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  • Oscar Nestarez

Como o horror na literatura pode ser benéfico para as crianças


Livro Bruxa, bruxa venha à minha festa (2002), Editora Brinque-Book (Foto: Reprodução)

Lembro-me como se fosse hoje. Eu tinha por volta de 6 anos e passava férias na casa de meu avô paterno em Sarapuí, minúscula cidade no oeste do estado de São Paulo. Acompanhavam-me primos e primas de idade próxima à minha. Certa noite, por recomendação de minha mãe e uma tia, resolvemos fazer a “brincadeira do copo”, versão improvisada da tábua de Ouija. Escrevemos as letras do alfabeto e as palavras “sim” e “não” em uma folha de papel, recortamos tudo, espalhamos por uma mesa redonda e colocamos um copo no centro, virado para baixo. A seguir, posicionamos os dedos indicadores sobre ele e fizemos uma oração silenciosa. Minha mãe, então, disparou: “tem alguém aí?” O copo saltou rumo ao “sim” — e meu coração foi junto.


Naquele momento, percebi que não tinha sido só medo que me sobressaltou, mas também o fascínio, seguido da empolgação. O que estava acontecendo ali? O que havia naquele vazio do copo? Como era capaz de se movimentar? Quem ou o quê tentava se comunicar com a gente? Minha imaginação estava a milhão, e as possibilidades que surgiam ora me assustavam, ora me divertiam. As outras crianças se dividiram: algumas choraram e abandonaram a brincadeira, outras também se mostraram empolgadas. Mas nenhuma passou ilesa.


De minha parte, posso garantir que foi uma experiência transformadora. Um divisor de águas, por assim dizer. Os arrepios causados por essa e outras experiências (minha mãe era uma “pregadora de sustos” profissional) se tornaram uma obsessão para mim. Com o passar do tempo, fui buscá-los em outras fontes. Encontrei-os no cinema, é claro, mas achei-os sobretudo na literatura de horror; é onde minha imaginação dispara e se exercita com mais liberdade. E não exagero ao falar em obsessão: hoje, minha vida profissional se organiza em torno do horror, seja escrevendo, pesquisando ou traduzindo.


Sem medo de causar medo


Fiz essa introdução porque, afinal, estamos no mês que celebra tanto as crianças quanto as histórias assustadoras. Assim sendo, não há momento mais apropriado para defender que a criançada tem o direito de ser assustada. Claro que não me refiro aos jump scares gratuitos, típicos de filmes em que o monstro aparece na janela e a música sobe de repente. Longe de mim convencer você a vestir uma máscara diabólica e se esconder embaixo da cama do seu filho. Não, não. O que defendo, aqui, são narrativas que conduzam a imaginação infantil para o riquíssimo território dos assombros ficcionais.


Em outras palavras, não devemos ter medo de causar medo nas crianças. É evidente que as estratégias para isso são muito diferentes daquelas que estão em livros de horror para jovens ou adultos, em todos os níveis; há inúmeros temas e procedimentos que só dizem respeito a esses públicos (como os próprios jump scares). No entanto, é comum que pais se arrepiem — e não do jeito legal — ao ouvirem falar de histórias que possam assustar seus filhos. Não querem nem saber. O que é compreensível, pois ninguém quer passar a noite em claro acalmando uma criança amedrontada (ou parte do dia lavando lençol molhado).


Estou convencido de que crianças adoram sentir o que chamamos de medo seguro. Embora eu não tenha filhos, trabalhei por anos como monitor em uma brinquedoteca, e com frequência vou a escolas para conversar com estudantes do ensino fundamental. Nunca me escapa o brilho em seus olhos quando falo sobre o frisson do horror. E por medo seguro, ou medo estético, refiro-me ao sentimento deflagrado por uma obra de ficção; é o medo resultante de uma ameaça que, no fundo, sabemos não ser real.


Experiência maravilhosa


Aliás, eis o risco: às vezes a criança pode acreditar de verdade no que está lendo ou vendo, e por isso se sentir em perigo. Aí, sim, o medo se torna paralisante, nocivo. Um filme de horror, por exemplo, pode ser convincente demais, explícito e assustador demais. Já a leitura de um livro pensado com cuidado para a criança, que coloque a cabeça dela para funcionar e cause arrepios por meio de uma linguagem específica, lúdica, pode ser uma experiência maravilhosa.

