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"Bagdá noir": capital do Iraque inspira antologia recém-lançada no Brasil


'Bagdá noir': capital do Iraque inspira antologia recém-lançada no Brasil. Divulgação/Editora Tabla

Um dos aspectos fundamentais das histórias assustadoras é o locus horribilis. O lugar horrível que, por algum motivo, interfere na trajetória de personagens, muitas vezes as conduzindo para a ruína. Nesse lugar se manifestam as ameaças – fantasmas, monstruosidades ou quais forem – que compõem o coração de uma narrativa gótica, e muitas vezes de horror.

No passado, eram os castelos assombrados, os monastérios, as ruínas medievais; com o passar do tempo e as transformações sociais do mundo ocidental, transferiram-se para as casas e para os espaços de confinamento urbano modernos. Mas e se toda uma cidade for considerada locus horribilis? De certa forma, a isso se propõe uma série de antologias de contos criada pela editora norte-americana Akashic Books. Intitulada Série Noir, a coleção tem 121 obras reunindo histórias que se passam em cidades de todo o mundo, sempre tendo os parâmetros e as temáticas do gênero noir como esteio. Com a bem-vinda proposta de promover uma “gentrificação reversa do mundo literário”, a Akashic colocou em seu mapa cidades que pouco vemos em nossas incursões literárias, como as africanas Nairobi noir e Accra noir ou a europeia Zagreb noir. O Brasil comparece com São Paulo noir e Rio noir, ambas organizadas pelo escritor e músico Tony Bellotto. Antes que me acusem de misturar alhos com bugalhos ao falar de gótico, horror e noir no mesmo texto, justifico-me: um ponto em comum dos três gêneros pode ser a atmosfera corrupta, o espaço violento e ameaçador – locus horribilis, portanto.

O noir, como subgênero literário e cinematográfico das narrativas detetivescas (também chamadas de ficção de crime), tem no ambiente urbano opressor um determinante. Um exemplo é o clássico O falcão maltês (1930), romance de Dashiell Hammett que foi adaptado para o cinema por John Huston como Relíquia macabra (1941). A cidade de São Francisco em que atua o detetive Sam Spade é cheia de sombras e contrastes, e a impressão de decadência é generalizada – tanto de pessoas como de instituições.

É evidente que, no noir em geral, as ameaças originadas pela espacialidade são mais tênues do que em narrativas de horror. Temos protagonistas de moral duvidosa fazendo justiça com as próprias mãos porque a polícia é inepta, governo é corrupto e há poderes paralelos ditando as regras. Porém, no noir não há ameaças sobrenaturais, como em muitas histórias góticas e de horror. Os perigos são essencialmente humanos. Uma cidade sempre sob tensão No entanto, há cidades em que esses perigos parecem transcender qualquer dimensão sobrenatural. É o caso de Bagdá, cuja antologia Bagdá noir acaba de ser publicada no Brasil pela editora Tabla, com organização de Samuel Shimon e tradução de Jemima Alves. A capital do Iraque é conhecida por sua história tão tumultuada quanto trágica. Na década de 1980, já sob o comando de Saddam Hussein, compôs o palco da guerra do país contra o Irã. A partir dos anos 1990, veio a Guerra do Golfo, contra uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, na esteira da invasão do Iraque ao Kuwait.

E em abril de 2003, a invasão estadunidense que, nas palavras de Shimon, “aniquilou, de uma vez por todas, qualquer possibilidade de um Iraque secular e moderno”, pois abriu espaço para milícias sectárias. É o caso do Estado Islâmico, ou Daesh (ou “Daich”, conforme a grafia em Bagdá noir), termo que tem sido usado como uma forma de desafiar a legitimidade do grupo devido às conotações negativas da palavra.

A Bagdá das guerras transmitidas pela TV costuma ser a cidade que figura no imaginário ocidental: céu noturno varado por mísseis e explosões na paisagem desértica. No entanto, há outra Bagdá que a precede, de história riquíssima, fundada no século 8 e por muito tempo chamada de “cidade da paz”.

Situada no chamado berço da civilização, às margens do rio Tigre, por séculos foi ponto de encontro da cultura, do comércio e do ensino árabes. Uma opulência que perdurou no século 20, até meados da década de 1970, pouco antes de Saddam Hussein e o partido Baath tomarem o poder. Um conto de horror iraquiano Os contos de Bagdá noir tangenciam esse passado glorioso, mas as décadas recentes têm sido horribilis. Para compreendermos de que forma espaço e ficção literária se enredam, aqui vou me deter em um conto específico, a primeira narrativa de horror iraquiana que li: Registro do juízo final, de Nassif Falak. A estrutura da história, composta por uma espionagem, já favorece o mistério inerente ao noir. Um narrador não nomeado acompanha o irmão, Abdallah, pelas ruas de Bagdá, em atividades suspeitas. De início, Abdallah aparentemente rouba coisas da própria casa da família – onde mora com o narrador, a esposa deste e os pais, em uma típica configuração domiciliar iraquiana.

Depois, o narrador testemunha o que parece ser um assassinato em uma alfaiataria. Sempre seguindo o irmão, acaba desvendando um comércio de velharias de fachada comandado por uma figura sinistra, o “ruivo”. À medida que o narrador faz outras descobertas, o conto desliza para o horror. A atmosfera se torna cada vez mais pesada. Os assassinatos se multiplicam, e um, em especial, é marcante: um bebê crucificado no próprio berço, com a chupeta na boca (lá colocada depois que a criança foi morta).

O desfecho do conto envolve um livro “maldito” – à moda de clássicos do gênero, como o Necronomicon, de H.P. Lovecraft, ou O rei de amarelo, de Robert W. Chambers. Por trás de tudo o que ocorre, está o fundamentalismo, ou “essa doença pestilenta que é a perversão religiosa”, nas palavras de Falak. Amor criminoso Na essência, a Bagdá pós-2003 de Registro do juízo final é um locus horribilis mais ameaçador do que em outros contos da antologia. É um território entregue à disputa de milícias, no qual irmãos roubam irmãos e parentes matam parentes. “É o espaço da contingência, da desconfiança até mesmo de quem é mais próximo a nós”, afirma a tradutora e pesquisadora Jemima Alves à coluna.

Alves está concluindo um doutorado em literatura iraquiana na Universidade de São Paulo (USP) e enxerga, na escrita desse e de outros contos, uma pergunta crucial: por que seguir vivendo em um “pedaço do inferno”? Por amor, respondem ela e alguns personagens de Bagdá noir. No entanto, esse amor por vezes se converte no fanatismo que resulta em crimes bárbaros. Mas o amor também pode ser expresso em passagens marcadas por lirismo, espremidas entre um horror e outro, como quando o narrador de Registro do juízo final observa, certa manhã: “a essa hora, a maioria das pessoas está preparando o café da manhã. Era possível ouvir o tilintar de talheres misturando o chá nas istikanas – como sinos ressoando em uma infância distante”.

Em Bagdá, estão mesmo distantes os tempos de paz e inocência. Mas nós, graças ao talento de Nassif Falak e de outros ficcionistas que compõem Bagdá noir, nos vemos bem próximos de uma cidade que, apesar de todos os horrores – reais ou ficcionais –, teima em resistir.

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