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  • Oscar Nestarez

[Conto] Dois abolidos

Publicado originalmente na coletânea Vampiro - Um livro colaborativo (Empíreo, 2017) e posteriormente na revista digital Vício Velho


Morcego filostomídeo (Animals Animals/SuperStock)

“Meu nome é Katerina, e estou limpa há oito meses.” O som da minha própria voz me surpreende. Depois de passar quase todo o dia sem falar, ela me soa irreal. Não parece minha. Mas a frase pronunciada, recebida com entusiasmo pelos presentes, é muito verdadeira. Devolvo um sorriso triste para os seis à minha volta – e em especial ao Dr. Abraão, o coordenador das reuniões e do programa de recuperação que, depois de inflar o peito e de se ajeitar na cadeira, fixa o olhar orgulhoso em mim e me cumprimenta.


Mas não reparo no que ele diz – antes, noto a veia em seu pescoço, que parece pulsar com mais vigor. O velho calor surge imediatamente, escalando-me a cintura com urgência até chegar às mandíbulas, que se abrem num espasmo. Pois é, oito meses de “limpeza” não são quase nada. Ou melhor: perto da maldita eternidade, são, de fato, absolutamente nada.


Desvio o olhar, tentando domar a energia que se espalha pelo meu corpo. E só consigo dominar o impulso a muito custo, reproduzindo um exercício que aprendi aqui nas reuniões: segurar a respiração e “pressionar”, “concentrar” na região da cabeça o pouco sangue que tenho em mim. Faço isso para que o cérebro, alarmado com uma possível inundação, ocupe-se apenas de sua própria sobrevivência e deixe de lado qualquer outra função.


Noto a apreensão de todos, mas não interrompo o processo. Percebo o espanto, também: já vi acontecer com outros dependentes, e não é bonito. A cabeça fica inchada e vermelha, os olhos se tornam cozidos. Reparo que Dr. Abraão, com um gesto, impede que qualquer um dos participantes intervenha – mas vejo que a mão esquerda dele vai se aproximando de uma espécie de interruptor na mesa.


A mão se afasta conforme ele percebe que volto a mim. Aos poucos, após sentir a cabeça lotada e temendo um desmaio, vou despressurizando-a. É um alívio sentir o raro sangue se espraiar de volta pelo corpo, e notar que o calor não está mais lá. Constato também que a veia do Dr. Abraão já não pulsa mais apetitosamente; é somente um cano minúsculo em uma parede encarquilhada. Nunca perguntei a idade dele, mas é bem velho.


“Agora, sim! Muito bom, Katerina”. A voz dele soava firme. “Nos primeiros meses, esses impulsos são violentos. E você conseguiu administrá-los. São bem poucos os que fazem isso. Então, parabéns!”. Ecoaram-no todos os presentes, e a reunião seguiu sem mais contratempos, com cada um contando sobre suas evoluções (ou recaídas) até ali.


Terminados os relatos, seguimos pelos intermináveis corredores até o banco de sangue especial. Parecem intermináveis, claro, diante da sede que todos sentimos. Estamos na ala nova da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e as coisas aqui são mais organizadas do que nos prédios antigos. Por dois ou três minutos percorremos, afoitos, o caminho que saberíamos fazer de olhos fechados. O Dr. Abraão é o psiquiatra-chefe do hospital e vai à frente, imperioso, cuidando para que nenhum de nós avance o sinal.


Pouco antes de entrarmos no banco especial, o aroma ferruginoso fustiga o calor – agora acometendo a todos nós. Aceleramos o passo e entramos, cada um assumindo a posição habitual nas cadeiras espalhadas pela sala antisséptica. Aqui é onde recebemos a “marmita”, como é conhecida a provisão de sangue para quem segue o programa de recuperação à risca: dois litros por semana e per capta, via oral, doados por voluntários. Nada dessa palhaçada de transfusão.


Para quem estava acostumada a lamber o asfalto logo após um acidente automobilístico, ou a devorar os pernilongos mais “cheinhos”, não é nada mau. Ao menos para uma vampira que quer andar na linha – e eu quero. Depois de decênios e decênios de sanguessugagem, decidi que minha existência não podia mais se manter às custas de outras. Na verdade, já estou cansada, muito cansada de tudo isso – e principalmente da eternidade.


