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  • Oscar Nestarez

“Body horror”: quando o corpo humano vira matéria-prima do medo*


Cena do filme A Mosca (1986) (Foto: Reprodução)

Em um dos episódios da série Lovecraft Country, Ruby, a irmã da protagonista Leti, passa por uma assustadora transformação. Negra, ela faz uma espécie de pacto para transformar-se em uma mulher branca (Hillary) e, como tal, aproveitar os privilégios oferecidos por um país segregado (a narrativa se passa nos EUA de 1950). Assim acontece: ela consegue um emprego na loja de departamentos em que sempre quis trabalhar e progride rápido. Também surpreende-se com a forma como é tratada pelas pessoas, muito diferente do tratamento que lhe é dispensado enquanto negra. Em certa altura, testemunhamos o momento em que Hillary volta a ser Ruby: uma metamorfose aflitiva, sangrenta.


Por tais particularidades, o episódio insere-se na categoria do horror corporal (ou body horror, em inglês). Assim é conhecido um dos mais interessantes subgêneros das narrativas de horror, no qual o corpo humano figura como a matéria-prima do assombro. Violações, mutações, anomalias e distorções são apenas algumas das possibilidades, e tão rica tem sido a produção nesse campo que já surgem correntes de estudos dedicados à poética do corpo nas narrativas assustadoras. À primeira vista, isso soa como uma novidade recente – o body horror costuma ser vinculado ao cinema da segunda metade do século 20, associado a nomes como John Carpenter e David Cronenberg. Um olhar detido, porém, revela uma história mais antiga.


Transformações assustadoras


Em Metamorfoses (8 d.C.), por exemplo, o poeta romano Públio Ovídio Naso (43 a.C. - 18 d.C.) narra uma cena aterradora: o caçador Acteão surpreende a deusa Diana banhando-se nua; então, é transformado por ela em um veado e depois é devorado pela própria matilha de cães. Em A Divina Comédia, Dante caminha ao lado de Virgílio em meio a árvores secas, sem frutos, e cujas formas têm algo de humano. Trata-se do bosque dos suicidas, para onde são enviados aqueles que tiram a própria vida. Após serem transformados em árvores, ainda servem de alimento para as horrendas Harpias.


No campo conceitual, as origens do horror corporal também se projetam longe. Podemos afirmar que a categoria tem relação com o grotesco, um termo que, derivado do latim, grotto (gruta ou pequena caverna), surgiu na Roma do século 14, quando foram descobertos corredores e salões de um antigo complexo palacial até então soterrado. Nesses espaços subterrâneos, foram encontradas imagens e estátuas de figuras míticas, metade humanas, metade animais. As representações fascinavam e horrorizavam na mesma medida.


De fascínio e horror trata Victor Hugo no prefácio que escreveu para a peça Cromwell (1827). O texto é fundamental para conhecermos a concepção de grotesco na literatura do século 19; ou seja, o materialmente feio e o disforme como marcas do que Hugo chamou de “gênio moderno, tão complexo, tão variado nas suas formas, tão inesgotável nas suas criações”. Contrapondo-o ao belo, que “não é senão a forma considerada na sua mais simples relação, na sua mais absoluta simetria, na sua mais íntima harmonia com nossa organização”, o feio é "um pormenor de um grande conjunto que nos escapa, e que se harmoniza, não com o homem, mas com toda a criação”.


Corpo e escrita


No campo acadêmico, os estudos que relacionam corpo e escrita também são desenvolvidos há certo tempo. Theodor W. Adorno (1903-1969), por exemplo, escreveu sobre como a mecanização dos processos sociais vem afetando nossa relação uns com os outros, criando-se uma sensação de desumanização. Sigmund Freud (1856-1939) e, posteriormente, Jacques Lacan (1901-1981), pensaram, a partir da psicanálise, como corpo, desejo e linguagem interagem de maneira complexa e indissociável.

Jacques Derrida (1930-2004), filósofo franco-magrebino, também trabalhou com esses temas: textos como Bichos da seda, no qual ele narra uma memória de infância, de uma época em que criou esses pequenos animais, revelam como a escrita e o corpo são, para ele, coisas inseparáveis: escrever é como tecer algo que nos envolve, uma mortalha, uma construção que só existe porque somos o que somos, corpos em intenso conflito e transformação.

SAIBA MAIS


Com os estudos acadêmicos abrindo-se cada vez mais para a indústria cultural e para a cultura pop, é possível encontrar pesquisas que começam a refletir essa relação entre corpo e escrita dentro de gêneros como o horror e a ficção científica. São trabalhos que mapeiam e destacam essa intrincada relação com o corpo em livros, filmes e quadrinhos de horror, de clássicos a contemporâneos.


