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  • Oscar Nestarez

Elementis [Conto de Aline Medeiros - Belas Artes]

[Nota: a partir de agora e ao longo das próximas semanas, publicarei aqui os contos de horror e mistério elaborados por alunas e alunos da disciplina que ministrei na pós-graduação de escrita criativa da Faculdade Belas Artes. O primeiro texto é "Elementis", de Aline Medeiros, uma história de crime contada de maneira inteligente e envolvente. Boa leitura!]



(Campo de várzea. Fonte: Voicers)

ELEMENTIS


O clima não era dos melhores. Enquanto o sol estralava lá fora sob o campinho, o barraco improvisado de vestiário reprimia grandes emoções. O Fogo Azul estava lá, diante da final de mais uma Taça Cecap, título que seria inédito para o time.

Túlio, o técnico, não sabia exatamente como haviam chegado até ali. Para ele, assim como a Igreja Católica determinava, os domingos eram sagrados: dia de pedir uma porção de pastel no PóPiDi e tomar cerveja a tarde toda no trailer do Luizão. Em um deles, então, aceitou o convite de Serginho, menino que viu crescer pelas ruas do bairro, para comandar o time de várzea. Túlio nunca entendeu muito de futebol, mas sempre foi bom palpitador. Durante os jogos do Fogo Azul, berrava em direção ao campinho, dando opinião em tudo que tinha direito.

- É sério, seu Túlio! Você tá sempre aí assistindo a gente, acho que já conhece esse time melhor que ninguém. Não quer vir dar uma ajuda, não? – argumentou Serginho.

E foi aí que Túlio virou o técnico que, apesar de não acreditar, tinha levado o time à final da Taça Cecap. Enquanto observava a tensão generalizada dos rapazes, que já não era mais contida por palavras de incentivo, chamou Serginho de canto:

- Moleque, chega aqui.

- Fala, seu Túlio. O que pegou?

- Eu já não tenho mais o que falar pra essa molecada não. Meu trabalho aqui foi feito, viu? Eu vou pegar minha cervejinha com o Luizão e assistir na arquibancada.

- Mas seu Tú....

- Não tem mais nem menos mais. É o seguinte, a única coisa que eu posso dizer é hoje eu acordei com um pressentimento forte no meu peito. Coisa ruim. E não me enche mais a porra do saco que eu já tô esgotado.

Assim, 10 minutos antes da partida mais importante de sua história, o Fogo Azul ficaria sem técnico, com o craque abalado e mais 11 jogadores suando – não só pelo calor – em um cubículo de madeira.



FOGO


O clima era dos melhores. Parecia até bom demais para ser verdade. Ana Liz e Pedro completavam 1 mês de namoro e pretendiam aproveitar a previsão de sol do fim de semana para celebrar na praia. Finalmente, a vida dava sinais de que seria gentil com ela.

Por anos duvidou que esse momento chegaria, mas ver Pedro materializado ali lhe dava a certeza. Se conheceram na calourada do começo do ano. Ela, no 4º semestre de Marketing, ele, no 6º de Engenharia de Produção. Trocaram olhares no botequim abarrotado de adultos recém-saídos do ensino médio, que tomavam vodka de sabor a goladas e não se preocupavam com, como a mãe de Ana amava dizer, “forrar o estômago”.

Acompanhada das amigas, Ana se afastou da muvuca pela rua de ladrilhos cercada de bares. Avistou, então, o menino de óculos que tinha enchido seu estômago de borboletas. Enquanto ele se aproximava, as meninas já riam prevendo o fora que o garoto levaria. Nos dois anos de faculdade, a única certeza que realmente tinham era a de que Ana era arisca, impassível. Nada nem ninguém a abalava, era dura como pedra, como o ladrilho que pisava.

- Oi! Desculpa te incomodar assim, é que te vi ali no bar e pensei em vir falar com você. – disse Pedro ao se aproximar.

- Oi.

- Claro, oi. Você estuda aqui na UNG?

- Sim.

- Qual é seu nome?

- Ana Liz.

- Legal, Ana! Eu sou o Pedro.

- Legal.

- Ah, poxa, desculpa, acho que estou te atrapalhando, né?

Um silêncio excruciante durou o suficiente para que Pedro começasse a se afastar, mesmo sem resposta alguma.

