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  • Oscar Nestarez

Lygia Fagundes Telles e uma aula de horror em “Venha ver o pôr do sol”


A escritora Lygia Fagundes Telles faleceu em 3 de abril de 2022 (Foto: Domínio público/Arquivo Nacional)

No dia 3 de abril de 2022, o Brasil perdeu uma de suas principais vozes literárias. Consagrada por crítica e público, lida tanto nas universidades quanto nas escolas e traduzida para inúmeros idiomas, a paulistana Lygia Fagundes Telles deixa uma obra de imenso valor, composta por coletâneas de contos e romances que figuram em qualquer lista de melhores títulos da literatura brasileira no século 20.


Marcas reconhecidas dessa produção são a profundidade psicológica de personagens, a dedicação às filigranas da escrita e o teor político subjacente à composição ficcional. Mas outras características de Telles são igualmente importantes, como a expressão do sobrenatural, do mágico e, por que não?, do horror.


Esses traços são observados, em especial, nas coletâneas Mistérios, de 1981, e Venha ver o pôr do sol, de 1988. Na segunda, temos uma verdadeira obra-prima das narrativas sinistras nacionais: o conto que batiza o livro.


Um date no cemitério


A estrutura de Venha ver o pôr do sol é simples: é o relato em terceira pessoa de um passeio de dois ex-namorados, Raquel e Ricardo. Por insistência dele, a moça aceita encontrá-lo muito tempo depois da separação, e se surpreende quando descobre qual é o local escolhido — um cemitério. Mais do que isso, um cemitério abandonado, morto, do qual, conforme promete o rapaz, pode-se ver “o pôr do sol mais lindo do mundo”.


Após uma longa caminhada pela necrópole, durante a qual os dois evocam o passado juntos, Ricardo por fim conduz Raquel até o mausoléu que ele conta ser de sua família. Então, atraindo-a para dentro daquela “capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem”, acaba por prendê-la, abandonando-a à própria sorte, o que significa a morte.

Trata-se de um assassinato motivado não apenas pelo amor que Ricardo ainda sente por Raquel, mas também pelo ressentimento do fosso social que se abriu entre os dois. Após o término do namoro, ela se casou com um homem riquíssimo, e o rapaz acabou ficando “mais pobre ainda”.


Essa distância entre os dois fica clara logo no início do conto, pois, ao encontrar Ricardo em frente ao cemitério, a moça responde ao caloroso cumprimento dele com uma reclamação: “Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes”.


Diálogos reveladores


A propósito, os diálogos compõem a espinha dorsal do conto. É por meio das falas que se revelam as arestas e as nuances dos personagens e do espaço. São os frequentes comentários indignados de Raquel que expressam sua inclinação para uma generalização preconceituosa: “Ricardo e suas ideias”; “me faz vir de longe para essa buraqueira”; “Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre”.


Desde o início da narrativa, ela condena os detalhes do passeio, desprezando-os. Enquanto isso, Ricardo insiste no romantismo do mórbido lugar: “o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta”. Se, por um lado, Raquel se revela mundana nas frases que profere, o rapaz é profundo em suas reflexões.


Antes, não era assim: quando namorados, os dois andavam em sintonia, como revela essa afirmação de Ricardo: “Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância… Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?”.


Mais do que um descompasso, temos um distanciamento social entre ambos, que pode ser representado em termos geológicos — ela é superficial e ele, profundo, ou subterrâneo, sendo que pretende carregá-la para as profundezas. É essa sutil intenção, aos poucos revelada ao leitor, o motor da tensão que conduz ao horror.


Pistas do horror


Ao longo da narrativa, pistas indicam o rumo das maquinações de Ricardo. “Minha gente está enterrada aí”, revela ele a Raquel ao entrarem no cemitério, para depois afirmar que aquela é a morada de tudo o que importa para ele — ou seja, em breve será a residência eterna da namorada que ainda ama. Também há frequentes menções a “abandono”, tanto da necrópole quanto do mausoléu da família.


