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As 4 melhores leituras que fiz no semestre

  • Foto do escritor: Oscar Nestarez
    Oscar Nestarez
  • 11 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

A Gigante, obra de 1947 de Leonora Carrington — Foto: Reprodução/Acervo Leonora Carrington
A Gigante, obra de 1947 de Leonora Carrington — Foto: Reprodução/Acervo Leonora Carrington

Já cruzamos a metade de 2025, que vem sendo, pelo menos por aqui, um ano de ótimas leituras. Entre lançamentos e obras mais antigas, entre leituras de trabalho e recreativas, minha cabeça e minha cabeceira vêm sendo bem frequentadas. Tem quem diga que, em tempos de crise mais generalizada, a arte no geral sobe de nível. O mundo vem saltando de crise em crise já faz um tempo, mas minha impressão é que, de uns meses para cá, se intensificou o influxo de obras que respondem a esse cenário com mais densidade estética. Eu não seria capaz de discorrer com segurança sobre outras linguagens. Agora, quanto à literatura, é notável a quantidade de novos títulos interessantes, sejam de autoras e autores consagrados, sejam de estreantes.


Considerando esse contexto, separei os quatro livros que mais me agradaram nesses primeiros seis meses do ano. Deixando de lado gêneros como não ficção, biografias ou outras vertentes, aqui focalizei obras “não miméticas”, isto é, que de alguma forma recusam a representação tradicional, objetiva da realidade. São histórias que fazem isso por métodos diferentes, seja confrontando a realidade com o impossível, imaginando mundos mágicos regidos por leis diferentes ou especulando intensamente a partir de avanços científicos. Títulos de literatura fantástica, fantasia, ficção científica e horror — ou, se você preferir, obras não realistas. Vamos a elas:


A corneta, de Leonora Carrington


Eis um romance relativamente pouco lido, mas imperdível. Publicado em 1974, A corneta, da pintora e escritora britânica radicada no México Leonora Carrington (1917 - 2011), é uma joia da literatura não mimética. Pode ser enquadrada no grande campo do fantástico, embora também seja a epítome de um surrealismo tardio — movimento ao qual Carrington, inclusive, acabou se vinculando como pintora. Tanto na obra pictórica quanto na literária, Carrington apaga qualquer limite rígido entre ideias e imagens, que se encadeiam como se pertencessem umas às outras, como se fossem uma coisa só — à maneira de quimeras e outras entidades que surgem em seus quadros.


Neste romance, a ausência de limites marca tanto a estrutura quanto o enredo. A corneta é, a um só tempo, uma narrativa cômica, policial, dramática, mitológica e por vezes assustadora. Quanto ao enredo, a história narrada pela protagonista Marian Leatherby é de uma liberdade imaginativa sem precedentes. Quase surda e sem nenhum dente na boca, ela mora com o filho, a nora e um neto, e passa os dias alienada do mundo ao redor.

Até que é internada em um asilo, na verdade um complexo com chalés em forma de bota, cogumelos, vagões ferroviários, iglus e até uma múmia egípcia. Há apenas mulheres idosas por lá, e o lugar é comandado por um casal tirânico. Uma das muitas façanhas de Carrington é dar protagonismo a um grupo duplamente marginalizado; mulheres idosas. Carmella, a amiga de Marian, é a estrela mais cintilante dessa constelação. É ela quem, com uma imaginação poderosa, elabora planos conspiratórios, e será ela quem viabilizará a revolução final do grupo, nesta inesquecível declaração de amor à imaginação.


Mickey 7, de Edward Ashton


Imagine a seguinte situação: avanços tecnológicos permitem que sua consciência, suas memórias e tudo o que define a sua identidade sejam transferidos a um outro corpo. Esta nova pessoa seria você? Ou seria alguém diferente se passando por você, vivendo sua vida? No processo de transmissão de dados de um corpo para outro, o seu eu iria junto? Ou a transmissão para um novo corpo implicaria a morte do corpo anterior?


Este é o chamado paradoxo do teletransporte, que é a base do romance de ficção científica Mickey7, do estadunidense Edward Ashton, publicado no Brasil em 2023. O livro foi adaptado para o cinema por Bong Joon-ho (Parasita, Okja) no longa Mickey 17, com Robert Pattinson encabeçando o elenco. A história se passa cerca de mil anos no futuro, na missão colonizadora de um planeta gelado e hostil chamado Niflheim. É narrada por Mickey Barnes, um homem cujo trabalho é, literalmente, morrer: seu cargo na colônia é o de prescindível, alguém recrutado para tarefas perigosas e muitas vezes letais. Depois de morrer em serviço, Mickey é “reciclado”. De uma forma nada glamurosa, é imortal.


O número 7 indica que Mickey havia falecido seis vezes, e já no início do romance está prestes a perecer novamente. Acontece que, no momento culminante, ele não morre. Consegue escapar. Ao voltar à base no dia seguinte e entrar em seu quarto, depara-se com Mickey 8, sua nova instanciação, dormindo tranquilamente em sua cama. Assim se estabelece o conflito central do romance de Ashton, que se desenvolve em duas dimensões: dentro do espaço psicológico do próprio narrador e protagonista, confrontado com a materialização do paradoxo do teletransporte; e na colônia de Niflheim, onde a duplicação de prescindíveis é proibida.