No começo, claro, fiquei maravilhada – como todo mundo. Jovem e bela para sempre, oras! Mas o espírito foi envelhecendo, e fui me tornando uma criatura amarga, reclusa e arrependida. A perspectiva de jamais perecer tornou-se insuportável, de forma que eu repetia o famoso estribilho das reuniões, um dia de cada vez, esperando que esse dia fosse mesmo o último.


Até perdi as elogiadas habilidades predatórias que tinha. Nos tempos áureos, meus métodos não eram nada convencionais, na verdade. Quando estava “suja” e era dominada pelo calor, metia pavor até nos meus pares. Nada de elegância ou moderação; eu não tinha modos alguns, o que me rendeu o apelido de “Katerificina”.


Só que o tempo foi passando, e Katerificina ficou para trás. Bem para trás. Continuei sucumbindo ao calor e à urgência da saciedade, mas aos poucos fui me arrependendo. No momento seguinte àquele em que, cega, surda e violenta, cravava os caninos nas vítimas, chegava até a retrair as presas; mas, confusa entre o arrependimento, a exaustão e a sede, cedia a esta última. Logo enterrava os dentes mais a fundo na massa suculenta de um pescoço ou de um pulso, murmurando algo como um pedido de desculpas para mim mesma.


Mas esse dilema foi se tornando intolerável, até que decidi agir para valer. Estava de saco cheio de tudo aquilo – precisava me distrair da eternidade.


O trabalho voluntário para o qual me dirijo agora, depois de me despedir do grupo, faz parte disso. Fica ao lado da Santa Casa, apenas cinco minutos a pé. Foi indicado pelo próprio Dr. Abraão quando perguntei como poderia me ocupar, desviar a atenção daquelas veias pulsantes. Ele logo rasgou um pedacinho de papel de uma agenda e rabiscou um número de telefone: “Ligue e fale com a Eulália, a coordenadora”, disse naquele tom professoral. “Pode dizer que te indiquei. Estão precisando de gente pra cuidar de crianças numa brinquedoteca, e acho que vai te fazer bem”.


Ele tinha razão. O trabalho é a melhor coisa que me aconteceu há muito, muito tempo. Trata-se de uma ONG que dá suporte a famílias de crianças em “situação de risco” – ou seja, doentes ou socialmente vulneráveis. E enquanto os pais, mães ou responsáveis são atendidos, essas crianças ficam num espaço recreativo, aos cuidados de voluntários como eu.


Descobri que não apenas adoro estar entre os pequenos, como também que não posso ficar sem esse contato. Vou para lá todas as quintas-feiras, logo após as reuniões e a marmita – desnecessário dizer que são os melhores dias das minhas infelizes semanas.


Na verdade, não posso ficar sem o contato de uma criança em particular: Amã. Um garotinho de sete anos, órfão de pai e mãe. Fora adotado por uma tia, mulher carrancuda, que o trata com frieza e que, dizem à boca pequena, só vai aos atendimentos para pegar a cesta básica incluída no processo.


Lembro que me encantei pelos olhos dele: os mais expressivos que eu já vira. Mas o que o olhar comunicava, a boca silenciava. Amã era calado como um presságio. Jamais o ouvira pronunciar uma palavra sequer – pelo menos não até aquela tarde, há cerca de três meses – uma tarde frenética na salinha que abriga a brinquedoteca, em que seis ou sete crianças espalhavam-se por toda a parte, virando o ambiente de ponta-cabeça.


Como de costume, Amã estava recolhido a um cantinho, brincando com peças de montar. Eu e Judite, outra voluntária da brinquedoteca, tentávamos dar conta das crianças, que estavam especialmente agitadas naquela tarde, até que Eulália abriu a porta da salinha. Aquilo dificilmente acontecia, então imediatamente olhei para ela (Judite tentava acalmar uma briga entre dois garotinhos). Com os olhos e o nariz, a coordenadora apontou-me Amã. Entendi o recado: eu deveria dar atenção a ele por algum motivo. Fui até o cantinho em que ele estava e me sentei.


Devo ressaltar que a dinâmica da brinquedoteca sempre foi bem definida. Brincalhona e expansiva, Judite é a grande atração, as crianças a adoram; e eu sou uma espécie de auxiliar. Acho que os pequenos também gostam de mim. Sentem aquele mesmo carinho condescendente que se dedica a um fiel escudeiro, um sidekick. E não me incomodo. Já me contentava por ficar ali, digerindo a marmita, acompanhando as brincadeiras e arrumando a bagunça. E agora há também o Amã.