Shelley pioneira, Kafka perturbador


Frankenstein, ou O Prometeu moderno, de Mary Shelley (1797-1851), é provavelmente um dos primeiros livros a trazer elementos do body horror como o definimos hoje. A famosa história do cientista Victor Frankenstein e sua criação monstruosa, formada a partir de pedaços de corpos roubados de um cemitério, traz o foco do horror para o corpo em si, para a vida que ressurge onde não deveria. O espírito visionário de Shelley fez de Frankenstein um verdadeiro experimento criativo da literatura ao estabelecer o corpo como fonte de medo, diferenciando-se do gótico, que até então apostava no locus horrendus e no sobrenatural para isso.


Também é possível encontrar elementos de body horror no trabalho de H.P. Lovecraft (1890-1937). O polêmico criador dos mitos de Cthulhu escreveu contos como O horror de Dunwich, sobre uma estranha família que, após rituais macabros com criaturas de outras dimensões, gera dois descendentes que apresentam estranhas deformidades. Também escreveu a narrativa Herbert West: Reanimador, na qual um cientista faz experiências em cadáveres a fim de trazê-los de volta à vida.


No caso das histórias de Lovecraft, as violações do corpo são problemáticas, já que o conhecido racismo do autor pode nos levar a apontar a utilização do horror corporal como uma maculação de um padrão racial “puro”. O tema reacende discussões – inclusive por meio de releituras que o subvertem, algo que Lovecraft Country realiza com as transformações da personagem Ruby.

Corpo e escritura ainda encontram-se de forma perturbadora em Franz Kafka (1883-1924). O escritor tcheco abordou questões relacionadas à carne em vários de seus trabalhos, explorando a submissão e os efeitos físicos de se sentir deslocado da sociedade. Textos como Na colônia penal ou A metamorfose são exemplos disso. No primeiro, uma máquina autônoma é utilizada para julgar e punir pessoas condenadas pelo duvidoso sistema de justiça de uma colônia, gravando a sentença em suas carnes enquanto as executa, em uma cena absurdamente gore.


No segundo texto, acompanhamos Gregor Samsa, um jovem que, ao despertar de “sonhos intranquilos", encontra-se transformado em um inseto monstruoso. Essa transformação ocorreria porque, no fundo, Gregor não era mais capaz de cumprir seu papel na sociedade e na dinâmica familiar, tornando-se um peso morto, um monstro sem utilidade. Em ambos os casos, Kafka direciona a frieza e a ironia amarga de sua escrita para o corpo humano, cutucando angústias e sentimentos que derivam da nossa existência como seres que percebem o mundo justamente por meio da carne.


Body horror na sétima arte


Evidentemente, Kafka não era um escritor de horror. Mas sua obra influenciou diversos criadores ao longo do século 20, em especial no cinema. Dois exemplos são David Cronenberg e David Lynch. O primeiro é considerado um dos nomes mais importantes do horror corporal no cinema. Filmes como Enraivecida na Fúria do Sexo (1977), e Filhos do medo (1979) marcaram o início da carreira do diretor.


Mas foi na fase oitentista que ele criou verdadeiras pérolas do subgênero, como Videodrome - A síndrome do vídeo (1983), no qual relacionam-se submissão corporal, mídia, paranoia e perversão sexual, e A mosca (1986). Remake de um sci-fi dos anos 1950, o filme conta a história de Seth Brundle, um cientista que, após realizar experimentos com uma máquina de teletransporte, acaba fundindo seu DNA com o de uma mosca. A partir daí, seu corpo começa a passar por grotescas transformações, brilhantemente filmadas por Cronenberg a partir de efeitos práticos que até hoje causam repulsa.


Como o body horror não se constitui apenas de “cenas nojentas”, A mosca também traz um potente subtexto: o filme foi interpretado como uma metáfora do medo da aids e de como os efeitos de uma doença podem trazer angústia, sofrimento e isolamento. Além, é claro, de colocar em cena o antigo tema dos limites da ciência, que também aparece em Frankenstein.

David Lynch, por outro lado, utilizou o body horror em apenas algumas de suas obras, mas quase sempre como metáforas oníricas, relacionadas a traumas e medos profundos. É o caso de Eraserhead, filme de 1977 no qual Mary, esposa do protagonista Henry, dá à luz um bebê deformado que sequer parece humano e o abandona aos cuidados do pai. O que se segue (entre outras viagens lynchianas) é uma história sobre o medo da paternidade e a dificuldade em assumir certas responsabilidades.


