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  • Oscar Nestarez

Conto: "Touro extintor"


Seguindo a iniciativa de colegas, disponibilizarei, eu também, alguns contos por aqui. O primeiro é "Touro extintor", que faz parte da coletânea Horror adentro, publicada em 2016 por meio de uma premiação literária realizada pela editora Kazuá.



Trata-se de um conto pautado pelo sexo, pela violência... bem, pelo descontrole.

Boa leitura!


Touro extintor


Talvez, observando agora o sangue nas minhas mãos, eu deva atribuir a culpa toda a mim mesmo. Olhando também para os chapiscos sangrentos nas paredes e nos móveis, para as poças rubras nas depressões do piso frio – consommés espessos aqui e ali onde nacos de víscera boiam –, é fácil deduzir que o único responsável por toda essa bagunça sou eu. Mas minha consciência está em paz, uma paz que por pouco não se eleva às esferas celestiais; e só não o faz porque de fato fui eu o agente, embora mãos muito mais ardilosas tenham guiado as minhas. O bom Deus sabe disso também, tenho certeza. O bom Deus sabe que é uma injustiça absurda atribuir este..., bem, deixemos o Homem de lado, não sejamos puritanos ou hipócritas: este massacre só a mim. Sabe-o tanto quanto saberia este cadáver-fêmea aos meus pés. Quando viva, a antiga dona deste corpo esguio e gelado – com um pequeno ânus recém-aberto no meio da testa e, no piso atrás da nuca, um vasto leque de sangue – conhecia como ninguém a minha natureza. A minha natureza pacata, mas terrivelmente sensível a algumas raras questões.


Já farejando os miasmas da carne que começa a corromper-se – meu faro sempre foi apurado –, aproximo-me. Mais por curiosidade mórbida do que por qualquer outro motivo; na verdade, parece antes um olho mágico, e não tanto um cuzinho. A associação me faz rir.

Aproximo-me deste buraco para ver o que há do outro lado da testa morta: nada, breu resoluto. Nem consigo ver o bumbum lustroso da bala que aí enfiei – deve ter saído pelos fundos. Porém, a dona da testa, sim, penso conforme afasto-me do rosto antes tão lindo, agora tão palerma – os olhos envesgados, recolhidos para dentro das pálpebras superiores, o maxilar aberto e deslocado. Sim, a messalina espiara pelo meu olho mágico o bastante para esquadrinhar direitinho o que me ia na veneta. Donde, não se pode isentá-la de sua própria morte; não, senhor.


Os outros talvez possam ser absolvidos, creio. Ou, pensando bem, não, acho que não. Comportaram-se como cretinos, como os malditos bugres que eram. Atribuo a ela a última virada da chave na tranca, a que abriu a porta gradeada, mas as mãos de todos estavam ali apoiadas, estimulando-a. Ainda assim, observo-os enquanto reacomodo-me em minha cadeira, e sinto algo que beira a condolência. Beira, mas não cai.


O irmão mais novo, por exemplo. Aquele a dois metros de mim, deitado de bruços no assoalho perto do fogão, mas com a cabeça virada para cima. O pescoço esticado e retorcido parece um grande fusilli, e mostra a língua para a eternidade, o coitado. O fato é que nunca o tinha visto antes de hoje, e não antipatizara com ele, de modo algum. Pareceu-me o típico adolescente, com todo o sortimento de espinhas e prepotência que toca à idade. Reconheci-me, jovem, em vários dos seus atos e de suas provocações, que por isso ignorei e tratei até com certa condescendência. Mas morreu mesmo assim – como morreram seus pais de forma um pouco mais atroz – por encontrar-se por perto quando as atitudes de sua irmã desenjaularam a fera que há em mim.


Conhecia muito bem essa fera, o maldito saco de carnes inflado por gases que agora cutuco com o pé direito. Sabia exatamente como fustigá-la pouco antes de transarmos, pois era por tal fera que sempre queria ser penetrada. Tinha plena consciência de quais botões, verbais e físicos, apertar para que as grades se abrissem e o... touro, vá lá, saísse desabalado – naqueles casos, sempre resfolegando de volúpia, atravessando enlouquecido a névoa espessa de hormônios sexuais que dela exalavam, para montá-la, para literalmente cobri-la. Eram fodas bestiais aquelas, em que nenhum de nós estranharia se o quarto de repente se transformasse em um curral, e se os gemidos e gritos descessem escalas até os porões dos mugidos.