- Não! Desculpa. Tá tudo bem, você não está me atrapalhando. Quer ir buscar uma garrafa de cerveja? – enfim respondeu Ana, com as bochechas coradas.

Deixando as amigas embasbacadas, os dois partiram para o que seria o começo de uma relação. Um pedido de namoro e um mês depois, estavam ali, embarcando para Caraguatatuba em um fim de semana só deles, do jeito que Pedro gostava.

No ônibus, Ana se divertia ao observar o namorado cochilando. Se beliscava a todo momento, uma prova física de que aquilo tudo não era um sonho. Era muito mais do que sempre imaginou para si, tendo em vista a péssima relação com homens em geral. Apoiada no ombro de Pedro, permitiu-se relaxar. A viagem era longa e ela estava, enfim, segura.

×


O clima era tenso. O 1º tempo havia começado há 15 minutos e a posse de bola do Fogo Azul era praticamente nula. Túlio já estava lá, sentado nas cadeiras de metal, assistindo pela vista privilegiada do Bar do Luizão. Serginho, no campo, escorria o suor que insistia em pingar da testa enquanto corria pela terra batida do campo. Se pudesse chutar, arriscaria que a sensação térmica era de 50°C e seu corpo, já em estado de derretimento, parecia concordar.

O jogo contra o Sem Mais FC era um clássico na região. A rivalidade entre as duas equipes atravessava gerações e os conflitos eram constantes. Ali, Serginho não estava como atacante e craque do time, mas representando a memória de seu pai, que há 15 anos havia perdido essa mesma final, nesse mesmo campo.

As laterais estavam consideravelmente cheias para um jogo da Taça Cecap, campeonato que recebia o nome do bairro e havia ganhado certa popularidade na cidade. Serginho hiperventilava por todos os poros do seu corpo, como se ele e a correnteza fossem uma coisa só. Via as pessoas o observando e desmanchava ainda mais.

Aos 15 minutos, o árbitro concedeu tempo para as equipes se recuperarem do calor intenso. O placar ainda estava 0 a 0, mas a diferença de domínio era gritante. Serginho reuniu os garotos que pareciam ter tomado um banho de chuva:

- É o seguinte: daqui para frente não dá mais pra bobear. Isac e Léo, a marcação é de vocês. Eles estão pressionando assim para fazer o gol e depois se fecharem na defesa. Vai ter muita catimba se isso acontecer. Eu vou para frente, Pauluco e Zé me apoiam no meio, fechou?

Um coro de “sim” e "vamos" fez a terra batida se estremecer.


ÁGUA


O clima parecia tenso. Haviam chegado há algumas horas no apartamento da tia de Pedro em Caraguatatuba e pretendiam aproveitar o resto do dia na praia. Ana já se trocava enquanto Pedro saia do banho e aproveitou para admirá-lo por um tempo. Conhecia pouco sobre o amor romântico, sabia o que havia assistido nos filmes da Disney e nas comédias dos anos 2000. Viver mesmo, não havia vivido nada, pelo menos não até agora.

Isso era, inclusive, um dilema para Ana. As amigas estranhavam o fato da amiga ainda não ter dito para Pedro que o amava. É claro que sentia, quanto a isso não havia dúvidas, mas os bloqueios emocionais de Ana não permitiam que ela vocalizasse. Eram três simples palavras que pareciam travar na sua garganta.

Durante as horas que dividiam São Paulo e Caraguatatuba, Ana Liz pensou continuamente sobre esse assunto. Decidiu que seria ali, que teria coragem, afinal, já estavam há um mês juntos e não existia mais motivos para ter medo de dizer como se sentia. Ela o amava. Simples assim.

Quando assistiu Pedro sair do banho, constatou que era o momento certo. Ele o encarava de modo estranho, mas poderia ser por seu carinho repentino. Ana o abraçou e sussurrou:

- Estava querendo te falar isso há um tempão. Eu te amo, viu? Muito.

Acariciando seu rosto e levando uma mecha de seu cabelo para trás da orelha, Pedro deu um dos sorrisos que Ana poderia afirmar ser o mais lindo do mundo.

- Eu também, mas amo ainda mais quando você não usa shorts de vagabunda, meu amor. – disse enquanto ria.

