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  • Oscar Nestarez

Antologia de contos brasileiros celebra universalidade de Stephen King


Antologia Dark, da editora DarkSide, reúne contos de autores brasileiros sobre o legado de Stephen King (Foto: Divulgação)

"Antologia Dark", publicada pela editora DarkSide, reúne 14 contos de autoras e autores nacionais inspirados no legado do mestre do horror


Goste-se ou não de Stephen King, não se pode negar que o homem seja uma máquina. A poucos meses de completar 73 anos, estima-se que o maior autor de horror da atualidade tenha escrito 61 romances — sete deles sob o pseudônimo de Richard Bachman —, além de cerca de 200 contos e cinco livros de não ficção, incluindo o consagrado Sobre a escrita.

No Brasil, King é o herói de milhares de leitores e leitoras. Entra ano, sai ano, lá estão os títulos do “homem do Maine”, muito bem ranqueados na lista de mais vendidos. Grande parte desse estrondoso sucesso se deve às adaptações das narrativas literárias para o cinema e para as séries; a lista de filmes baseados ou inspirados no autor é quase tão longa quanto a lista dos livros por ele assinados. De acordo com o Guinness Book, trata-se do escritor vivo com o maior número de adaptações para as telonas. Não é de se estranhar que o apetite dos fãs tenha a mesma dimensão do fôlego de King para criar.


Diante desse cenário, é bem-vinda a Antologia Dark, publicada recentemente pela editora carioca DarkSide Books. Idealizada como uma homenagem ao autor, a obra reúne 14 contos de autoras e autores nacionais inspirados no impressionante legado de Stephen King. Em outras palavras, é uma oportunidade de o maior astro do horror lançar alguma luz sobre a nossa interessante e plural produção atual do gênero.


Talentos da literatura e do cinema


De acordo com o escritor Cesar Bravo, que organizou a antologia e assinou um dos contos, a ideia foi oferecer um panorama do que está sendo produzido e construído dentro do gênero horror no Brasil. “Procuramos mesclar autores pouco conhecidos com outros já consolidados, unir talentos da literatura e do cinema, agregar textos do mainstream com a voz arrebatadora da periferia”, conta Bravo.


Tendo isso em mente, o organizador e a editora convocaram Cláudia Lemes, Vitor Abdala, Ferréz, Carol Chiovatto, Everaldo Rodrigues, Marco de Castro, Ilana Casoy, Fernando Toste, Alexandre Callari, Antonio Tibau, André Pereira, Soraya Abuchaim e Andrea Killmore (personagem fictícia composta pela dupla Ilana Casoy e Raphael Montes). Cada autora e autor escolheu uma história de King para desenvolver seu conto.


E o conjunto de narrativas é, de fato, bastante variado. Enquanto alguns textos da Antologia Dark se mantêm próximos do estilo e da ambiência de King — como é o caso de Creed, escrito por Cláudia Lemes a partir do romance O cemitério, ou de A porta não encontrada, elaborado por Everaldo Rodrigues com inspiração na série A Torre Negra —, outros se apropriam de obras do autor para contar histórias de traços essencialmente brasileiros.


Do Maine para a periferia


É o que se observa Cárem sinistra, de Marco de Castro, que transporta o enredo do primeiro romance publicado de King, Carrie, para a periferia de São Paulo. O mesmo ocorre com Santa Negra, assinado por Ferréz: criado a partir do conto Um aluno inteligente de King (adaptado para o cinema como O aprendiz, de Bryan Singer), o relato expõe a venenosa admiração de um garoto por um homem violento — neste caso, um policial aposentado da ROTA de SP. Também são os casos de A hora da bruxa, conto de Carol Chiovatto baseado no romance Salem que insere uma bruxa em plena ditadura militar, e de O zagueiro, texto de Vitor Abdala inspirado na novela Blockade Billy que propõe uma releitura do caso do goleiro Bruno.


Para Cesar Bravo, esses diálogos se tornaram possíveis graças à universalidade e à atemporalidade do horror realizado por Stephen King. “Fica fácil entender como o horror nos confronta com dilemas humanos e universais. Em Cárem Sinistra, experimentamos o bullying no colégio, a ira e o fanatismo religiosos, mas trocamos o subúrbio americano pela periferia brasileira, o que nos traz experiências notadamente nacionais. Já Santa Negra nos coloca em xeque com nossos valores morais e nosso senso de humanidade”.


De olho na nossa identidade


Quando reflete sobre os meandros do horror no Brasil, Bravo sabe do que fala. Considerado um dos principais nomes do gênero por aqui, publicou Ultra Carnem (2016) e VHS - Verdadeiras Histórias de Sangue (2019), ambos pela DarkSide, e acompanha bem de perto o cenário nacional — que considera muito rico, ainda que em processo de construção. “O nível dos autores está cada vez melhor, e o mesmo ocorre com o interesse das editoras. No momento delicado de isolamento que vivemos devido à Covid-19, muitos olhos se voltaram para dentro, para nossa identidade”.


De acordo com ele, algumas iniciativas têm contribuído para consolidar esse olhar. Prova disso é o Prêmio Machado, que distribuirá, aos trabalhos selecionados, um total de R$ 100 mil. Outro exemplo é a própria Antologia Dark, que já apresenta alguns frutos maduros de uma época na qual, segundo Bravo, várias sementes estão germinando. “Hoje, vejo algo muito diferente do que acontecia dez anos atrás. Que tipo de árvore essas sementes se tornarão, só o tempo dirá. Mas estou empolgado por ter a chance de acompanhar e colaborar de alguma forma para esse crescimento”, conclui o autor.

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