O corpo e a paranoia


Agora, imagine que você se encontra preso com seus colegas no trabalho e descobre que uma forma de vida alienígena invadiu esse lugar. Ela pode entrar em qualquer corpo e assumir sua forma, sem que você nem o “possuído” saibam. Quando o alienígena se revela, deforma e destrói o corpo que invadiu, ao mesmo tempo em que se transfere para outro. Aos poucos, a entidade vai dominando um por um, e você precisa evitar ser infectado para poder escapar com vida.


Isso é mais ou menos o que acontece em O enigma de outro mundo (1982), de John Carpenter, outro grande cineasta que explorou o body horror em seus trabalhos. O filme também é um remake de um clássico sci-fi, e a trama transporta o clima de paranoia da Guerra Fria para uma instalação de pesquisas na Antártida, onde cientistas são atacados por um alienígena com a capacidade de invadir corpos. Nesse caso, o perigo é o corpo de quem está ao seu lado, ou o seu próprio, que pode ser dominado por algo sem que você sequer saiba…


O horror corporal também é a força motriz de outro subgênero do cinema de horror: os filmes de zumbi. Diretores como George A. Romero e Dan O'Bannon exploraram de diversas formas a figura do morto-vivo. A quantidade de produções nesse campo mostra a riqueza de abordagens possíveis: críticas ao comportamento das massas, ao consumismo e à banalização da violência são alguns exemplos do que os zumbis podem “dizer” em filmes, séries, quadrinhos e games.


E por falar em jogos eletrônicos, o body horror encontrou neles um terreno fértil para o entretenimento e a bizarrice. Games usam e abusam do subgênero desde o final dos anos 1990. Os exemplos mais consagrados são as franquias Resident Evil e Silent Hill, que apostam na violação corporal para assustar: zumbis, monstros, corpos mutilados e criaturas que parecem ter saído dos mais sinistros pesadelos estão presentes nesses e em outros games de sucesso, como Dead Space e The Evil Within.


Barker e Ito, especialistas no assunto


Voltando à literatura, temos no britânico Clive Barker o principal nome do horror corporal. E não por acaso: tanto na série Livros de sangue quanto em narrativas mais longas como Hellraiser ou A raça das trevas, Barker coloca o corpo no epicentro do horror, atribuindo-lhe diferentes significados e submetendo-o a situações aterradoras. No conto Nas montanhas, as cidades, por exemplo, o corpo torna-se, literalmente, social – uma vez por ano, seguindo um antigo ritual, os habitantes de duas pequenas cidades da antiga Iugoslávia compõem (subindo uns em cima dos outros) corpos gigantescos, que então duelam; o resultado é uma carnificina sem precedentes. Já em Hellraiser, a obsessão pelo prazer carnal rompe barreiras entre dimensões e atrai os Cenobitas, entidades sobrenaturais que submetem suas vítimas a experiências físicas extremas.


Nos quadrinhos, o aspecto visual, somado à imaginação de seus criadores, pode resultar em verdadeiras obras-primas do horror corporal. É o caso do japonês Junji Ito, tido como um dos maiores nomes do mangá assustador da atualidade. Obras como Uzumaki - A espiral do horror, Tomie e o recente Fragmentos do horror trazem características do subgênero, como corpos deformados, gore intenso e demais insanidades, que ganha novos contornos graças ao traço carregado e detalhista de Ito.


Hoje, o corpo continua incentivando novas formas de abordagem artística. Um exemplo é o recente Possessor (2020), filme de Brandon Cronenberg, filho de David Cronenberg e que, assim como o pai, uniu horror corporal e ficção científica em uma trama que envolve paranoia, manipulação e muito sangue.


Outro exemplo é o remake de Suspiria (2018), dirigido por Luca Guadagnino e que conta com uma das cenas mais inventivas do subgênero nos últimos anos. Essas obras mostram como as nossas relações com a carne são repletas de potencial criativo. Afinal, se o corpo estabelece a nossa conexão material com o mundo, é natural que também seja um veículo para os medos que sentimos dele.


*Texto escrito em colaboração com Everaldo Rodrigues, escritor e estudante de literatura. Everaldo é autor de quatro livros autopublicados, entre eles a novela "O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera", com a qual ganhou o Prêmio ABERST de Literatura 2018 na categoria Melhor Conto ou Novela de Horror. Também participou das coletâneas Antologia Dark (Darkside Books) e Confinados (Monomito Editorial).

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