Ana disfarçou a cara de decepção enquanto tentava relevar o jeito divertido do namorado. Sabia que não era por mal, fora criado dessa forma. Estava vivendo seu conto-de-fadas e intercorrências no caminho eram mais do que normais, assim, ela engoliu o comentário a seco e sorriu.

Uma vez na praia, o casal garantiu o lugar próximo ao quiosque que parecia mais arrumado. O sol já ameaçava despedir-se quando Ana se deu conta da areia que acariciava seus pés e de como o cheiro de camarão e maresia a atravessavam. Estava relaxada, apesar do entorno. Olhou para o mar, que se revoltava aos poucos, assim como o comportamento de Pedro ao seu lado.

- Vamos embora, Ana. – disse rispidamente.

- Que isso, Pedro? Tá maluco? A gente acabou de chegar!

- Eu tô maluco? Que porra é essa? Pega suas coisas e vamos embora agora! – respondeu, já visivelmente alterado.

- Mas pelo amor de Deus! O que tá acontecendo?

- Você é surda porra? Levanta agora! Vamos embora. – Pedro segurou a garrafa de água que havia comprado no quiosque e começou a deixar a faixa de areia da praia. Ana o seguiu, sem entender o que se passava na cabeça do namorado.

- Pedro, calma aí! Me explica o que tá acontecendo, por favor!

- Vai se fazer de sonsa agora? Você estava gostando né? Aquele filho da puta do quiosque te comendo com os olhos, estava gostando, né? – gritava Pedro ao agarrar o braço de Ana.

- Que?! Do que você tá falando?

- Que nojo de você, Ana! – seguia gritando.

Em um gesto rápido, Pedro apertou a garrafa de água em direção a Ana Liz. Com o líquido escorrendo por todo o rosto, viu o namorado atravessando a rua que separava o prédio da praia em que estavam sem sequer olhar para trás.


×


O clima era caótico. Serginho tinha arquitetado todo sucesso da partida em sua cabeça. Marcaria o gol da vitória, daria o título inédito ao Fogo Azul e homenagearia o pai ao levantar a Taça Cecap. Poderia, depois, ligar para Luíza e chamá-la para sair, ou talvez, passar no açougue e assar uma carne no quintal de casa só para os mais chegados – claro, se sua mãe deixasse. E sabia que ela deixaria, porque estaria orgulhosa. O bom filho honrou o bom pai. Tinha de ser assim.

Mas quem poderia explicar o caos da vida? A mesma que levou seu pai em um dia comum de inverno, atropelado por um ônibus que passava desgovernado pela avenida. A mesma que o deixou órfão, com uma mãe viúva e desolada. A mesma que, hoje, permitia que Lucas, craque do Sem Mais FC, atravessasse a estratégia cuidadosamente pensada por Serginho e marcasse 1x0 para o rival.

Perdiam. O cronômetro já marcava 37 minutos de partida quando olhou para o lado e viu Pauluco correndo para as laterais. Lidiane, sua esposa, mexia na bolsa freneticamente como se buscasse uma barra de ouro. De longe, Serginho não conseguiria ver, mas Pauluco já estava quase roxo. No auge dos seus 27 anos, o centroavante do time convivia com uma asma crônica, agravada pelas condições em que jogavam naquele dia.

Com sorte, Lidiane foi rápida ao sacar a bombinha e entregar ao marido, que já respirava com muita dificuldade. Pauluco deitou no chão, ali mesmo, na terra batida, enquanto seu peito descia e subia em um ritmo frenético. Não jogaria mais.

Serginho se apiedou o máximo que pode pelo amigo, mas também por si mesmo. Sabia que Pauluco era insubstituível na sua função e que o time estaria desfalcado sem ele. O bom filho ficava cada vez mais distante de honrar o bom pai.



AR


O clima era caótico. Em frente ao espelho, Ana passava o corretivo recentemente comprado. Não, não estava se maquiando para sair com as amigas, essas ela já não encontrava há muito tempo. Não, tampouco estava indo ao shopping almoçar com a mãe, que também buscava evitar ao máximo.

Estava, na verdade, disfarçando as marcas que Pedro havia deixado em seu pescoço enquanto a enforcava. Os hematomas só não gritavam mais que sua alma, profundamente destruída com o que havia vivido. Encarava o teto de seu quarto como se buscasse respostas para as inúmeras questões que a atormentavam dia e noite: onde ela teria errado? Por que tudo estava tão diferente?

