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  • Oscar Nestarez

Medo terapêutico: por que fãs de horror lidam melhor com a pandemia?


Cena do filme Psicose, de Alfred Hitchcock (Foto: Reprodução)

Em estudo recente, pessoas que acompanham histórias de terror se mostraram menos impactadas pelo sofrimento causado pela Covid-19


No momento em que escrevo este texto, o Brasil está prestes a completar quatro meses desde que foi registrada a primeira vítima fatal de Covid-19 por aqui, em 16 de março. Uma semana depois, o estado de São Paulo — e depois o restante do país — decretou quarentena, com todas as restrições que já conhecemos bem. Naquele momento, acompanhávamos atônitos o que acontecia em muitos países do mundo, sobretudo na Espanha e na Itália: milhares de mortes diárias e forte isolamento social. Embora soubéssemos que não havia motivos para que escapássemos desses horrores, torcíamos, bem no íntimo, para que fossem mais tênues por aqui.


Não foram. O vírus veio com força avassaladora e, até o momento, já causou mais de 72 mil mortes, infectando mais de 1,8 milhão de brasileiros. Os riscos afastaram pessoas próximas, pelo menos geograficamente; e transformaram o outro, o desconhecido, em alguém que nos causa desconfiança e temor. Por todos os lados, pairam a ameaça e as consequências de uma doença da qual ainda conhecemos pouco.


Seria clichê afirmar que se trata de um “cenário de pesadelo”. No entanto, a expressão se torna mais significativa diante do profundo abalo psíquico causado pela pandemia. Pergunte a qualquer pessoa próxima: você certamente ouvirá relatos de aumento de ansiedade, de intensificação da depressão, de insônia e, claro, de pesadelos.


Maior preparação psicológica


Por outro lado, existe um grupo no qual os impactos da pandemia têm sido significativamente mais leves: os aficionados por filmes e ficção de horror. É o que revela o artigo Pandemic Practice: Horror Fans and Morbidly Curious Individuals Are More Psychologically Resilient During the COVID (Prática pandêmica: fãs de horror e indivíduos com curiosidade mórbida são psicologicamente mais resilientes durante a COVID, em tradução livre). O texto resultou de um experimento conduzido por pesquisadores das universidades de Chicago e da Pensilvânia, ambas nos Estados Unidos, e de Aarhus, na Dinamarca, para verificar se o engajamento com filmes de horror e de temática pandêmica poderia ser associado a uma maior preparação psicológica diante da pandemia. A pesquisa foi realizada com 310 pessoas pela metodologia de escala de concordância. Os participantes deviam responder se concordavam ou não, em diferentes graus, com uma série de afirmações a respeito de séries e filmes de horror, bem como a respeito de seus estados mentais e físicos durante a pandemia.


Alguns resultados chamam a atenção: no caso da afirmação “Durante a pandemia, tenho me sentido mais deprimido do que o normal”, a resposta foi amplamente negativa (81%); e 95% concordaram com a frase “Eu acredito nas minhas habilidades para passar por esse período difícil”.


Experiências simuladas


O estudo parece confirmar a máxima que desde sempre circula entre fãs e criadores de narrativas assustadoras: o horror ficcional nos prepara para os horrores reais. Cineastas, roteiristas, autores e pesquisadores costumam justificar o apelo dessas histórias pelo fato de que elas funcionam como uma espécie de treinamento mental, ou de “simulação de experiências nas quais os indivíduos podem coletar informações e modelar mundos possíveis”, como propõem os autores do artigo para justificar a maior resiliência dos fãs de horror.


De acordo com o texto, essas experiências não se restringem aos filmes. “Em uma experiência simulada, como uma história contada oralmente, um livro ou um filme, podemos explorar futuros ou fenômenos possíveis, reunindo informações sobre como seria a versão real de tal experiência, e aprendendo sobre os relativos sucessos de algumas ações e atitudes tomadas perante a ela.” Ou, nas palavras de Stephen King que servem de epígrafe ao artigo: “Uma boa história de horror é aquela que opera em um nível simbólico, utilizando eventos ficcionais (e às vezes sobrenaturais) para nos ajudar a entender nossos próprios medos mais profundos e reais.”


Em uma entrevista à revista norte-americana New Scientist, Coltan Scrivner, pesquisador da Universidade de Chicago e um dos autores do artigo, confirmou que os fãs de horror relataram menos estados mentais negativos em relação à crise da Covid-19. Segundo ele, isso dá a entender “que talvez, com o horror, tenhamos uma maior regulação emocional”. Utilizando-se como exemplo, Scrivner afirmou que o fato de ele assistir a filmes de horror o permitiu ter medo, e "depois conquistar esse medo".


Ambiente seguro


Ainda de acordo com o estudo, essa conquista ocorre, em grande medida, graças ao fato de que as narrativas de horror nos permitem encarar emoções negativas em um “ambiente seguro”. Ao temermos o maníaco assassino ou o monstro na tela ou nas páginas, temos uma oportunidade de refletir sobre sentimentos como medo ou aversão, e de praticar habilidades de regulação emocional. “Experienciar emoções negativas em um ambiente seguro, como ocorre durante um filme de horror, pode ajudar os indivíduos a aprimorar estratégias para lidar com tais emoções e a enfrentá-las mais calmamente em situações semelhantes na vida real”, propõe o texto.


Essa fruição de emoções negativas em um ambiente seguro também pode ser chamada de “medo estético”. Ou seja, o medo causado pela via única e exclusiva da construção ficcional, sendo por isso (aparentemente) inofensivo. Ao revelarem um mundo que reconhecemos como nosso, e ao inserirem nele ameaças assustadoras, essas narrativas nos permitem experimentar tais riscos no conforto de nossos sofás.


Trata-se de um procedimento cuja origem remonta a meados do século 18, com o surgimento das narrativas góticas. Desde então, a construção ficcional do medo vem ganhando força, significado e valor — atributos que agora, em meio à pandemia, foram cientificamente comprovados.

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