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  • Oscar Nestarez

Conheça 6 grandes personagens femininas da literatura de horror


Laura in bed, ilustração de David Henry Friston para Carmilla, no The Dark Blue (Fevereiro de 1872) (Foto: David Henry Friston/Wikimedia Commons)

No cinema de horror, é conhecida a figura da final girl. É a “última garota”, aquela que sobrevive à matança de monstros e psicopatas, de preferência para acabar com eles. O termo surgiu em meados dos anos 1990, mas essas heroínas o antecedem. Laurie Strode (interpretada por Jamie Lee Curtis), a final girl mais celebrada de todos os tempos, surge em 1978 no primeiro Halloween, de John Carpenter e Debra Hill. Quatro anos antes, a personagem Jess (Olivia Hussey), de Noite do Terror (de Bob Clark), já sobrevivia à matança de moças promovida por um serial killer. Outros nomes bem conhecidos são os da Tenente Ripley (Sigourney Weaver), de Alien - O Oitavo Passageiro, e Sidney Prescott (Neve Campbell), de Pânico, de Wes Craven.


Agora, e nas vertentes sinistras da literatura? Teríamos algo parecido com as final girls do cinema? De minha parte, acredito que sim. Embora o termo esteja associado às narrativas slasher – ou seja, um subgênero do horror no qual a predominância é cinematográfica –, existem na historiografia dos livros assustadores inúmeras personagens femininas inesquecíveis pela força e pela coragem com que enfrentaram ameaças de todos os tipos, fossem humanas ou sobrenaturais – ou mesmo pelo fascínio que exercem em leitoras e leitores.


Neste Mês da Mulher, aproveito para elaborar uma lista de personagens femininas memoráveis da literatura de horror – com toda a carga de subjetividade (e de polêmica) a que uma lista está sujeita. Vamos lá:


1. A narradora de O papel de parede amarelo


Hoje um clássico da literatura feminista, este extenso conto publicado em 1892 pela norte-americana Charlotte Perkins Gilman também vem sendo lido à luz do horror. Não por acaso: é assustadora a situação da narradora (não nomeada), uma mulher que foi confinada em um quarto para se recuperar de uma doença não especificada. E pior: ela foi colocada ali pelo próprio marido, que é médico e suspeita de que ela sofra de histeria. Ou seja, na condição de homem de ciência ao final do século 19, ele está autorizado a controlar o destino e a situação psíquica da esposa.


A história é contada na forma de um diário. Lutando contra a melancolia e a perturbação mental, a mulher passa os dias contemplando o papel de parede amarelo do cômodo, buscando em seus padrões algum escape, algum alívio para aquela situação. Desprovida do controle de sua própria vida, a personagem de Charlotte Perkins Gilman encontra na própria imaginação a força de que precisa para seguir viva. Uma imaginação não raro sinistra, mas que enfim prevalece sobre o horror.


2. Laura e Carmilla


Em uma das obras fundamentais da literatura vampírica, temos duas personagens exemplares. A novela Carmilla - A vampira de Karnstein, publicada entre 1871 e 1872 como folhetim pelo irlandês Joseph Sheridan Le Fanu, coloca em cena a jovem e solitária narradora Laura, que vê sua vida transformada com a chegada da misteriosa e fascinante personagem-título. Aos poucos, as duas desenvolvem uma uma forte conexão, enquanto são noticiadas as mortes de mulheres nos entornos do castelo em que Laura mora com o pai.


A novela de Le Fanu permanece relevante por diversos motivos. Um deles foi servir de fonte e inspiração para seu conterrâneo Bram Stoker, que mais de duas décadas depois publicou Drácula. Outro é a atmosfera sinistra da história, eximiamente construída pelo autor. O grande destaque, porém, é a relação entre Laura e Carmilla, que, para além do evidente aspecto homoafetivo, encena as potências do mistério feminino como poucas obras do gótico ou do horror fizeram antes ou depois.