Não saberia dizer ao certo quando começou e o que levou a isso. Só sabia que sua confusão interna a levava à loucura, ao puro estado de delírio. Não, não era seu doce Pedro, seu amor. Teria que ter feito algo para merecer aquilo, só poderia ser.

Remontou como um péssimo quebra-cabeça mental todas as cenas da noite anterior. Revisitou os diálogos, estudou palavra por palavra que lembrava ter dito e escutado até sentir a tontura que a dominava ultimamente. Sabia que começara brando, conversavam sobre a rotina em seus respectivos trabalhos. Então, contara sobre as novidades da agência:

- Essa semana inauguraram um departamento novo lá, sabia?

- É mesmo?

- Pois é, eles estão investindo em branding, chegou bastante gente nova.

- Hum. – respondeu Pedro, sem muito interesse.

- Eles até comentaram de ir no bar qualquer dia desses...

Pedro a encarou enquanto já mudava a expressão.

- Eu pensei que você poderia ir junto, conhecer o pessoal... – continuou Ana.

- Olha, Ana Liz, às vezes eu acho que você não me conhece, sabe? Você acha mesmo que eu quero ir para um bar com esse tipo de gente?

- Nossa, Pedro, são meus colegas de trabalho, eu não...

- Você vai começar a defendê-los assim? Bem na minha frente? – respondeu Pedro, já se exaltando.

- Bom, eu não quero discutir com você, tá? Eu devo sair com eles na quinta-feira...

Como se o tempo estivesse congelado, Pedro segurou o braço de Ana e a empurrou em direção a parede.

- Tá vendo como você é? Como você é vagabunda, Ana Liz?

- Me solta, porra! Você tá maluco, Pedro! Vai fazer o que? Vai jogar água na minha cara de novo?

- Eu vou fazer muito pior. – prometeu Pedro enquanto firmava os dedos ao redor do pescoço de Ana. Ela percebia seu prazer sádico a cada busca dela por ar. Sentiu que morreria ali, pelas mãos de quem mais amava. Seu pescoço ardia, a visão embaçava, ela já não tinha forças para se debater. Chegara sua hora.

Ana despertou assustada da memória que revivia em sua cabeça quando escutou a campainha. Tremendo, deu mais uma ajustada no corretivo para que ninguém notasse. Caminhou até a porta, com as pernas ainda bambas. Quando abriu, estava um entregador com um buquê e um cartão. Agradeceu o moço, que sequer olhou em seus olhos. Fechou a porta atrás de si e leu a mensagem:

“Te amo por toda a eternidade. Para sempre seu.

Pedro”


×


O clima era de esperança. Pelo menos para os torcedores mais otimistas do Fogo Azul. O placar seguia 1x0 para o time rival, mas todos notavam como Serginho voltara energizado para o 2º tempo. “Uma fera! É o nosso Ronaldinho!”, gritavam nas laterais do campo de terra batida.

Serginho realmente voltou diferente para a partida. Sentia-se mais ágil, motivado e destemido. Passou a achar brechas no ataque do Sem Mais, cansava os jogadores do time com sua rapidez. Driblava e cruzava o campo com a destreza de uma bailarina no Ballet de Bolshoi.

Era imparável, indomável, indestrutível. Léo deu um passe torto para Zé, que com muita sorte conseguiu alcançar. Avançou pela área do time adversário e, finalmente, avisou Serginho, posicionado estrategicamente. A bola pousou nos seus pés, como uma coreografia perfeita e Serginho chutou.

O chute não acertaria o gol, mas mudaria sua vida.



TERRA


Não existia esperança. Ana tolerou a primeira, a segunda, a terceira e acabou perdendo as contas pelo caminho. A cada nova agressão, um novo limite era estabelecido. Ela se prometia: “na próxima eu vou embora, vou fazer algo”, mas os planos não saíam do papel. Os pedidos de desculpa eram bons, convincentes, o choro parecia real, era seu Pedro, seu menino quem suplicava por perdão ali. E ela, sem referência e sem perspectiva, aceitava novamente.