A pensão horrenda em que o rapaz diz morar tem, como proprietária, uma “Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura”; as pedras, a propósito, espalham-se pela narrativa, fortalecendo o diálogo com a criatura monstruosa da mitologia. Além disso, em certo momento, Ricardo chama a ex-namorada de “meu anjo”, um vocativo que, no contexto da narrativa, torna-se macabro. E ao oferecer o pôr do sol a Raquel, ele descreve a paisagem com mórbido lirismo: “a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio tom, nessa ambiguidade”, o que remete ao não lugar ocupado pelos mortos.


Ricardo também se lembra de quando, no passado, levou Raquel para um passeio de barco — uma alusão a outra figura da mitologia grega, Caronte, o barqueiro que conduz ao Hades as almas dos mortos. Há, ainda, os breves momentos em que a expressão do rapaz se torna diferente, já dando indícios de seu verdadeiro propósito: “inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu”.


Atmosfera gótica


Já próximo de chegarem ao destino, Ricardo faz uma confissão: na infância, acompanhava a mãe àquele cemitério enquanto ela levava flores para o pai. Ele ia de mãos dadas com uma prima, Maria Emília (cujos olhos se pareciam com os de Raquel), fazendo planos para o futuro; ela foi, confessa o rapaz, a única pessoa que o amou. E agora, mãe e prima estavam mortas, ali sepultadas. Tudo isso parece aproximar Raquel das profundezas de Ricardo, pois ela se mostra subitamente preocupada e compassiva.


Aproveitando-se dessa sensibilidade, o rapaz de fato a conduz para baixo quando chegam à capelinha que comporta os restos mortais de sua família. Aqui, maior atenção é dada à composição da atmosfera, que assume fortes contornos góticos:


“A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias e antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.”


Clímax duplo


É nesse território arruinado que Raquel acaba por descer, em um desfecho de clímax duplo. Em primeiro lugar, temos o choque dela ao descobrir, na inscrição da gaveta mortuária onde estaria a prima de Ricardo, que Maria Emília havia nascido em 1800, tendo morrido “há mais de cem anos”. A essa assustadora descoberta sucede um baque metálico: Ricardo fechara a portinhola que dava para a catacumba, trancando a ex-namorada lá embaixo.


Em meio aos gritos desesperados de Raquel, ele sai caminhando devagar, apenas proferindo um último e terrível comentário: “Uma réstia de sol vai entrar pela frincha na porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo”.


O verbo utilizado é "ter", e não "ver", conforme o título; essa troca destaca a ironia ressentida do rapaz frente ao materialismo demonstrado pela garota até então. Apesar de seu terrível destino (ou por causa dele), ela possuirá um espetáculo sem precedentes, que nem o atual marido endinheirado seria capaz de proporcionar.


Diálogo com Poe


O conto de Lygia Fagundes Telles ainda estabelece um delicioso diálogo com O barril de amontillado (1846), de Edgar Allan Poe. O intercâmbio ocorre tanto pela via da estrutura — em ambos temos um personagem calculista conduzindo outro para a morte — quanto pelo tema da vingança, passando pela premeditação e pela perversidade de Ricardo.


Enquanto em Venha ver o pôr do sol a “isca” é um espetacular poente, na narrativa de Poe temos um vinho raro; é com ele que Montresor, o narrador-personagem, atrai um antigo desafeto, Fortunato, para o local no qual pretende matá-lo, durante uma festa de carnaval na Itália.


Há, porém, uma diferença crucial: a narração em primeira pessoa. É um artifício recorrente em Poe, por meio do qual Montresor revela desde logo sua intenção de punir exemplarmente o algoz por uma ofensa ocorrida muitos anos antes, e que não é detalhada. Telles, por outro lado, serve-se do relato em terceira pessoa para manter oculto, do leitor, o medonho plano de Ricardo, revelando-o aos poucos.


Em ambos os textos, a surpresa deflagra o horror. Em O barril de amontillado, ainda que não seja segredo a punição maquinada pelo narrador, causa espanto a forma como ele o faz, calmamente erguendo uma parede no nicho de uma adega onde prendeu seu inimigo. Da mesma forma, no desfecho de Venha ver o pôr do sol, o vingador se afasta devagar da catacumba onde prendeu a ex-namorada; em ambas as narrativas, os assassinos saboreiam o desespero de suas vítimas.


Por isso a obra de Poe ainda assombra, 176 anos depois de publicada. E o conto de Telles, verdadeira aula de horror que é, promete continuar causando arrepios também por muito tempo.

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