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  • Oscar Nestarez

Desencanto e pessimismo: H.P. Lovecraft na visão de Michel Houellebecq


H.P. Lovecraft - Contra o mundo, contra a vida (Nova Fronteira). Fonte: divulgação

Para um dos principais romancistas da atualidade, o autor de “O chamado de Cthulhu” escreveu suas maiores obras após período conturbado (e polêmico) em Nova York


Boa notícia para fãs de Lovecraft e de horror, no geral: H.P. Lovecraft - Contra o mundo, contra a vida, de Michel Houellebecq, receberá sua primeira edição no Brasil, pela Nova Fronteira (com tradução de Maria Luiza X. de A. Borges e introdução de Stephen King). Lançado originalmente em 1991, o ensaio foi um dos primeiros textos publicados pelo premiado autor francês, que hoje figura em qualquer lista dos nomes mais influentes da literatura ocidental. E dos mais controversos, também, como veremos a seguir.

O entusiasmo com o lançamento se justifica por alguns motivos. Primeiro porque o texto expressa o fascínio de um dos grandes romancistas da atualidade por um autor que raramente frequenta as altas esferas da literatura, sobretudo por conta de um estilo considerado exagerado e arcaico. Depois, graças à voz inconfundível de Houellebecq, o ensaio se transforma em uma espécie de “romance não ficcionalizado”, do qual Lovecraft emerge como uma figura ora fascinante, ora repulsiva, ora deprimente.

Por fim, o olhar ensaístico do autor francês, uma de suas marcas na ficção, revela ângulos e arestas que costumam passar despercebidos até mesmo pela crítica especializada — da qual o autor desta coluna presunçosamente acredita fazer parte.


Pessimismo compartilhado

Analisando em retrospecto, é compreensível que Houellebecq se sinta atraído pela figura e pela obra de H.P. Lovecraft. Nascido em 1956 e vencedor do Goncourt, principal prêmio da literatura francófona, com o romance O mapa e o território (2010), o francês é autor de uma obra marcada pela constatação da banalidade da existência humana. Há quem o considere o fundador de uma vertente chamada “realismo cínico”, dados o desencanto e a acidez que imperam em seus livros mais conhecidos, como Partículas elementares (1998), Plataforma (2001), Submissão (2015) e o mais recente, Serotonina (2019).


Ora, o desencanto é também uma das marcas de Lovecraft. Em um nível mais intenso, transforma-se na certeza de nossa insignificância perante o caos primordial do Universo. É isso que fornece a base da estética do horror cósmico, consolidada pelo autor nascido em Providence, no estado norte-americano de Rhode Island, em 1890. Seus relatos nos lembram de que somos poeira, e nada mais; também nos recordam de que basta o despertar de alguma entidade antiquíssima para, como poeira, sermos varridos da existência. Uma visão de mundo excepcionalmente sombria e da qual Houellebecq compartilha, ainda que a expresse por vias muito diferentes.


Polêmica após a morte

Ambos se reúnem, também, no território das controvérsias. O francês é considerado enfant terrible (criança terrível) da literatura de seu país não somente pelos temas polêmicos que aborda (em Submissão, por exemplo, um muçulmano vence as eleições presidenciais francesas), mas pelos embates pessoais que coleciona. Um exemplo: certa vez, Houellebecq afirmou a uma revista francesa que sua mãe, Lucie Ceccaldi, estava morta. Algum tempo depois, Lucie respondeu por meio de um livro avassalador, L'Innocente (A inocente), no qual o acusa de ser um “impostor” e o chama de “bastardinho malvado e estúpido”.


Quanto a Lovecraft, a polêmica — assim como o sucesso — acontece post-mortem. E o motivo é simples: racismo. São incontáveis as evidências de que o autor expressava, já na juventude, a atitude discriminatória típica da classe a que pertencia, a antiga burguesia protestante e puritana da Nova Inglaterra. Mas foi somente após o dramático período vivido em Nova York (de 1922 a 1926), para onde Lovecraft foi após se casar com Sonia Greene, que o desprezo se transformou em ódio.


Na metrópole, ele não conseguiu arranjar emprego ou mesmo se ocupar. Enquanto a esposa trabalhava em uma chapelaria, Lovecraft passava os dias perambulando pelas ruas em busca de um trabalho que jamais veio, acotovelando-se com imigrantes em meio à multidão plural e vibrante que já naquela época ocupava a cidade. Para um homem que se considerava um cavalheiro fora de seu tempo, foi uma experiência devastadora.