É um enredo e tanto, que se desenvolve por meio de uma prosa envolvente, marcada por investidas certeiras no humor e na ironia. Imaginando o futuro enquanto remete ao passado, Ashton e seu Mickey7 cumprem a vocação da ficção científica de qualidade, que é usar a especulação tecnológica para perscrutar, de maneira ao mesmo tempo aprofundada e minuciosa, nossos dilemas atemporais.


O céu da selva, de Elaine Vilar Madruga


A emergência climática tem sido motivo recorrente na ficção literária. Tanto que vem ganhando dimensão cada vez maior o termo ecocrítica, ou seja, o campo de estudos das relações culturais e artísticas entre seres humanos e o mundo não humano (animais, plantas, minerais, climas, ecossistemas). E a partir dele surge o chamado eco-horror, com histórias assustadoras nas quais a natureza se vinga, se torna monstruosa. A humanidade é, ao mesmo tempo, vilã e vítima. Décadas e décadas de abuso do planeta cobram seu preço, e as consequências são aterradoras.


Um dos exemplos mais interessantes do que já se pode considerar um subgênero do horror é o romance O céu da selva, da cubana Elaine Vilar Madruga, publicado em 2025 por aqui. A princípio, a ideia de Madruga é tão simples quanto brutal: chegou a hora de a natureza nos consumir. Nos comer, de fato. Pior ainda, de comer a carne tenra das crianças, já que a ela não agrada a carne envelhecida e endurecida dos adultos. Assim, devoradora, é a selva vizinha à fazenda onde se passa a história. Nela vive uma família disfuncional composta pela “velha”, suas filhas Santa e Ananda, e as “crias”, crianças paridas por Santa cuja única função é alimentar a selva. Em troca, o matagal oferece animais, frutas e outros víveres. Mas nada de abundância: apenas o mínimo para manter as personagens vivas, sempre à beira da inanição. Há ainda um personagem secundário, Lázaro, companheiro de Santa, pai de algumas crias e responsável por matá-las para que sejam devoradas.


Este pequeno universo ficcional nos é apresentado no formato polifônico, isto é, cada capítulo traz o ponto de vista de uma personagem. A voz narrativa também se desloca: ora temos a primeira pessoa, no caso da velha e de Santa, ora a segunda, no caso de Ananda (que se desumanizou e transformou em uma cachorra), ora a primeira do plural, no caso das crianças, de narração “coletiva”. Desse jogral emerge um ambiente áspero, no qual reina a animosidade entre as personagens, sempre ameaçadas pela manifestação aterradora da selva, que se torna vermelha para indicar sua vontade de comer. Codificada pela violência e pelo grotesco, a história não só incorpora o medo contemporâneo de que talvez já tenhamos ido longe demais, como problematiza o que costumamos chamar de maternidade monstruosa. O céu da selva, assim, reafirma a vocação do horror para narrar mais a fundo a vida nos perturbadores tempos atuais.


Como nascem os fantasmas, de Verena Cavalcante


Já o romance de estreia da paulista Verena Cavalcante confirma o bom momento da ficção de horror brasileira. Publicado pelo selo Suma, da Companhia das Letras, soma-se a outros lançamentos de editoras mainstream, como a coletânea O dia escuro, da própria Companhia. Cavalcante já havia chamado a atenção pela coletânea de contos Inventário de predadores domésticos e, aqui, aprofunda temas abordados no livro anterior — em especial os aspectos sinistros da infância e da adolescência.


Como nascem os fantasmas é narrado por Beatriz, uma menina de dez ou onze anos de uma cidade do interior que intuímos ser do estado de São Paulo. Ela vive com a avó e o avô, ex-policial entrevado numa cama. Divina, a avó, é médium; como também é um tipo de heroína da neta, Beatriz fica obcecada por conhecer mais deste trabalho com o além. Quer descobrir como nascem os fantasmas, por assim dizer, em uma história que se revela de formação, de transição à vida adulta. A mãe de Beatriz e filha de Divina, Ângela, já não existe quando a história começa, tendo morrido de causas que conheceremos depois.

Além de se mostrar uma grande criadora de imagens horroríficas, Cavalcante revela uma fixação que beira o fetiche por detalhes sórdidos. Nas cenas culminantes de diferentes seções do livro — aquelas passagens que situam uma obra bem no âmago do gênero de horror —, nada escapa aos olhos da autora, que nos oferece um banquete de vermes, putrefação, chagas purulentas, olhos vazados, vísceras e muito mais.


Não se trata só de imaginar o horror objetivo, que acomete o corpo e a matéria: Cavalcante também é hábil ao explorar a perspectiva subjetiva, psicológica, que a tudo deforma e em certo ponto da história nos lança no bosque das dúvidas. É quando Beatriz realiza um ritual para “abrir as portas” para os fantasmas; está ao lado de Lipe, amigo e eventual par amoroso. Guiados pelas anotações feitas pelo avô, que era uma espécie de auxiliar da avó nas cerimônias mediúnicas, Beatriz e Lipe ingerem chá de trombeta-de-anjo, entre outras coisas. Atravessam o véu e veem as coisas como realmente são — neste caso, macabras. É o ponto alto do romance. Um longo clímax bem manuseado, conduzindo a um desfecho arrojado e, para encanto deste colunista, nada feliz.

 
 
 

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