Entretanto, perco-me. E sou um tanto injusto ao utilizar pronomes diferentes para me referir ao mesmo objeto; deve ser fruto de uma culpa cada vez mais latente. A se refletir. Porque, claro, tal fera sou eu, não vou me arrogar o status de uma espécie contemporânea de doctor Jekyll e mister Hyde. Admito, sou eu este que narra com ponderação e sou, absolutamente sou eu também o bicho dado a poucos conhecer, que, há meia hora, apareceu por aqui e silenciou algumas vidas irrelevantes à marcha humana.


E claro que era eu quem também adorava aquelas cópulas bárbaras. Eram trepadas elevatórias, em que eu subia rodopiando, rodopiando, e por pouco não chutava respeitosamente o derrière do Pai Celestial que acima invoquei. Cópulas durante as quais apenas um minúsculo filete de razão me prendia à condição humana, até que fosse inundado pelo jorro. É evidente que adorava. Qual homem não se encanta pela mulher que, num exercício de arqueologia sensual, é capaz de explorar-lhe as camadas civilizatórias para nelas encontrar uma versão mais viril de si próprio?


Foi o meu caso. Porém, fascinou-me mais o achado do que a arqueóloga, a quem, após um certo tempo, passei a utilizar apenas como guia à minha versão nuclear. Eram exercícios muito prazerosos, não nego, mas de caráter profundamente ególatra. No começo, ela tampouco parecia importar-se, desde que se satisfizesse com seus experimentos. E é desnecessário mencionar – não sem laivos de orgulho, confesso – que satisfação é um termo um tanto limítrofe para definir a carga de prazer que ela experimentava.


Mas era inevitável que ela percebesse meu alheamento em todo este processo. E, dotada de um gênio também nada virtuoso, foi corrigindo a rota de suas experimentações. Mudanças quase imperceptíveis no começo; palavras que me passavam despercebidas, mas cujo significado velado aos poucos fui apreendendo – e que me lançavam em um estado de leve exaltação. Então ela foi intensificando os exercícios, fustigando, observando minhas reações e anotando-as mentalmente.


Era, presumo, sua forma de vingar-se; um plano de desenterrar em mim o antípoda do criador, ou do procriador que descobrira. Imagino, agora que tenho algum tempo até me levarem e me enjaularem pelo resto da minha vida, que sua intenção seria a de me apresentar à fera destruidora que imaginava haver em mim, para me horrorizar – assim como ela própria se horrorizava com os vislumbres que tinha. Pensando bem, era muito esperta a minha querida defunta. Tinha lá um tino e tanto para adivinhar a existência de um gêmeo demoníaco daquele ser que a levava tão alto. Só não presumira quão baixo o tal gêmeo poderia lançá-la. Quem mandou ela testar aquela maldita – por ser a mais poderosa – combinação verbal com toda a família ao redor?


Divido-me mais uma vez. Não se engane, fui eu quem torceu o pescoço do irmão adolescente até quase arrancar-lhe a cabeça do tronco; fui eu quem enfiou o rosto careca e enrugado do pai no triturador elétrico, o único recipiente que encontrei com o diâmetro necessário para tal; fui eu quem, com um martelo de amassar bife, redirecionei os pés da mãe para transformá-la em uma espécie de Curupira, antes de marretar o instrumento entre seus seios flácidos, até o cabo. E fui eu quem, obrigando minha querida arqueóloga a tudo assistir, depois abriu aquele cuzinho – ou melhor, aquele olho mágico na testa dela com a .38 que encontrei na gaveta de meias do pai dela. Lugarzinho óbvio, não?

Achei-a durante uma tarde em que tivemos uma briga bem feia. Furiosa com a minha indiferença em relação a quase tudo, ou com a excessiva serenidade com que levava minha vida – a “fuça bovina”, expressão que ela usava quando realmente queria me humilhar –, na tarde em questão ela se mostrou muito empenhada em comprovar suas teorias. Muito, mesmo. E de fato, após lançar um certo arranjo de palavras – não tão letal quanto o de pouco tempo atrás, mas certamente organizado com estudo e cuidado –, senti-me tomado por um ardor súbito, violentíssimo. Tremendo, saí correndo pela casa – da família dela, era lá que estávamos, porém sozinhos – para aplacar o ímpeto, para me acalmar. Precisava de movimento, muito movimento, e abri algumas gavetas por onde fui passando, também batendo portas. Vi a arma e a embolsei no ato, sem jamais me separar dela desde então. Diante de tal confissão, pergunto novamente: é minha toda a culpa?


