Buscar
  • Oscar Nestarez

Horror à vista: a história assustadora que inspirou o romance “Moby Dick”


Ilustração de uma das primeiras edições de Moby Dick (Foto: Moby-Dick edition - C. H. Simonds Co)

Em agosto de 1819, um baleeiro de nome Essex deixou o porto de Nantucket, em Massachusetts (EUA), para caçar nos mares do sul. A viagem comandada pelo capitão George Pollard, que então tinha 29 anos, duraria dois anos e meio. No entanto, de acordo com o historiador Gilbert King, já nos primeiros dias a aventura se provou amaldiçoada.


Pouco depois de zarpar, o Essex foi atingido por uma tempestade que destruiu uma das velas do joanete de proa, e por pouco não afundou. Meses mais tarde, um incêndio criminoso em uma parada para reabastecimento quase matou boa parte da tripulação. Por fim, o Essex encontrou, ao sul do Pacífico, seu maior inimigo: uma baleia cachalote de mais de 20 metros de comprimento.


Após duas investidas do animal furioso, o navio foi a pique. E para se salvarem, os vinte homens a bordo se dividiram entre três botes de cerca de 6 metros cada um, tentando coletar o máximo de provisões que conseguiam.


Decisão controversa


No comando da frota, Pollard queria rumar para as Ilhas Marquesas, não muito distantes da linha do equador. No entanto, Owen Chase, seu imediato, e o restante da tripulação o dissuadiram do plano, afirmando que aquelas ilhas eram povoadas por canibais.

O certo a se fazer, defenderam, seria navegar para o sul. Demorariam muito mais para encontrar terra, mas poderiam ser empurrados por ventos alísios ou encontrar outro baleeiro. Em uma das decisões mais controversas da história náutica, Pollard mudou de ideia e os três botes alteraram a direção.


A aventura em alto-mar foi nada menos do que medonha. O sal da água logo impregnou os pães que alimentavam os homens, que passaram a se desidratar à medida que comiam. O sol era devastador, e o bote de Pollard foi atacado por uma orca, que quase o despedaçou.


Passadas duas semanas, avistaram terra, mas totalmente árida. Ainda assim, três homens decidiram desembarcar. Mesmo com bocas a menos, aqueles que permaneceram nos botes começaram a ficar sem alimento. A situação não podia ser pior. As embarcações passaram a fazer água e, à noite, baleias as rondavam.


Era dezembro de 1820; em janeiro, os alimentos acabaram. Certa noite, no bote comandado por Owen Chase, um homem enlouqueceu. Levantou-se de súbito, berrando que queria um guardanapo de linho e água. Então, sofreu de violentas convulsões até falecer na manhã seguinte.


Ato extremo


Os sobreviventes não tiveram dúvidas: extraíram os órgãos do corpo e cortaram toda a carne dos ossos. Abriram o cadáver, retiraram o coração e o costuraram de volta, da melhor maneira que puderam. Lançaram o corpo ao mar. Então, cozinharam os órgãos em uma pedra e os comeram. Nas semanas seguintes, mais três homens morreram, e a tripulação fez o mesmo com eles.


Apesar do ato extremo, a situação só piorou. Uma semana depois, os três barcos se perderam de vista. As rações de carne humana duraram pouco e, quanto mais os homens comiam, mais fome sentiam. A saída foi macabra: realizar um sorteio de quem serviria de alimento.

No barco de Pollard, o sorteado foi o jovem Owen Coffin, primo do capitão. Pollard havia prometido à mãe do rapaz que cuidaria dele e, desesperado, ofereceu-se para trocar de lugar; mas Coffin recusou. Foi alvejado e devorado.


Semanas mais tarde, em 18 de fevereiro de 1820, os três sobreviventes do bote de Owen Chase avistaram velas. Eram do navio inglês Indian, que os resgatou. Cerca de 500 quilômetros à frente, o bote de Pollard levava apenas o capitão e outro homem, Charles Ramsdell. Os dois se mantiveram vivos chupando a medula dos ossos que quebravam na amurada do bote.


Uma semana depois do resgate de Chase, Pollard e Ramsdell foram avistados pelo navio estadunidense Dauphin. Mas não celebraram; em vez disso, voltaram-se para o fundo da embarcação e encheram os bolsos de ossos.


O homem mais impressionante


Cerca de três décadas depois, a tragédia inspirou um romancista nova-iorquino chamado Herman Melville a escrever Moby Dick – em especial o desfecho da história. O livro teve recepção morna à época, mas, ao longo do século 20, tornou-se um dos maiores clássicos da literatura ocidental. São incontáveis os seus triunfos; aqui, destacamos a porção de horrores contida na obra, muitos deles relatados tais e quais foram vividos por Pollard e sua tripulação.


A relação entre Pollard e Melville, no entanto, foi além da ficção literária: ambos encontraram destinos tristes. Após ser resgatado, o capitão do Essex passou por outro naufrágio de um baleeiro, o Two Brothers. Marcado como azarado por armadores, passou o resto de seus dias sem jamais voltar ao mar. Permaneceu em Nantucket, trabalhando como vigilante noturno.


O autor de Moby Dick o conheceu quando Pollard já tinha 60 anos, e foi categórico: “Para seus conterrâneos, ele não era ninguém; para mim, era o homem mais impressionante, embora despretensioso, e até humilde – que já encontrei.”


Melville, por sua vez, também deslizou lentamente para a obscuridade. As enormes ambições que tinha para Moby Dick foram frustradas por vendas aquém do esperado. Frustradas também foram suas outras tentativas no terreno do romance. Ele decidiu, então, se recolher da vida literária, estabelecendo-se como inspetor alfandegário em Nova York.

A tragédia também o atingiu em cheio: dois de seus quatro filhos morreram. Deprimido e bebendo cada vez mais, Melville faleceu em 1891, aos 72 anos – assim como Pollard, um ilustre desconhecido para sua época.

25 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo