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  • Oscar Nestarez

Entrevista: Thomas Olde Heuvelt e as bruxas que estão soltas no século XXI

O autor de 'Hex' (Darkside) conversou comigo sobre bruxaria e maldições na atualidade



O holandês Thomas Olde Heuvelt (fonte: divulgação)

Na literatura de horror, revisitar está em alta. Tanto autores jovens quanto veteranos têm quebrado a cabeça para dar nova roupagem a temas conhecidos pelos fãs, como possessão demoníaca, assombrações, apocalipse zumbi etc.


É verdade que muitas vezes a indumentária parece não funcionar — como, a nosso ver, foi o caso de O Demonologista, de Andrew Pyper ( Ed. Darkside, 2013). Mas é inegável que haja casos bem-sucedidos. Um exemplo é o competente Na escuridão da mente (Ed. Bertrand, 2017), de Paul Tremblay, que atualiza a tradição de jovens possuídas.


Outro esforço digno de nota é Hex (Ed. Darkside, 2018), do holandês Thomas Olde Heuvelt, que coloca uma bruxa no coração do século XXI — para azar da bruxa, como veremos. 

A história de Heuvelt se passa em Black Spring, pequena cidade fictícia dos EUA. Em pleno ano de 2012, a região é assombrada por Katherine Van Wyler, acusada de bruxaria, torturada (teve os olhos costurados) e queimada séculos antes.


Até aí, enredo absolutamente trivial. A trama se torna interessante a partir de uma engenhosa subversão proposta pelo autor: depois de 300 anos convivendo com as aparições de Katherine, a cidade se relaciona tranquilamente com ela.


BBBruxa


Quando surge, a figura franzina e sombria já (quase) não causa espanto. Pelo contrário, os adolescentes locais até tiram uma onda com ela. E, quando há forasteiros, o pessoal precisa escondê-la ou disfarçá-la, uma vez que o segredo não pode ser revelado para quem não é da cidade.


Um exemplo: um coral de senhoras está sempre de prontidão para cercar Katherine quando ela aparece, de modo que a bruxa pareça só mais uma integrante do grupo. São talvez as passagens mais divertidas do livro. 


A tecnologia também está por todos os lados. Hex é o nome dado ao moderno centro de controle que, à maneira do que acontece em programas como Big Brother, monitora cada passo da bruxa por meio de câmeras e de um aplicativo, Hexapp.

Personagens têm blogs revolucionários clandestinos e canais no YouTube para tentar burlar o severo controle exercido pelo conselho administrativo da cidade.


“Ideia fraca”


Mas esta não era a ideia inicial de Thomas Olde Heuvelt. “O primeiro tratamento para a história trazia uma cidade assombrada por uma mulher do século XVII que, acusada de ‘olho gordo’, teve os olhos e a boca costurados”, disse o autor em conversa com a GALILEU. “Mas era uma ideia fraca, nada original.”


De volta à prancheta, Heuvelt começou a “brincar com o conceito”. “E se, em vez de uma aparição assustadora, a bruxa fosse como uma espécie de maluca da cidade, só uma figura excêntrica? E se, em vez de fugirem quando ela aparecesse, as pessoas só pusessem um pano em sua cabeça e continuassem a ler o jornal?”


As especulações animaram o autor, que reestruturou a trama. De “e se” em “e se”, a história de Hex foi encorpando-se, ganhando substância.


De acordo com Thomas Olde Heuvelt, a inserção da tecnologia foi uma consequência natural dessa reformulação. “Como a história se passa em uma cidade dos tempos atuais, se uma bruxa aparecesse, todos teríamos celulares ou aplicativos para registrá-la. É o que aconteceria hoje”, afirma ele.


Roald Dahl e O segredo da cabana no radar


Os esforços para conferir verossimilhança à história vão além da inserção de dispositivos tecnológicos. O humor negro — possivelmente o maior trunfo do relato — também soa natural. De personagens secundárias curiosas a sacadas inteligentes, Heuvelt acaba surpreendendo mais pela comicidade afiada.


Nesse sentido, o escritor holandês parece seguir de perto um verdadeiro mestre do assunto: o galês Roald Dahl, conhecido como o autor de Charlie e a Fábrica de Chocolate (que deu origem ao filme A Fantástica Fábrica de Chocolate).


Dahl é um dos heróis literários de Thomas Olde Heuvelt, que foi particularmente marcado pelo romance de fantasia As Bruxas (1983): “A história me divertiu ao mesmo tempo que aterrorizou”, conta ele. “É típica de Roald Dahl: ele machuca crianças no romance, e é isso o que adoro nele”.


Outra forte influência vem não da literatura, mas do cinema: trata-se de O Segredo da Cabana (2012), dirigido por Drew Goddard. O filme também parte de um tema batido: jovens que vão passar alguns dias isolados em uma cabana nas montanhas. Mas a história toma rumos tão divertidos quanto inesperados.


“É um dos meus favoritos”, afirma Heuvelt. “É tão inteligentemente realizado... e eu quis realizar algo próximo, com brincadeiras semelhantes.”


Além do “terrir”


Engana-se quem pensa que a chave da leitura para Hex é somente o chamado “terrir” (neologismo criado a partir das palavras “terror” e “rir”). Aos poucos, mas sempre, a história vai se tornando sombria. Os experimentos e as brincadeiras dos adolescentes com a bruxa não passam em vão. E é aí que o humor vai cedendo lugar ao horror.


“Como leitor, você percebe que tem algo errado ali. Os jovens estão tentando quebrar a maldição da bruxa, mas existem algumas ‘maçãs podres’ entre eles que a provocam. A coisa acaba ficando abusiva”.


De acordo com Heuvelt, “é o que adolescentes fariam”, mas as consequências são catastróficas. Todo o povoado é submetido a uma situação-limite após a outra.

Para o autor, esse drama é essencialmente humano e ajuda a explicar o sucesso da obra — que vem sendo vendida aos milhares pelo mundo e vai virar série pelas mãos da Warner.

“Hex apela para um público bem maior do que o de leitores de horror. É uma história que expande seus limites porque, na minha opinião, leva os leitores a se perguntarem: ‘O que eu faria se isso acontecesse? Como eu reagiria?’”.


Talvez. Mas, no caso da ficção de horror, essas especulações ajudam a modernizar temas aparentemente batidos, dando novo fôlego ao gênero. E ainda provocam uma reflexão subjacente: nos turbulentos tempos atuais, será a bruxa a única vilã?

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