Ódio criativo

Quanto a isso, Houellebecq vai direto ao ponto: “Lovecraft de fato sempre foi racista. [...] E é em Nova York que suas opiniões racistas se transformam em uma autêntica neurose racial”. Aqui, o francês é novamente polêmico, já que atribui parte da força criadora de Lovecraft a essa neurose: “é o ódio racial que provoca em Lovecraft esse estado de transe poético em que ele excede a si mesmo na pulsação rítmica e louca das frases malditas; é ele [o ódio] que ilumina seus grandes textos com um brilho hediondo e cataclísmico”.


Para Houellebecq, os principais textos de Lovecraft foram escritos após os anos passados na metrópole norte-americana. Ou seja, no período em que ele retornou a Providence para de lá não mais sair. Analisando a lista, é difícil discordar do francês: O chamado de Cthulhu (1926), A cor que caiu do espaço (1927), O horror de Dunwich (1928), Nas montanhas da loucura (1931) e A sombra vinda do tempo (1936), entre outros, são dessa época.


De acordo com Houellebecq, essas obras configuram o “coração absoluto do mito de H.P. Lovecraft”. E só se tornaram grandiosas porque a escrita e a estética do autor foram profundamente contaminadas pela experiência hostil de NY.

Uma afirmação sem dúvida controversa, que já gerou reações pelo mundo — o norte-americano ST Joshi, considerado o maior especialista em Lovecraft, escreveu o ensaio Why Michel Houellebecq is wrong about Lovecraft’s Racism (Por que Michel Houellebecq está errado sobre o racismo de Lovecraft, inédito no Brasil). Por aqui, o texto do autor francês deve borrifar querosene nos já inflamados debates a esse respeito.


Arquitetura e cegueira voluntária

Polêmicas à parte, o estudo de Houellebecq tem momentos de verdadeiro brilhantismo. A associação de Lovecraft com a arquitetura, em detrimento da pintura, é perspicaz: “suas cores não são verdadeiramente cores; são, antes, ambiências, ou iluminações, que não têm outra função senão valorizar a arquitetura por ele descrita”.


O francês destaca o talento com que Lovecraft, “arquiteto nato”, ergue estruturas ciclópicas e alucinantes, capazes de produzir em nossos espíritos um “chacoalhão violento e definitivo, ainda mais violento [...] do que os magníficos desenhos arquitetônicos de Piranesi ou de Monsù Desiderio”.


Outro ponto alto é a resposta de Houellebecq a quem acusa, na obra de Lovecraft, a completa ausência de sexo, dinheiro ou elementos centrais de nossa vida cotidiana. Para o francês, os textos lovecraftianos têm somente um objetivo: levar o leitor a um estado de fascinação, o que obriga o autor a descartar, voluntariamente, aquilo que atrapalha esse propósito.


“Os únicos sentimentos humanos dos quais Lovecraft quer ouvir falar são o maravilhamento e o medo. Ele construirá seu universo sobre ambos, e exclusivamente sobre ambos. É evidentemente uma limitação, mas uma limitação consciente e deliberada. E não existe criação autêntica sem uma certa cegueira voluntária”.


No conjunto do ensaio, essa percepção de Houellebecq adquire grande magnitude e justifica o título “contra o mundo, contra a vida”. Afirma ele, em certo ponto: “Um ódio absoluto pelo mundo no geral, agravado pelo desgosto particular pelo mundo moderno. Eis o que resume bem a atitude de Lovecraft”. Ou, como reitera ele em outro momento: “Em Lovecraft, o ódio pela vida precede toda literatura”.


Podemos acusar Houellebecq de moldar o perfil de Lovecraft a suas próprias intenções, ou de deliberadamente enviesar certas leituras. Ainda assim, devemos reconhecer o valor do olhar crítico e lúcido que o francês lança tanto à obra quanto à vida do norte-americano. Um olhar expresso por passagens de franqueza singular, como esta:


“Podemos deplorá-lo, mas é preciso reconhecê-lo: Lovecraft está mais do lado do ódio; do ódio e do medo. O universo que ele concebe intelectualmente como indiferente torna-se esteticamente hostil. Sua própria existência, que podia não ter passado de uma sucessão de decepções banais, torna-se uma operação cirúrgica e uma celebração invertida. [...] “Oferecer uma alternativa à vida sob todas as suas formas, constituir uma oposição permanente, um recurso permanente à vida: tal é a mais elevada missão do poeta nesta terra. Howard Phillips Lovecraft desempenhou essa missão.”

Em tempo: a coluna recomenda com entusiasmo a mais recente adaptação cinematográfica do conto A cor que caiu do céu, de Lovecraft, realizada pelo cineasta sul-africano Richard Stanley. Também recomenda ao leitor ouvir o podcast Saco de Ossos sobre o filme, que teve participação deste colunista.

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