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ā€œFome de viverā€: conheƧa o livro que inspirou o filme estrelado por Bowie

  • Foto do escritor: Oscar Nestarez
    Oscar Nestarez
  • 18 de jul. de 2023
  • 5 min de leitura

Cena do filme 'Fome de Viver', de 1983. Foto: Reprodução

Um homem pÔlido dança atrÔs de uma grade, ante um fundo esfumaçado e ao som de uma percussão em contratempo. Sua expressão é ameaçadora. Quando soa uma nota grave, hÔ um corte para um rosto em primeiro plano, de óculos escuros, cigarro na boca sensual.

Outras imagens de pessoas se divertindo em uma pista de danƧa acompanham uma frase de baixo simples e potente, com trĆŖs notas descendentes, emprestadas de Rock 'n' Roll (Part 2), do mĆŗsico britĆ¢nico Gary Glitter. A cena marca o inĆ­cio de dois clĆ”ssicos. O primeiro Ć© o clipe de Bela Lugosi’s Dead, mĆŗsica de maior sucesso da banda britĆ¢nica Bauhaus, uma das precursoras do rock gótico. O segundo Ć© Fome de viver, filme de 1983 dirigido pelo britĆ¢nico Tony Scott, escrito por Ivan Davis e Michael Thomas, e protagonizado por David Bowie, Catherine Deneuve e Susan Sarandon. A abertura do filme foi transformada no vĆ­deo oficial da mĆŗsica do Bauhaus.

Considerado um dos principais tĆ­tulos vampĆ­ricos dos anos 1980, Fome de viver completa 40 anos em abril de 2023. E, parafraseando o clichĆŖ, ā€œquem ganha presente Ć© vocĆŖā€, fĆ£ da obra: a editora Sebo Clepsidra vai publicar uma nova edição do romance de 1981 que deu origem ao filme. Ele estĆ” em campanha de financiamento coletivo e pode ser adquirido neste link. Aqui no Brasil, o romance de autoria do norte-americano Whitley Strieber estĆ” fora de catĆ”logo desde 1987. A tradução e o prefĆ”cio da nova edição foram assinados por este colunista. E tal foi o prazer que senti ao conhecer a fonte literĆ”ria e rever o filme, que gostaria de compartilhar algumas palavras a respeito deles por aqui. . Vampiros cientĆ­ficos ComeƧo ressaltando a mistura de ficção cientĆ­fica e horror em ambas as obras. Fome de viver, o filme, usa a ciĆŖncia para explicar algumas das caracterĆ­sticas principais dos vampiros: a vida eterna estaria associada a uma espĆ©cie de sono abissal, e a transformação de um mortal em criatura da noite se dĆ” pela transfusĆ£o de um tipo de sangue anĆ“malo, de composição extraordinĆ”ria.

Na obra de Tony Scott, contudo, essas relações entre ficção científica e vampirismo são atenuadas quando comparadas ao romance de Whitley Strieber, no qual encontramos uma mistura muito mais densa entre ciência de ponta e horror sobrenatural. Esse entrecruzamento é representado pelas duas personagens principais: Miriam Blaylock, a vampira sedutora (personagem de Catherine Deneuve no filme), e Sarah Roberts, a médica brilhante (Susan Sarandon).

Ambas personificam visƵes de mundo opostas. Com mais de 2 mil anos de idade, Miriam Ć© filha do mistĆ©rio, herdeira de uma espĆ©cie cuja origem remonta ao Egito Antigo e Ć  comunhĆ£o entre entidades monstruosas e seres humanos. Sarah, por sua vez, Ć© quase toda ciĆŖncia – uma jovem gerontologista pragmĆ”tica, de carreira meteórica, reconhecida pela pesquisa das relaƧƵes entre sono e envelhecimento. O encontro entre as duas, e suas consequĆŖncias, estĆ” no nĆŗcleo da trama tanto do filme quanto do livro. Sono profundo, vida longa No romance de Whitley Strieber, Ć© maior o espaƧo dedicado Ć  fundamentação cientĆ­fica dos fenĆ“menos vampĆ­ricos. Boa parte da trama se desenvolve no Centro de Pesquisa MĆ©dica Riverside, onde Sarah trabalha investigando as relaƧƵes entre sono e envelhecimento. Ela estĆ” sempre acompanhada de Tom Haver, seu colega e namorado, com quem tem uma relação instĆ”vel, alternando momentos tórridos e brigas violentas. Por meio dos diĆ”logos de Sarah com Tom, Strieber introduz conceitos complexos de fisiologia e hematologia, de modo a justificar a tese de sua personagem: o prolongamento da vida por meio do adormecimento profundo. Ɖ justamente essa pesquisa que leva Miriam atĆ© Sarah, graƧas a um famoso livro publicado pela mĆ©dica.