3. Mina Harker, de Drácula


É sabido que Abraham “Bram” Stoker foi influenciado pelo romance de Le Fanu. Há mesmo quem afirme que a ideia de escrever Drácula surgiu devido a um pesadelo que Stoker teve após a leitura de Carmilla. A geografia exótica (Estíria, no caso de Le Fanu, e Transilvânia, em Stoker), o aspecto sedutor das criaturas vampirescas e mesmo o uso da estaca são pontos em comum entre as duas obras.


Porém, podemos afirmar que grande parte da força das personagens femininas de Le Fanu foi transferida para Mina Harker, figura central do romance de Stoker. Em Drácula, a jovem exerce diferentes papéis, e todos são fundamentais: é ela que reúne informações sobre o Conde e descobre seus planos malévolos, orientando assim a trupe liderada por Van Helsing; é ela a vítima da vingança do vampiro, que a morde algumas vezes e a enfeitiça, estabelecendo-se entre ambos uma espécie de conexão pelo transe; e é ela quem, ao final da história, resiste aos encantamentos das noivas de Drácula, atraindo o antagonista para que Jonathan Harker e Quincey Morris o aniquilem.


4. A governanta de A volta do parafuso


Publicada em 1898, a novela do norte-americano naturalizado inglês Henry James é, hoje, um clássico absoluto das narrativas de fantasmas. Poucas histórias assombram tanto quanto a da jovem governanta (tampouco nomeada) que vai cuidar de um casal de irmãos em uma mansão, após os empregados anteriores terem desaparecido misteriosamente.


A construção de James é minuciosa e labiríntica – cheia de reentrâncias psicológicas, sobretudo da narradora e das crianças. É desejável, ou inevitável, que nos percamos por esse espaço confuso. Vamos tateando pelos cômodos escuros e os arredores da mansão Bly até que nos deparamos com a luminosidade mortiça das aparições, em cenas magnificamente arranjadas. Em meio a todas elas, está uma personagem de início passiva, mas que vai se revelando cada vez mais forte – o suficiente para enfrentar o que quer que ameace a vida dos pequenos a quem ela tanto se afeiçoou.


5. Eleanor Vance, de Assombração da Casa da Colina


No romance A Assombração da Casa da Colina, de 1959, a norte-americana Shirley Jackson coloca quatro pessoas em uma mansão para investigar fenômenos sobrenaturais. Elas são lideradas pelo Dr. John Montague, espécie de detetive paranormal. A narração em terceira pessoa mergulha com frequência na mente de Eleanor (depois chamada de Nellie), em quem a história se concentra – e que se revela uma das personagens mais interessantes de toda a literatura de horror.


Adaptação para o cinema em 1963 de A Assombração da Casa da Colina (Foto: Reprodução)

A imersão psicológica em Nellie é ora delicada, ora brutal, em movimentos vertiginosos que nos seduzem e fascinam. Logo nos vemos muito próximos dela, que é, entre as personagens, a figura mais solitária, complexa e sensível aos horrores (reais ou sobrenaturais) da casa. Jackson constrói uma protagonista inesquecível pelo que ela que tem de humano, e pela coragem para enfrentar seu turbulento universo interior, as ameaças de fato sobrenaturais e as outras personagens pouco confiáveis.


6. Regan MacNeil, de O Exorcista


Por último, mas não menos importante, temos uma das mais famosas sobreviventes da literatura de horror: a jovem Regan do romance de William Peter Blatty publicado em 1971. A situação da personagem é delicada desde o início. Com apenas 12 anos, ela se vê acuada entre o divórcio dos pais e a agenda lotada da mãe, Chris, uma atriz famosa. A seguir, é conhecida a sina da garota, possuída pelo demônio Pazuzu e que sofre, com o perdão da infâmia, o diabo.


É fato que os heróis da história seriam os padres Merrin e Karras, ambos tendo perdido a vida para salvá-la durante o ritual de exorcismo. Mas é Regan que padece de horrores impensáveis, e é quem sobrevive para contar a história – ou para voltar ao Inferno em O Exorcista II - O Herege (de John Boorman), a malfadada sequência da adaptação do romance para os cinemas.

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