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  • Oscar Nestarez

A construção do horror psicológico na série "Servant", de Tony Basgallop


Série Servant, de Tony Basgallop, aborda o horror psicológico (Foto: Reprodução)

Em certa noite chuvosa na Filadélfia, o jovem casal Turner aguarda a chegada de uma babá para seu filho recém-nascido. Quando a moça surge, os dois apresentam-na à bela casa, onde ela morará a partir de então. Tudo aparentemente normal, com a exceção de que a babá é enigmática, como se portasse um segredo. Mas o segredo quem guarda são os Turner: o bebê é, na verdade, um boneco reborn — aqueles que imitam com perfeição as crianças que acabaram de nascer.


Antes que você amaldiçoe a coluna, informamos que a descrição acima não contém nenhum grande spoiler. Afinal, ela se refere apenas ao primeiro episódio da série Servant, criada pelo britânico Tony Basgallop, produzida por M. Night Shyamalan e transmitida pelo canal de streaming Apple TV+.


Logo no início, ficam claras as bases do horror psicológico que marca a narrativa: o luto e as decisões tomadas na esteira de uma perda. A partir disso se estruturam os dez episódios da primeira temporada — cuja estreia ocorreu em novembro de 2019 — e, pelo menos até agora, os capítulos iniciais da segunda, lançada em 15 de janeiro de 2021.


Freud e o (des)conhecido


Mencionamos o horror psicológico; é assim que a própria série se apresenta na plataforma da Apple. E aqui pretendemos explorar um pouco mais essa categoria, tendo como amparo alguns conceitos da psicanálise. Um texto fundamental para a compreensão mais apurada do horror não apenas em Servant, mas em muitas outras histórias sinistras, é Das unheimlich, de Sigmund Freud.


Publicado pela primeira vez em 1919, o artigo apresenta uma reflexão estética a partir da literatura. Freud se detém em obras “que dizem respeito ao aterrorizante, ao que suscita angústia e horror” para investigar as origens do efeito por ele nomeado como unheimlich. O termo alemão tem etimologia complexa: heimlich significa “doméstico, familiar, pertencente à casa”, mas o prefixo un inverte esses conceitos, tornando desconhecido aquilo que era absolutamente o contrário. Uma tradução recente para o português, a cargo de Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares, verteu o termo como “infamiliar” (editora Autêntica, 2019).


No início do ensaio, o fundador da psicanálise estabelece o unheimlich/infamiliar como “não conhecido”. Mais à frente, Freud postula que o “infamiliar seria tudo o que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que veio à tona”; “nada tem realmente de novo ou de estranho, mas é algo íntimo à vida anímica desde muito tempo e que foi afastado pelo processo de recalcamento”. Assim se destaca, no ensaio, o retorno daquilo que era perfeitamente conhecido pelo sujeito, mas que por algum motivo torna-se alheio, estranho, infamiliar. Para Freud, é justamente esse movimento pendular a causa das sensações de estranheza e de horror vinculadas a narrativas como O homem da areia, de Hoffmann, que constitui o principal corpus do artigo, e de tantas outras.


Uma delas é Servant, dado que a série assume, desde o início, o compromisso com o horror de natureza psicológica. No poderoso primeiro episódio, intitulado Renascido, somos apresentados aos personagens que compõem a trama: o casal Turner, formado pela bem-sucedida jornalista Dorothy e pelo renomado chef experimental Sean (interpretados por Lauren Ambrose e Toby Kebbell), e a jovem babá Leanne Grayson (Nell Tiger Free), que foi contratada para cuidar de Jericho, o recém-nascido.


A sequência inicial, em que Leanne chega à casa dos Turner, oferece a medida e o tom da narrativa, pois ela se dá em uma noite tempestuosa e a câmera movimenta-se lentamente pelos cômodos escurecidos da grande residência. Assim, cria-se não apenas tensão, mas uma sensação de que algo não está certo. Com efeito, Dorothy parece exageradamente entusiasmada com a chegada da babá; seu comportamento destoa do marido, que se mostra falsamente interessado.


Bonecos assustadores


Quando Leanne entra em cena, a atmosfera se adensa ainda mais: enigmática e monossilábica, ela surge como um espectro, ou um autômato, remetendo à figura da boneca Olímpia do conto de Hoffmann. E a revelação de que Jericho é um reborn provoca imediatamente horror por seu caráter “infamiliar”. Afinal, aquilo que está no berço é reconhecível e ao mesmo tempo estranho; por um breve instante, sentimos a vertigem, o espanto diante do desconhecido.


A existência do falso Jericho é logo esclarecida no mesmo episódio, quando Sean, aproveitando que a esposa saíra para trabalhar, explica a situação para Leanne. O verdadeiro bebê havia morrido 13 semanas após o nascimento, Dorothy entrou em choque e a família decidiu adotar medidas para ajudá-la a processar o trauma.


O boneco e, consequentemente, a babá compõem esse sistema de defesa, o qual é mantido em total discrição: apenas o marido, o pai e o irmão de Dorothy, além da terapeuta dela, sabem da fatalidade. Depois da explicação, Sean pergunta se Leanne tem alguma dúvida, e se surpreende com a resposta dela: “Vou levar Jericho para passear”, diz a babá, acariciando ternamente o boneco. Ao final desse episódio inaugural, outra reviravolta: o marido encontra, no berço, um bebê de verdade.