No inĆ­cio, o intuito da vampira Ć© descobrir uma solução para o perecimento de seus ā€œtransformadosā€ – pois, diferentemente dela, todos acabam definhando após alguns sĆ©culos de existĆŖncia, o que fatalmente a condena Ć  solidĆ£o. Mas Miriam acaba por se encantar com Sarah, e as circunstĆ¢ncias da trama fazem com que mude de planos. Nem mortos, nem vivos A propósito, a solidĆ£o da protagonista Ć© uma das forƧas do romance. Miriam caminha na tĆŖnue linha que separa a monstruosidade da humanidade, ora pendendo para um lado, ora para outro. Por meio de flashbacks e saltos temporais, descobrimos que ela precisou se brutalizar para suportar o terrĆ­vel destino que lhe foi reservado.

NĆ£o nos referimos ao fato de que viva Ć  base do sangue e da carne de humanos, mas sim de que precise ā€œauxiliarā€ seus transformados a morrerem quando eles comeƧam a apresentar sintomas de enfraquecimento. E, na verdade, nĆ£o se trata de morte o que os acomete, mas de algo muito pior, uma espĆ©cie de coma desperto. O sĆ­mbolo mais marcante dessa ambivalĆŖncia de Miriam Ć© a relação dela com John Blaylock, seu companheiro desde o sĆ©culo 18 (personagem de David Bowie no filme). Logo no inĆ­cio do romance, John dĆ” indĆ­cios de que comeƧa a perder vigor. Tem dificuldades para dormir e a fome o acomete com mais frequĆŖncia.

Miriam e John percebem o que estƔ acontecendo; ela enfrenta uma espƩcie de luto silencioso, ele renega o fato de que esteja morrendo e passa a odiƔ-la, furioso com as promessas falsas que ouvira.

Nossa conexão com as motivações de ambos os personagens é inevitÔvel. Compreendemos tanto a solidão atroz de Miriam, sentimento que a leva a se dedicar à preparação de potenciais companheiros ou companheiras no futuro, quanto a transformação de John em um monstro, convertendo-se em um possível vilão da trama. Homens são empecilhos Chama a atenção também a tonalidade dos personagens masculinos da história. John Blaylock e Tom Haver são pÔlidos em relação à exuberância de Miriam e Sarah. E não só: à medida que o enredo se desenvolve, ambos ainda se revelam empecilhos para que as duas se encontrem.

O amor de Tom por Sarah Ć© profundo e verdadeiro, mas ambiƧƵes profissionais se interpƵem. Ele enxerga, na pesquisa revolucionĆ”ria da companheira, uma oportunidade de afastar inimigos polĆ­ticos dentro de Riverside e assumir a direção do Centro. Assim, Tom figura como o elemento ordinĆ”rio que impede a transcendĆŖncia de Sarah rumo ao extraordinĆ”rio, representado pela aproximação de Miriam. TerĆ­amos, aqui, o confronto entre o secular e o mistĆ©rio – ou o sagrado feminino, isto Ć©, o vĆ­nculo espiritual e religioso com entidades femininas. Cabe lembrar que a protagonista Ć© filha de LĆ¢mia, uma rainha da LĆ­bia que, de acordo com a mitologia grega, tornou-se um demĆ“nio devorador de crianƧas. Desses choques entre o antigo e o novo, entre a ciĆŖncia e o sobrenatural, resulta um romance que ainda tem muito a dizer.

Esse mérito também deve ser atribuído à escrita do autor. No geral condensado e incisivo, Strieber com frequência nos provoca a reler, a olhar melhor as cenas em busca de algo que possa nos ter escapado.

E algo invariavelmente escapa. Porque estamos diante não só de criaturas esquivas, enigmÔticas, que hÔ séculos nos fascinam; também nos vemos frente ao mistério da própria literatura, que é o encontro com o outro. Nesse caso, o assustador (porque condenado à solidão) outro.

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