deitei ao seu lado na nossa cama e passei a te contar como foram difíceis esses dias sem você. Eu só queria te ter comigo. Repousei meus lábios nos seus, senti seu corpo, suas mãos. Seu carinho, seu toque, seu beijo, eu senti tanta falta. Queria você em mim.


Na manhã seguinte, liguei para Rebecca avisando que ela não precisava mais vir, que eu estava bem, não precisava mais se preocupar. Afinal, estávamos juntos não havia mais o que temer, nada de sinistro ou estranho iria acontecer. Somente duas pessoas que se amam vivendo a vida cotidiana juntas.


Mas eu sentia que você depositava muita culpa em mim, e foi assim que nossas discussões começaram. Alguns dos nossos animais começaram a falecer, especulei que pudesse ter sido pela terra contaminada de quando você dormia debaixo dela, ou pelo fato de eu estar me dedicando mais a você e minha arte que eles. Quando o bode se alimentou da sua galinha predileta, as brigas pioraram.


Liguei para sua irmã com intuito de desabafar e pedir apoio. Nunca tínhamos brigado antes, era muito novo aquele sentimento para mim. Ao mesmo tempo que eu me incomodava com suas cobranças tentando me trazer para uma realidade pouco bem-vinda, você era meu único suporte, quem me entendia por completo, sem restrições ou julgamentos. Rebecca estripou de mim tudo aquilo que eu prezava, sendo cruel e vil com suas duras palavras. Disse que eu estava sem razão e minhas palavras não faziam sentido, e que você estava morto. Morto! Com aquela verdade visceral, observei ao redor. O que eu havia feito?


Minha arte se tornou amedrontadora, advinda da loucura de uma imaginação demente de uma viúva que tentava dar sentido ao seu corpo pútrido deitado em nossa cama. Inebriada de horror, me fiz perdida em pensamentos confusos. Cambaleando aqui e ali sem saber onde ir. Me deitei ao seu lado, coloquei os mantos terrosos sobre nossos corpos e me aninhei em seu peito gélido. Com nossas testas coladas, transformei minha partida em um ritual pré-histórico. Finalmente eu iria voltar naquela manhã aconchegante de sol, ver seus olhos brilharem junto ao seu sorriso. Não via o menor sentido em um mundo sem você.


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