Horror em camadas


Podemos dizer que, em Servant, o horror se desenvolve em dois planos. O primeiro, explícito, é composto pela rotina do casal e da babá, sendo que Leanne se revela cada vez mais estranha e, em consequência, ameaçadora. Nesse quesito, ela parece figurar como um monstro sutil, ainda que sua história e suas intenções permaneçam ocultas — apenas Sean parece se dar conta das características bizarras da moça, já que Dorothy logo se afeiçoa a ela pelo carinho e o amor dedicados a “Jericho”. Isso inquieta ainda mais o marido: teria a babá trazido aquele outro bebê?


No intuito de continuar preservando a esposa (que sequer notou a diferença entre a criança e o boneco), ele evita abordá-la para debater o mistério. Então, convoca Julian (Rupert Grint), seu cunhado e cúmplice no esquema de proteção da esposa, para investigar Leanne. E as descobertas que fazem vão acentuando a tensão geral.


O luto como fonte de assombros


Mas é no segundo plano da narrativa, aquele implícito, que encontramos os elementos deflagradores de um horror profundo. Porque todo o “circo” se arma para auxiliar Dorothy a superar o luto de uma tragédia que só será explicada no penúltimo episódio da primeira temporada, intitulado Jericho.


No ensaio Luto e melancolia, publicado originalmente em 1917, Freud reflete sobre a natureza desse estado psíquico que sucede a perda, contrapondo-o à melancolia e assim descrevendo-o: “a prova da realidade mostrou que o objeto amado já não existe mais e agora exige que toda a libido seja retirada de suas ligações com esse objeto. Contra isso se levanta uma compreensível oposição [...] Essa oposição pode ser tão intensa que ocorre um afastamento da realidade e uma adesão ao objeto por meio de uma psicose alucinatória de desejo”.


Ora, é exatamente o que ocorre a Dorothy na série: uma intensa oposição à inexistência do objeto amado, ou à prova de realidade. Mais adiante, o fundador da psicanálise postula que “o luto será superado depois de algum tempo, e que é considerado inadequado e até mesmo prejudicial perturbá-lo”. Fiando-se nisso, Sean, Julian e Natalie (Jerrika Hinton), a terapeuta/kinesiologista de Dorothy, esperam que ela supere o trauma. Entretanto, essa possibilidade fica cada vez mais distante. Por meio do boneco, a existência de Jericho na vida da mãe vai sendo prolongada.


A oposição/negação aprofunda-se, assim como a psicose alucinatória. Ela alucina que embala seu bebê, que o aninha, que o leva para passear; só não o amamenta porque sente dores nos seios, mas tira leite com o auxílio de uma bomba. E a chegada de Leanne intensifica esse processo, posto que a babá trata primeiramente o boneco como de fato um recém-nascido, e depois age da mesma forma com o misterioso bebê que surge, sem aparentar qualquer inquietação.


Assim, permanece a expectativa — profundamente perturbadora — de que Dorothy possa “acordar” a qualquer momento, e acentua-se a ameaça diante da especulação do que eventualmente aconteça após o despertar.


Monstros e espaços assombrados


Tudo se torna ainda mais assustador no sexto episódio, Chuva, quando somos apresentados a um suposto tio de Leanne, George (Boris McGiver). Ele aparece subitamente na casa dos Turner durante uma noite de tempestade. Sean está fora, e Dorothy, bastante apegada à babá e desejando conhecer mais sobre a vida dela, convida a sinistra figura para jantar.

Essa é a primeira manifestação de uma evidente monstruosidade na narrativa, posto que do tio emana inegável ameaça, constituída por suas maneiras bizarras (comer com a mão, espremer um pedaço de frango para drená-lo etc), por sua expressão malévola e por seus trajes funéreos. Ele declara a intenção de levar Leanne embora, mas a babá é convencida por Dorothy a confrontá-lo; o tio George então parte, dizendo que da próxima vez trará tia May (Alison Elliott), a quem Leanne “não consegue dizer não”. A chegada dessas personagens deflagra um novo ramo narrativo, que, no último episódio da primeira temporada, acaba por lançar alguma luz no misterioso passado da babá.


A tudo isso ainda se soma a atmosfera muito bem construída. A narrativa se passa integralmente no interior da casa dos Turner — um sofisticado tríplex que corresponde ao locus horrendus (ou "lugar horrível") das histórias góticas, em cuja trama os espaços amaldiçoados ocupavam posição central.


A casa representa o território demarcado e assombrado pela morte de um bebê recém-nascido e, ao mesmo tempo, é o espaço íntimo de um casal que acaba invadido por figuras ameaçadoras, sempre na esteira dessa tragédia. Não à toa, os cômodos são frequentemente escuros, e o cuidadoso desenho de som da série dá destaque a rangidos, pancadas, ecos e outros ruídos. Ou seja, o cenário perfeito para abrigar uma poderosa trama de horror psicológico.

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