Devo ressaltar também que, com a exceção de Eulália, ninguém da ONG conhecia minha natureza real. Quando perguntam o motivo dos meus óculos escuros, dou a desculpa de sempre: ceratite, ou inflamação da córnea devido à exposição à luz – o que, de certa forma, não deixa de ser verdade. É verdade que, em termos de tolerância, o mundo até que avançou. Somos mais bem aceitos; mas o medo da enorme maioria ainda é perigoso, para nós e para essa maioria. Culpa de meus pares sanguinários, ainda transgressores. E vampiras como eu, exaustas de o serem e que só querem andar na linha – ainda que tortuosa, às vezes – acabam se lascando. Deve ser karma).


Pois bem: naquela tarde, sentei-me com Amã e passei carinhosamente a mão pelas costas dele, sem esperar resposta. Ele não falou, de fato, mas o olhar que dirigiu a mim me desmontou. Um olhar sem o brilho habitual, e que na verdade suplicava, implorava por socorro. Ainda que, mesmo para a idade, ele seja miudinho, naquele momento me pareceu até menor, mais frágil e desamparado. Senti urgência em pegá-lo no colo, em abraçá-lo – o que acabei fazendo. Para minha surpresa, ele retribuiu o gesto. E abriu-me as portas de seu mundinho secreto.


Passamos o resto da tarde brincando juntos. Permanecemos em silêncio, salvo por uma ou outra palavra fugidia. Não eram necessárias, essas palavras. Distorcida pela janela de vidro canelado, a luz do dia declinava, alongando as nossas sombras enquanto montávamos carrinhos, casinhas e barquinhos, alheios ao mundo. Percebi que Amã, ao longo daquelas horas, deixava-se soltar.


Após o final do atendimento, fui conversar com Eulália. Perguntei sobre o gesto que havia feito e ela foi direto ao ponto. “O Amã foi diagnosticado com leucemia”. Respirei fundo no silêncio que se seguiu. “Uma forma agressiva da doença. Parece que as chances são mínimas, os médicos deram apenas alguns meses”. Outro silêncio. “Não sei se ele entende bem isso, mas acho que, de uma forma ou de outra, ele pressente”. Rendi-me – não consegui dizer nada.


Desde então, depois de estabelecer um acordo tácito com Judite, tenho passado as tardes com ele. Não demorou para que eu entendesse o significado dessa aproximação. De forma estranha, nós dois estamos à margem do tempo “familiar”. Embora muito jovem, Amã deve mesmo pressentir o pouco de vida que lhe resta; já eu estou exausta com o infinito que me sobra.


E foi nesse território abolido que encontramos um ao outro. E foi aí que passamos horas juntos, distraídos do fim ou da ausência dele, desenhando e brincando com as pecinhas de montar, elaborando criações cada vez mais complexas. Castelos, naves espaciais, dinossauros, e por aí vai. Amã dá a ideia, eu ajudo a aprimorar, e vice-versa.


Agora, conforme me aproximo da rua Fortunato, onde fica a ONG, pego-me pensando no que montaremos ou desenharemos hoje. Um foguete subterrâneo? Uma roda-gigante estelar? Um exército de girafas? Vou revolvendo mentalmente o que poderíamos fazer para escapulirmos rapidamente de nossas condições. Pego-me ansiosa, também, contudo não sei bem o porquê.


Abro a porta e cruzo pais e mães em atendimento para chegar à brinquedoteca. Antes de entrar, Eulália toca levemente em meu ombro e me chama de lado. A expressão dela, já costumeiramente séria, está ainda mais grave. De relance, noto a veia pulsando em seu pescoço – mas a tensão do momento me ajuda a segurar o ímpeto.


“Amã não veio”.


Explica-se a minha ansiedade. E quase adivinho a frase a seguir.


“Está internado”.


Internado… E sozinho, longe do nosso lugar especial.


Sinto impulso de dar meia-volta, mas retenho-o. Fico por aqui mesmo, ainda que completamente alheia. A sorte é que só há um bebê a dormir profundamente ao meu lado. Judite passa a tarde conversando com outras voluntárias, ajudando em outras atividades.


Mas não resisto por muito tempo – incapaz de me concentrar, acabo pedindo permissão para sair um pouco mais cedo. Eulália, que não costuma transigir horários, entende meu anseio e me deixa partir.


