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  • Oscar Nestarez

6 livros de terror para lidar com o horror da realidade


“De assustadora, já basta a vida”: quem ama histórias de horror sempre se depara com frases assim. Ou ainda com “você gosta de sofrer, hein?” Em tese, esses questionamentos até fazem sentido. Considerando que os tempos atuais — com a pandemia e suas consequências nefastas — sejam bastante amedrontadores, quem, em sã consciência, desejaria buscar ainda mais horrores na ficção?


No entanto, para fãs de livros, filmes e narrativas sinistras no geral, a dinâmica não é bem essa. Não é cumulativa; não buscamos, nas histórias que consumimos, mais perturbação, ansiedade ou estresse. Arrisco dizer que, para muitos e muitas de nós, a questão é substitutiva: trocamos a ameaça real (portanto, perigosa) por outra artística (portanto, segura). O livro sempre poderá ser fechado, e a TV, desligada. Há quem chame isso de “fuga”. De minha parte, gosto de pensar nos termos da substituição porque, nesses casos, não estamos nos afastando de emoções negativas, e sim vivenciando-as de outra forma.


A propósito, essa vivência também tem um caráter terapêutico. Assim concluíram pesquisadores norte-americanos e dinamarqueses que, em um experimento realizado em 2020, verificaram se o engajamento com filmes de horror poderia ser associado a uma maior preparação psicológica diante da pandemia. E o resultado foi positivo — tratei do assunto neste texto.


Assim sendo, preparei uma lista de títulos de horror ficcional para ajudar você a encarar o horror real. São livros (e uma série) de diferentes subgêneros que considero capazes não apenas de proporcionar aquela substituição, mas de, quem sabe, auxiliar você a enfrentar os perigos que de fato existem. E o mais importante: nenhum deles defende a cloroquina.


1. O Terror, de Dan Simmons (e a primeira temporada da série de mesmo nome)

O Terror, de Dan Simmons (Editora Rocco, 752 páginas, R$ 94,90) (Foto: Divulgação)

Começamos com uma assustadora aventura náutica nos confins do mundo. Este é o romance O Terror (Rocco), do autor norte-americano Dan Simmons. Publicado nos EUA em 2007, traz a ficcionalização de uma verdadeira tragédia: a expedição realizada pelo britânico John Franklin em 1845. Ele conduzia os navios Terror e Erebus pelo Ártico em busca da passagem do noroeste, que liga o Atlântico ao Pacífico, quando o congelamento do mar e vários outros contratempos retiveram as embarcações. Nenhum dos 128 homens da tripulação sobreviveu.


A partir desses fatos, Simmons elaborou uma obra impressionante. Não apenas pelo tamanho (mais de 700 páginas), mas pela estrutura: são diversos os pontos de vista que comparecem à narrativa — a principal voz sendo a do capitão Crozier —, o que permitiu ao autor explorar e causar diferentes emoções em sua história. Prioriza-se o drama de situações-limite e o horror de motins e de uma criatura monstruosa que ameaça as embarcações encalhadas. Soma-se a isso uma pesquisa histórica de enorme fôlego, e temos um romance nada menos do que épico, cujo principal trunfo é jamais permitir que a tensão se disperse.


O livro deu origem à primeira temporada da série The Terror, desenvolvida por David Kajganich e produzida por Ridley Scott. Com um afiado elenco liderado por Jared Harris e Tobias Menzies, a adaptação preserva a tensão e a atmosfera da obra de Simmons e, embora padeça de um ou outro problema de ritmo, é altamente recomendável. Já a segunda temporada, sugerimos deixar para lá.


2. Livros de sangue, de Clive Barker


Livros de sangue, de Clive Barker (Editora Darkside, 240 páginas, R$ 59,90) (Foto: Divulgação)

Em 2020, a editora carioca Darkside publicou o primeiro dos seminais Livros de sangue, do britânico Clive Barker. Dividida em seis volumes de contos publicados originalmente entre 1984 e 1985 na Inglaterra, a obra lançou para o estrelato aquele que ainda é considerado um dos maiores criadores do horror contemporâneo.


A publicação foi uma grande notícia porque apresenta o Barker contista a um público que apenas o conhecia como romancista e cineasta. E no território das narrativas breves, o criador de Hellraiser demonstra muitos recursos, explorando temas e subgêneros do horror com grande habilidade, além de demonstrar uma veia poética bastante própria.