Nas ruas, ninguém desconfiava. Suas amigas, então, menos ainda. A mãe chegava até a gostar do genro, claro, mantendo uma distância necessária. Eram jovens, bonitos, saudáveis e felizes. Felizes, sim, pois quem não estaria feliz com Pedro? Bem encaminhado, caseiro, tranquilo, trabalhador, um bom moço. Ana estava feliz. Deveria estar.

Mas naquela noite, quando chegou ao hospital com o ombro deslocado após uma briga, duvidou daquela felicidade mais uma vez. Duvidou do amor que sentia e do futuro que imaginava para os dois enquanto inventava mentiras para justificar a lesão para a enfermeira. Pedro estava esperando do lado de fora, paralisado. “Seria arrependimento ou medo de ser denunciado?”, pensou Ana.

Medicada e com a tipoia, encontrou Pedro na recepção. Ao encará-lo, viu que já não sentia mais nada que não fosse nojo e desgosto.

- Você tá bem, amor? Tá doendo? – perguntou Pedro, com boa dose de preocupação na voz.

- Eu vou para a minha casa.

- Eu vou com você, falo com a sua mãe.

- Eu não quero.

- Que?

- Eu não quero mais, Pedro. Eu não quero mais olhar na sua cara. Sai da minha frente ou eu vou gritar no meio dessa recepção.

Sacando o celular da bolsa para chamar um carro de aplicativo, Ana foi caminhando em direção a saída do hospital. Pedro, indignado, se aproximou por trás da namorada e sussurrou no ouvido dela.

- Escuta aqui, Ana Liz, você não vai fazer isso. Eu já machuquei seu ombro e vou fazer coisa pior se você não sair daqui comigo.

Pedro tomou o telefone da mão de Ana e jogou no jardim ao lado do hospital. A empurrou para dentro de seu carro, estacionado na rua ao lado e partiram.

- Agora você conseguiu, Ana Liz, você conseguiu me tirar do sério.

- O que você vai fazer, Pedro? O que você vai fazer comigo?

- Cala a boca, porra!

Enquanto chorava copiosamente, Ana enxergou as placas na estrada. Estavam indo em direção ao Aeroporto de Guarulhos.

- O que você está fazendo? Por que a gente está indo para o aeroporto?

- É impressionante como você me surpreende com a sua burrice.

Tomando uma saída anterior ao aeroporto, Pedro se aproximou de um campo de terra batida. O lugar era cercado por prédios baixos de diferentes cores e repletos de árvores. Em um contexto diferente, em uma vida diferente, Ana gostaria de morar em um local assim. Construir uma família, criar seus filhos, conquistar suas coisas. Ter um cachorro, talvez, ou um gato, para ser mais independente. Teria se formado e procurado logo uma pós-graduação. Poderia viajar com a mãe, conhecer a Serra Gaúcha, Paraty ou Ouro Preto. Em paz, seria feliz. Acima de tudo, estaria viva para fazer isso.

Mas quando Ana olhou para frente, as mãos de Pedro já envolviam seu pescoço. Os olhos, que um dia a confortaram, exalavam ódio como nunca tinha visto antes. Em um triz, já não sentia mais a mandíbula, que fora deslocada após um soco. As agressões, mais intensas e frequentes, foram também ficando mais leves, pois Ana não sentiria mais nada. Perdeu a consciência, assim como perdeu a humanidade durante esses meses, sem sequer perceber.

Morta, em seus braços, Pedro cavou um buraco atrás do gol que já não possuía rede. Jogou Ana lá, completando a profundidade com galhos de árvores espalhados pelo chão. Virara terra, folhas, suor, tudo um só lugar. Ela se fora.


×


Naqueles dois segundos em que a bola viajara para fora do gol, Serginho sentiu sua confiança indo junto. Não se conformava com o fracasso, com a decepção que geraria para todos. Observou o trajeto, até assistir a bola sumir. Todos olhavam incrédulos. Ela estava ali e, então, desapareceu.

Serginho avançou para procurar. Enquanto corria, viu galhos e folhas espalhados. Em sua frente, um buraco profundo e disfarçado guardava a bola. Abaixou-se para pegá-la e, quando sua mão segurou o objeto, também sentiu um frio arrepiante ao tocar algo que um dia fora pele. Serginho jogou a bola de lado e continuou tirando as demais folhagens. Naquele domingo, sob o sol escaldante, Serginho encontrou um corpo durante a final da Taça Cecap.


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