Saio do sobrado desnorteada. Amã está perigosamente sozinho. Preciso encontrá-lo, preciso fazer algo. Ainda não sei bem o quê; quem sabe recorrer à minha “natureza” para tentar interromper o processo, trazendo-o para o lado do nosso território revogado –– o lado da eternidade. Mas não sei se seria capaz…


Confusa, começo a correr e logo viro à direita na rua Dona Veridiana. O enorme edifício de tijolos surge ao fundo, aproximando-se rapidamente. Percorro de volta a rota que fiz algumas horas antes, agora intranquila, esbarrando na multidão que jamais parece se dispersar daqui.


De repente, a imagem mental de Amã se torna assustadoramente clara. Vejo-o corado, vigoroso, curado para sempre pela pequena incisão que meus dentes delicadamente provocaram em seu pescoço, um filete do meu próprio sangue a escorrer do canto dos seus lábios sorridentes. Com essa intenção pulsando mais forte em meu corpo, esboço o mesmo sorriso que imagino nesse Amã renovado.


E é sorrindo que atravesso a grande porta ogival para seguir pelo único caminho que conheço, rumo ao banco de sangue especial. Não sou abordada por ninguém. Alguns vigias até me cumprimentam, mas não respondo de volta. Sigo adiante, ainda sem fazer ideia de como encontrá-lo. Não sei seu sobrenome e estou nervosa demais, não conseguiria pedir informações de forma convincente. Mas logo penso na UTI infantil –sim, talvez o estado seja mais grave do que pensei.


Começo a seguir as placas que levam até lá. As janelas dos corredores mostram-me que é noite já feita. Retiro os óculos conforme atravesso o caminho, agora sim interminável, porque à minha frente há só uma imagem devastadora: Amã assustado, os olhos em busca das pecinhas de montar, dos desenhos, da companheira também abolida. Mexo os braços com força para apagar essa imagem, como se espalhasse a água que a reflete. Dois enfermeiros olham-me desconfiados, mas sigo em frente.


Chego diante da porta dupla da UTI infantil e a empurro: fechada. Visitas das 9h às 18h, indica a placa que me confronta. O relógio na parede dá 18h05. Olho ao redor, desesperada; algo me diz que Amã está aí dentro. Penso na única alternativa possível, embora me enoje – embora me desespere, na verdade, pois não vejo outra saída. Bem, pior do que estou, não fico. Tudo de que preciso é atiçar o antigo calor.


Dirijo-me, assim intencionada, à antítese daquele lugar que tinha à minha frente, em busca do melhor, do mais puro combustível que pode existir: o berçário. Chego à maternidade em poucos minutos, e logo depois estou na frente do vidro que apresenta os bebês aos curiosos. Basta que eu zanze um pouco por ali para que o efeito surja, de imediato. A onda vem com fúria, das profundezas do tempo e das trevas. Sinto que perderei o controle em instantes; então, canalizando a energia para a metamorfose, disparo em direção à primeira janela que vejo aberta, e salto.


No ar, beirando a inconsciência, percebo que subo em vez de cair. A visão se turva até se apagar totalmente. E, depois de algumas tentativas desastradas, consigo cadenciar o bater de asas em que se transformaram meus braços.


O odor e uma espécie de instinto me guiam ao redor do edifício, até o escape da tubulação do ar condicionado; atravesso a grade sem maiores problemas e sigo, esbarrando pelo pequeno túnel metálico, até que a energia fica mais intensa – e o calor também. Devo estar passando pelo berçário, penso, pouco antes de sucumbir, mas não antes de conjurar Amã uma última vez; Amã e suas pálpebras se fechando sobre as escleróticas branquinhas, como duas pequenas bocas embaçadas que enfim se encerram…


***


Retorno a mim para descobrir que não conjurei a visão – estou de fato na UTI e tenho os olhos de Amã entre as mãos. Olhos ausentes numa cabeça leve demais, percebo; porque foi separada do corpo, aparentemente a violentíssimas dentadas.


Conforme engulo, em lentos espasmos, toda a substância que ainda jorra pelo gargalo de seu pescocinho fino, sinto o sabor ferruginoso abrandando-me o calor. Aprecio-o por alguns instantes e então me viro. Ainda pouco consciente, vejo a trilha de sangue e bebês trucidados que se conclui em mim. E vejo o Dr. Abraão, correndo para cá, escoltado por três homens gigantescos e brandindo uma enorme e pontuda ripa de madeira na minha direção.

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