3. A trama da maldade, também de Clive Barker


Outra recomendação de Clive Barker é o romance A trama da maldade (Weaveworld), de 1987, publicado aqui pela extinta Civilização Brasileira (esgotado nas principais livrarias do Brasil, o livro ainda se encontra à venda em sebos e livreiros). Em resumo, trata-se da história de um mundo mágico que está escondido dentro de uma tapeçaria, conhecida como “A Fuga” (nome oportuno), para proteger-se de humanos curiosos e inimigos sobrenaturais hostis. Aqui, horror e fantasia fundem-se em uma narrativa profundamente imaginativa; Barker é um mestre em nos levar para muito longe, rumo a destinos que jamais imaginamos poderem existir.


4. As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez


Um dos principais nomes da chamada “nova narrativa argentina”, Enriquez impressionou leitores e leitoras de toda parte com a coletânea As coisas que perdemos no fogo, publicada no Brasil pela Intrínseca. São histórias que não apenas dialogam com monumentos daquele país, como Borges ou Bioy Casares, mas que também vinculam-se fortemente à literatura de horror.


A própria Enriquez declara isso. Em entrevista concedida à coluna, ela afirma que “o horror é o que mais se aproxima da nossa realidade; a sensação de que a realidade se dissolve, se torna estranha e sinistra, tão característica dos relatos de horror, pode ser facilmente reconhecida na nossa vida cotidiana”.


E de fato, a realidade se dissolve e se torna sinistra em histórias como “O quintal do vizinho”, “A casa de Adela”, “O menino sujo” e o lovecraftiano “Sob a água negra”. Nos doze contos da coletânea de Mariana Enriquez, predominam as marcas do horror. Repulsa, desamparo, inquietação, estranhamento ou assombro são algumas das sensações provocadas por leituras que certamente ficarão com você depois de o livro ser fechado.


5. A narrativa de Arthur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe


Outra recomendação de aventuras náuticas assustadoras. Trata-se da única narrativa longa escrita por Edgar Allan Poe, publicada pela primeira vez em 1838. Aqui no Brasil, há poucas edições de A narrativa de Arthur Gordon Pym, e você provavelmente se assustará com alguns valores pedidos por elas. Mesmo assim, fazemos a recomendação, por ser uma obra nada menos do que eletrizante.


O relato de Pym, jovem de ambições aventureiras que parte de Nantucket (Massachusetts) escondido em um navio, é um vórtice de calamidades e horrores cujo ritmo não decai. Assim como Dan Simmons, Poe nos leva aos confins do mundo — nesse caso, ao pólo sul, para onde zarpa o protagonista após sobreviver a desventuras inacreditáveis. E a história contém todas as qualidades que consagraram o autor de O Corvo: composição minuciosa da escrita, domínio do tempo da narração, personagens complexas e vítimas de seus próprios dilemas, altas doses de perversidade e grande talento para encenar o horror. Tudo conduzindo a um inesquecível desfecho (embora muitos estudiosos considerem a obra inacabada). Em uma palavra, imperdível. 6. Distância de resgate, de Samanta Schweblin


Por fim, recomendamos outro nome de destaque vindo da Argentina. Da mesma geração de Mariana Enriquez, a escritora Samanta Schweblin também se filia à corrente fantástica que tanto floresceu naquele país. É acima de tudo notável o diálogo do trabalho dela com a prosa de Julio Cortázar: os experimentos com a forma, o rigor narrativo, a profundidade psicológica, os enredos elusivos, o incisivo comentário social são algumas das características que encontramos em ambos.


E são essas as características que chamam a atenção na novela Distância de resgate (Record). A estrutura e o enredo já são de difícil descrição. Certo é que a história se constrói a partir de um diálogo entre Amanda e David; a primeira é mãe da garotinha Nina, e o segundo é o filho de Carla. Aparentemente confinada a uma cama de hospital, Amanda conta ao menino a estranha história que ouviu da mãe dele, e que envolve uma estranha doença acometendo crianças na área rural da Argentina, aparentemente causada por agrotóxicos. Subjacente à trama, há a distância de resgate: o fio imaginário que liga mães a filhos, sempre tensionado por um mundo cheio de ameaças.


O resultado é uma obra tão estranha quanto envolvente, na qual o suspense se acumula até a última frase. Uma obra que, como as outras que indicamos aqui, continua com a gente após o ponto final, acompanhando-nos em meio a horrores infelizmente reais. Mas é bom que assim aconteça, pois isso quer dizer que nossa imaginação está em forma. E imaginar, nos tempos atuais, é declarar amor à vida.


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