Percebo que não falei sobre a natureza do nosso relacionamento. Namoro, affair, paixão avassaladora... importa? Do meu ponto de vista, não. O único fato relevante a este respeito era essa maldita química que se estabeleceu entre nós – ou entre nós dois e minha criatura –, e que nos obrigava a uma proximidade na maior parte do tempo torturante. Era uma relação doentia até a medula, acho que não deve ser difícil de intuir isso. Ela, na condição de uma fêmea faminta, sempre me estimulando até que eu me tornasse capaz de saciá-la; e eu, inebriado com a possibilidade de fazê-lo.


Porém, preenchíamos o tempo entre estes momentos capitais com muito tédio e descompasso, combinação que logo transformou-se em raiva mútua. A dissonância intelectual entre nós era de tal sorte que eu já chegara a aventar, silenciosamente, algumas formas de causar muita dor a ela. Tudo, de alguma forma, me irritava: a estupidez do gosto estético, a baixíssima autonomia de voo das reflexões filosóficas, a miopia na visão de mundo. Mas mantinha tais percepções para mim, refugiando-me na suposta fortaleza de tranquilidade que por tantas vezes a irritava.


Diante de tudo isso, reflito agora, não faço ideia de como nenhum de nós suspeitou de que um tal movimento – apresentar-me à família dela – poderia ser catastrófico. De onde veio esse disparate? Não serei injusto a ponto de dizer que foi deste presuntão aqui aos meus pés. Talvez até tenha sido, mas o mais provável é que, durante alguma noitada defumada em vapores alcoólicos, entre uma violenta estocada e outra, tenhamos nos comprometido com uma trégua mais duradoura – e isso envolveria conhecermos a família um do outro.


De modo que chegamos à fatídica tarde da qual vos falo. Bem, ainda não há nenhum sinal de que a lei e a ordem estejam se aproximando; então, à guisa de passatempo, e aproveitando que a memória está muito mais fresca do que este ambiente empesteado, vou relatar o que aconteceu. Sempre contando com seu bom senso ao julgar, claro.

Com a exceção do fato de eu ter levado uma pistola para um almoço de domingo, de início até que tudo corria dentro de parâmetros ordinários. Um dia tedioso como tantos outros, em que parentes almoçam juntos e depois inventam algum programa cretino qualquer para empreender juntos, como se a culpa pela separação em todos os outros momentos os obrigasse a tal. E eu lá no meio, o elemento estranho.


Mas a verdade é que já me arrependi da ideia no exato momento em que cruzei o umbral da porta de entrada. Pois foi quando notei as flechas lançadas pelo pai em minha direção por cima do jornal, do sofá ao fundo. Era evidente que eu não sentia qualquer vontade de apaziguar essa beligerância; não tinha o apreço necessário pela sua filha para tanto.

Ela estava “no quarto, se arrumando,” ele comunicou friamente. Isto já me deixou bastante irritado. Ainda que conhecesse seu descompromisso com horários, entendi aquele desleixo como uma tremenda provocação, um “se vira aí sozinho”. Mas não demonstrei tal entendimento. Ainda não. E o arrependimento só cresceu diante do olhar desconfiado da mãe, que espichou a cabeça para fora da cozinha batendo sei lá o quê em uma vasilha; um olhar desconfiado acompanhado por um “Oi” reticente e formal. Sou leitor atento de entrelinhas, e captei o desprezo que aquelas expressavam, provavelmente porque minha então garota relatava todas as nossas tremendas rusgas para ela.


Então saí a esmo pela casa, sem convites ou acenos de aproximação, e cruzei com o jovem irmão a jogar videogame em um pequeno quarto. Recebido por um muxoxo e sem que ele sequer tirasse os olhos da tela, aportei por ali, no sofá. Acompanhei o moleque surrar idosas e roubar carros até que ela emoldurou-se na porta.


