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  • Oscar Nestarez

Bíblia e literatura de horror: como uma dialoga com a outra?


Representação artística do pintor britânico John Martin da destruição de Sodoma e Gomorra (Wikimedia Commons)

As escrituras sagradas têm um lado assustador que conversa com obras do gênero fantástico


Há quase 4 mil anos anos, no extremo sul do Mar Morto, existia um lugar paradisíaco chamado Vale do Sidim. Nele, espalhavam-se cidades cujos moradores eram conhecidos por hábitos um tanto singulares. Entre os outros povoados da região, ficaram famosos o sadismo e a crueldade com que os forasteiros eram recebidos naquelas comunidades. Mas o que mais despertava a atenção era o comportamento das pessoas que lá viviam. Os vizinhos as consideravam pecadoras, amorais, blasfemas. Até que algo assombroso ocorreu: do céu escurecido, gigantescos rios de lava despencaram diretamente sobre aquelas cidades, dizimando-as, assim como todos os que lá viviam. Cenas de indescritível horror.


A história acima é um breve resumo dos trechos bíblicos que relatam a destruição de Sodoma e Gomorra. A passagem está no Gênesis, o primeiro livro das Escrituras Hebraicas (conhecidas pelos cristãos o como o Antigo Testamento). Mas a aniquilação das cidades poderia ser encontrada em qualquer obra de ficção que se propusesse a aterrorizar leitores ou espectadores. Com efeito, o evento é apenas um entre muitos exemplos que justificam a importância da Bíblia para o imaginário da ficção de horror. Desde que a literatura fantástica assumiu uma posição autônoma em relação a textos medievais, clássicos e da antiguidade, a Bíblia e as histórias assustadoras vêm empreendendo diálogos riquíssimos.


Fonte muito recorrente de inspiração


Para Cristhiano Aguiar, escritor e professor do programa de pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, essas relações remontam aos alicerces da ficção de horror. “Sem sombra de dúvidas, a Bíblia é uma fonte muito recorrente de inspiração para essas narrativas ao longo de décadas, e até de centenas de anos, partindo do romance gótico no século 18”. Estudioso dos aspectos literários da Bíblia, Aguiar menciona, como exemplos, as inumeráveis obras horror que tratam de exorcismo e de possessões demoníacas.


No entanto, ele lembra que a forma como o demônio é mais comumente retratado por criadores e criadoras de horror está relacionada a outros textos, e não apenas os bíblicos. “Sim, há uma conexão com a Bíblia; mas vejo que essa figura é mais fundamentada em um conjuntos de textos medievais, ou mesmo apócrifos”, afirma o pesquisador, referindo-se aos livros de cunho religioso nos quais não se reconhece a inspiração divina, e que por isso não foram incluídos na Bíblia.


Aguiar aponta, também, os temas apocalípticos, tão recorrentes em livros e filmes de horror. “Identifico muitas das ideias do fim do mundo incorporadas por narrativas assustadoras como originárias do Novo Testamento, em que está o livro do Apocalipse. Mas algumas falas de Jesus em outros textos também as evocam, e contribuíram para enriquecer esse imaginário”, comenta o pesquisador.


O horror da punição


Em uma dimensão maior, os textos bíblicos contêm a tônica que, por muito tempo, prevaleceu nas narrativas assustadoras, e que ainda encontra reverberações nos tempos atuais: a punição. Cristhiano Aguiar lembra que, no geral, os livros do Antigo Testamento tratam de um povo escolhido, o Hebreu, e de sua obediência a Deus. “As tensas relações entre os hebreus e Deus marcam essas narrativas; e quando o povo é desobediente, é punido, e geralmente com violência”.


A brutalidade da punição sem dúvida interessou ficcionistas do gótico e, depois, do horror. “Nas narrativas assustadoras mais tradicionais, de 200 ou 100 anos atrás, havia uma afinidade entre os mecanismos de punição moral com que Javé (uma das formas como Deus é chamado no Antigo Testamento) castigava a comunidade hebraica, e os mecanismos de punição moral que escritores dos séculos 18 e 19 estabeleciam para personagens que se desviavam. Muitas vezes, essas operações eram simbolizadas pela figura de monstros”.


Lovecraft e a retórica bíblica


Mas não é apenas no campo temático que ocorrem os diálogos entre os textos bíblicos e a literatura de horror. Grandes autores e autoras do gênero souberam enriquecer suas obras com um tom grave e um lirismo que evocam aqueles dos textos religiosos. Para Cristhiano Aguiar, um exemplo é o autor norte-americano H.P. Lovecraft. “Percebo no conto A cor que caiu do espaço, por exemplo, uma retórica bíblica que me lembrou demais o Novo Testamento e, principalmente, o Antigo Testamento. Nesses casos, podemos dizer que o horror também incorpora alguns elementos linguísticos e poéticos dos textos bíblicos”.


A propósito de Lovecraft, podemos apontar outro interessante diálogo entre a vertente do horror cósmico, da qual ele é o grande expoente, e os textos bíblicos. Afinal, ambos tratam da pequenez do ser humano; seja diante do cosmos, como no caso literário, seja diante de um Deus absolutamente soberano, no âmbito bíblico. “Javé evolui, ao longo da bíblia hebraica, para essa figura de inquestionável poder. Então, acho também que existe uma representação da fragilidade humana, e do fato de que o homem está à mercê de forças que ele não controla. O Livro de Jó é um exemplo disso”, aponta Cristhiano Aguiar. Essa ideia da insignificância do homem em função do desconhecido é, também, recorrente nos textos lovecraftianos.


Evitando anacronismos


É importante destacar, ainda, que os diálogos entre a Bíblia e as narrativas de horror devem hoje ser estudados à luz da intertextualidade. Ou seja, se afirmamos que existem passagens específicas de horror na Bíblia, podemos cometer um anacronismo, uma vez que os textos religiosos antecedem em muitos séculos o surgimento dessas narrativas, que são organizadas em torno de um efeito estético.


“Não é possível afirmar se as passagens bíblicas mencionadas acima, ou tantas outras, eram assustadoras para o público original desses textos”, concorda Aguiar. “Pegando a destruição de Sodoma e Gomorra: temos um genocídio, com lava caindo do céu. E no dia seguinte, vemos Abraão em um morro, observando as cidades destruídas, com colunas de fumaças que se erguem rumo aos céus: é assombroso, é impressionante. Mas cabe nos perguntarmos se para o leitor e para o imaginário da época tudo isso não seria algo aceitável”.


Seja como for, a Bíblia continua sendo uma riquíssima fonte de temas e elementos retóricos para a escrita de horror. Ainda que certas fórmulas tenham se esgotado ou estejam perto de se esgotar — como a figura bíblica do demônio, já não tão assustadora para muitos leitores e espectadores —, outras atualizaram-se, encontrado novas expressões na escrita de horror contemporânea. Um exemplo é o próprio tema da possessão diabólica, que foi bem-sucedida ao invadir o campo dos distúrbios psicológicos em obras como Na escuridão da mente (2015), do norte-americano Paul Tremblay. 


Na opinião de Cristhiano Aguiar, o contexto atual também pode favorecer uma retomada de elementos sobrenaturais do horror de inspiração bíblica. De acordo com ele, o momento é de exacerbação religiosa — e portanto, política. “Alguns aspectos da Bíblia continuam assustadores para nós, mas são capazes de nos ajudar a repensar os dias atuais como um todo. Por isso, acho que eles podem voltar, e com força”, conclui o pesquisador. Resta esperarmos que não voltem na forma de lava caindo dos céus.

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