Entre os vários benefícios desse contato inicial com histórias assustadoras, destaco alguns. A criança aprende a conviver melhor, desde cedo, com o sentimento demasiadamente humano que é o medo. E conhecer nossos medos significa conhecer uma parte fundamental de nós mesmos.


Além disso, a ficção de horror oferece possibilidades para abordarmos temas complexos, como o desenvolvimento do corpo, o convívio com as diferenças e até mesmo a morte. Sem contar o estímulo à imaginação, fundamental em qualquer período da vida.

Recomendações de leituras sinistrinhas

O livro Bruxa, bruxa, venha à minha festa é um ótimo exemplo de tudo isso. Escrito por Arden Druce e ilustrado por Pat Ludlow, tem imagens que assombram e encantam na mesma medida: são muitos os monstrengos e animais estranhos apresentados bem de pertinho, em primeiríssimo plano, com grotesca riqueza de detalhes.


A narrativa é simples, elaborada em forma de repetição cumulativa: a bruxa recebe um convite para ir a uma festa e diz que topa, desde que o gato também seja convidado. O gato topa, desde que o espantalho também vá, que condiciona sua ida à da coruja, e assim por diante. É um formato perfeito para a leitura interativa, em que você e a criançada intercalam as falas. Ou seja, a experiência do medo no ambiente mais seguro que existe.


Outro exemplo de que gosto muito é Tenho medo, escrito e ilustrado por Ivar da Coll. Trata-se de mais um livro de monstros — e há muitos aqui, para todos os gostos. No entanto, a obra brinca com as expectativas das crianças, porque elas descobrem que aquilo que temem também sente medo. Ou seja, as criaturas bizarras, tão bem ilustradas pelo autor, são igualmente frágeis. A reviravolta ajuda a criança a relativizar seus próprios medos, além de despertar a consciência para certas complexidades do mundo.


Gatos e folclore brasileiro


Já o livro Milhões de gatos, um clássico escrito e ilustrado pela norte-americana Wanda Gág lançado em 1928, é um exemplo de história que escapa do vocabulário do horror, mas que ainda assim causa estranhos calafrios. O enredo é simples: um casal idoso sofre de solidão e decide que a companhia de um gatinho resolveria a questão. Assim, a mulher pede ao marido que saia para encontrar um lindo bichano para eles. Só que, em sua busca, o homem se depara com inúmeros gatos e não consegue se decidir sobre qual levar para casa.


O assombro, aqui, é causado pela completa extrapolação de possibilidades. Pois o casal teria centenas, depois milhares, milhões, bilhões, trilhões de gatos: a imaginação infantil é o limite. Ao final, temos a alusão a uma catástrofe felina, mas vou me conter para não dar spoiler. Só direi que a narrativa também tem o formato da repetição cumulativa, o que ajuda muito a engajar pequenos leitores.


Por fim, trago uma sugestão de obra nacional para crianças que já são leitoras mais independentes: A loira do banheiro e outras assombrações do folclore brasileiro, escrita por Januária Cristina Alves e ilustrada por Berje. O texto é inventivo e certeiro no suspense e no suave horror, ao mesmo tempo em que trata de lendas bem particulares nossas. É uma homenagem ao riquíssimo imaginário brasileiro, rural ou urbano, porque, além da macabra moça que aparece nos espelhos de banheiros de escolas, o livro traz histórias com outros monstros, como o lobisomem e a mula sem cabeça. As ilustrações expandem a dimensão da narrativa, com traços e cores que lembram a linguagem das gravuras de cordel. Aliás, Alves e Berje também respondem pelo ótimo Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro, um abrangente catálogo de nossas entidades.


Infelizmente, não conheci nenhum desses livros quando era menino. A maioria sequer existia. No entanto, depois de adulto, tive oportunidade de ler alguns deles para crianças, e sempre foi uma experiência enriquecedora. Em certas viradas de páginas, não me escapavam os olhos arregalados, o ranger agudo do ar engolido, os arrepios nos braços. Até porque eu mesmo senti tudo isso diante do misterioso movimento de um copo, décadas atrás.


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