Não estava feia, de modo algum. Aliás, nunca o fora. Houve tempo em que, arrebatado por egotrips de bolso, eu gostava de contemplá-la a distância, como o proprietário de um carro novo que vai à garagem de madrugada só para admirá-lo. E ali surgia o possante, formidável de fato. Porém, o estrago já estava feito. Nem o aroma de seu perfume atenuou meu azedume. Eu certamente não o escondia, pois o sorriso evadiu-se do rosto maquiado em um segundo. Notei também a apreensão no seu olhar, mas que logo deu lugar ao arrependimento e, enfim, à obstinação. Sim, eu também tinha meus truques de leitura. Ela jamais recuaria, via-o bem; possuía um gênio temperado demais para isso. Levaria aquela loucura até o final, custasse o que custasse.


O embate começou ali mesmo, sob a azáfama de tiros, gritinhos e motores acelerando vindos da tela. Não me lembro exatamente do diálogo, mas fora tudo, menos carinhoso. Sei que logo ela me deslocou para o sofá da sala, acompanhado pelo olhar venenoso do pai sob o caderno de esportes. Ali trocamos palavras frívolas, as mais idiotas possíveis; eu permanecia impassível, certo de que apenas ela conhecia o teor malévolo dos meus pensamentos.


Engano-me; talvez ainda não fossem malévolos. Talvez, quando a mãe gritou da cozinha que a refeição estava servida, eu continuasse a sentir apenas arrependimento. Mas, mesmo assim, ela o sabia. Como disse, conseguia me ler como a um gibi infantil, a jararaca, e tenho certeza de que tal consciência engatilhou a minha raiva.


Bem, é claro que me lembro dos diálogos a partir daí. Pudera, isso foi há pouco menos de duas horas. Sempre em minha defesa, transcrevo, ipsis litteris, a trágica pantomima, que assim se deu:


“Não quer bife?”, perguntou a mãe, surpresa, diante da minha recusa à carne. O arrependimento começava a ceder diante da fúria crescente.


“Ele não come fritura, mãe”, respondeu minha querida, sem olhar diretamente para mim. Era uma generalização, claro, eu ingeriria o que quer que fosse para não cometer desfeita. Só não tinha apetite, e seria pior aceitar e deixar a carne intocada no prato. Mas balancei a cabeça e procurei sorrir, servindo-me de purê e salada. Sentia o ar denso, hostil. Poderia perfurá-lo com o garfo com que espetava folhas de alface.


“Estranho um jovem não comer bife.” O pai, que ainda lia o jornal, não tirou os olhos dele ao dizê-lo.


“Ele não come fritura, pai. Bife até come, mas tem que ser de um jeitinho especial.”

Alcancei o sorrisinho cínico dela que se seguiu à afirmação, ao mesmo tempo em que o pai grunhiu. Senti o sangue nas minhas veias a caminho da fervura.


“Desculpa, gente. É que não tô com muita fome, mas parece delicios...”


“Dá o dele pra mim, mãe.” O moleque atalhou antes que eu terminasse a frase, atravessando a mesa e quase derrubando os tomates que eu transportava para o meu prato.


“Calma, Júnior, tem pra todo mundo. Guaraná?”


Minha doce arqueóloga respondeu por mim:

“Ele não toma também, mãe.”


Daquela vez, a bufada do pai foi eloquente. Ele pegou a garrafa, encheu até a borda o copo que um dia fora de requeijão e ingeriu o líquido em dois ou três goles. Aguardei por um arroto bem no meio do meu rosto, que felizmente não veio. Mas eu já ouvia fazia algum tempo aquela nota agudíssima do sangue forçando a passagem pelas veias; imagino que seja o preâmbulo sonoro para o gran concerto de um derrame.


“Eu evito, na verdade...”


“Eu, não. Passa aqui.” O garoto tomou um novo atalho até a garrafa.


“Filha, você poderia ter me falado, eu compraria um suco, um chá, ou...”, ela se dirigiu a mim pela primeira vez, “...o que você bebe?”


Mas novamente não pude me pronunciar; minha ama o fez por mim.


“Desculpa, mãe. Esqueci de te avisar dessas... frescuras dele.” Ela falava sem jamais me olhar. O zunido nos ouvidos já quase me impedia de ouvir. Mas a frase seguinte ainda escutei bem:

“Talvez, se você tivesse se esforçado um pouquinho mais, a comida teria ficado à altura do gosto refinado dele.”


Minha risada nervosa se sobrepôs à deles. Isso deve tê-la assustado um pouco, pois o que disse a seguir tinha tom de trégua.


“Brincadeira, eu sei que você come de tudo,...” E tudo estaria bem não fosse a piscadela condescendente que se seguiu ao “...né?”


Então o estrago fora feito. Antecipando-se aos atos, minha língua se desfez das rédeas.

“Como de tudo, tudo mesmo. Até o lixo humano com a buceta mais fedida que consigo encontrar.”


Bem, a partir daí, foi aquela selvageria. O pai esmurrou a mesa, derrubando tudo, coisa e tal. Mas não havia volta. Depois de chamados tão insistentes, a besta veio e fez o que se esperava dela – até mais, suspeito. A chacina foi muito rápida, na verdade. O primeiro que atacou – perdão, insisto na falácia; o primeiro que ataquei foi o pai; na verdade, revidei, pois ele veio para cima de mim todo desengonçado.


Sob os gritos da mãe, logo mostrei a ele a imensa diferença que não tomar guaraná faz no combate físico. Subjuguei-o e, impressionado com a rapidez do meu raciocínio, liguei o triturador Walita na pia, onde a mulher despedaçara as batatas para o purê; lá enfiei com tudo aquele rosto bolachudo. Incrível como minha mão na nuca dele desceu rapidamente; por pouco não triturei meus próprios dedos.


Depois, o moleque – que, acompanhando os berros da irmã, quase convulsionava com choro: voei direto em seu pescoço, derrubando-o de bruços e torcendo-lhe cabeça até que contemplasse, já sem vida, a escarrada que lhe lancei dentro da boca esganiçada.

Diante de tudo isso, a mãe emudecera, catatônica, e sequer reagiu ao violento murro que lhe apliquei no queixo. Mas minha querida continuava a gritar, e esbofeteei-a também. Revirando as gavetas, logo encontrei um rolo de silver tape com a qual a prendi seus braços aos pés do imenso armário de louças; serviria para o momento.


Então, cuidando para que ela não perdesse nenhum detalhe sequer do espetáculo que conjurara, lacerei com o martelo o resto da cabeça do pai, que ainda estrebuchava, e, com cinco ou seis golpes em cada pé da mãe, virei-os ao contrário, conforme prometido pouco acima em meu relato. A mulher despertou ganindo com a primeira martelada, e tive que tapar-lhe a boca com a fita adesiva. Logo enterrei o martelo no tórax, revirando-o, e o trabalho estava finalizado. Então, dirigi-me à co-autora.


E é claro que guardei algumas surpresas para o final. Não seria justo privar alguém que seguiu este desatino até aqui de uma singela regalia, a título de agradecimento pela preciosa atenção. A ideia me veio, novamente, quase que instantânea. Embora o zunido nos ouvidos fosse ensurdecedor, eu tinha os pensamentos cristalinos – e todos brutais, é evidente. Tão cristalinos que, ao perceber a protuberância nas calças do pai inclinado na pia, liguei os pontos imediatamente. Ei-lo, rigor mortis, em posição de sentido, batendo continência lá do além!


Desatei minha doçura e, cutucando-lhe a têmpora com o cano da pistola, forcei-a a abrir a braguilha do velho. Claro que ela resistiu e fui obrigado a bater com mais força, para que deixasse logo de frescura e concedesse uma última indulgência ao membro que a gerara. Era tudo o que eu pedia, que ela aplicasse nele aquele boquete com que tão generosamente gratificava-me – veja só, desta vez não usei a terceira pessoa! Tive que bater mais e mais para que ela enfim embocasse o falo duro e sem vida, e bater outra vez para que gemesse. Observei aquilo por alguns minutos, mas logo a arranquei dali, deitei-a no chão e, sem qualquer preâmbulo, abri-lhe o olho mágico na testa.


Devo confessar, agora que já ouço as sirenes bem ao longe, aproximando-se com o desespero cardíaco de costume, que aquilo não me excitou. De modo algum. No caso, era apenas o filete de razão que me ligava à condição humana sendo inundado por emulsões desconhecidas, de outra natureza. Aqui sentado, observando estes corpos já fedendo e avaliando o ocorrido, percebo a abundância de fúria e ódio nestas emulsões, mas há algo mais que ainda não consigo distinguir...


Bem, as viaturas estacionaram aí na frente e a porta logo vai se abrir com um estrondo. Acho que terei muito, muito tempo para refletir sobre isso.

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